Sociedade

Na Rua dos Dias, os dias foram suspensos

17 ago 2017 00:00

Marcelo Rebelo de Sousa prometeu casas prontas no Natal.

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Jacinto Silva Duro

Caminhar na zona queimada levanta o cheiro requentado a incêndio e cinza. Remendos de azeviche marcam os sítios, na EN236, onde arderam os carros onde mais de 40 pessoas perderam a vida. Gente que fugia das labaredas; pais, crianças, avós, famílias inteiras. Mas se dúvidas houvesse do que ali aconteceu, coroas de flores colocadas na berma, facilmente as esclareceriam.

Agora, carros com famílias deslocam-se, agora, à infame recta para "ver". São excursões macabras de gente que assistiu aos incêndios pela televisão e, agora, fazem ali uma espécie de catarse.

Na Rua dos Dias, os dias deixaram de passar. O tempo em Figueira, freguesia da Graça, parou há dois meses e as conversas perderam a importância. Os ouvidos deixaram de ouvir e os olhos de ver, tapados por uma sombra de tristeza.

Na Rua dos Dias, Rosalina Rosa, 79 anos, perdeu tudo. Ficou feito em cinza. No primeiro dia do fogo, a 17, o demónio de hálito escaldante e fedorento que é o fogo, rondou-lhe o lar. Queimou o palheiro do lado, secou as torneiras e o poço.

No segundo dia, a 18, já com a lição estudada, entrou-lhe à socapa, por baixo das telhas e roubou-lhe uma vida de trabalho. “Já não tenho paciência para as pessoas que andam por aqui a perguntar como foi que aconteceu!”, desabafa.

No número 5, da Rua dos Dias, fica o café do Lino, que é o filho da Rosalina. Ela é conhecida como "a mulher do chapéu da Figueira". É a sua marca registada. Nunca o tira, nem quando vai ao médico. Tem um especial para essas visitas.

Por cima do balcão, a televisão está ligada e passa mais um programa de tarde de Verão, difundindo um travesti da cultura popular portuguesa, com música pimba e artistas de talento questionável.

Sentada de costas para a parede, Rosalina controla a porta. A esta hora, tomado que está o café pós-prandial, os clientes escasseiam. "Vêem-me, lá'lém, mais o Presidente?", diz, apontando para a parede oposta, onde aparece numa fotografia ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa.

"Esteve dentro da minha casa queimada, logo a seguir ao fogo e prometeu que, em Dezembro, as casas iam estar construídas e que ele vinha cá passar o Natal com a família."

“A mulher do chapéu” e o filho solteiro, Adelino, perderam tudo. Só ficou o café. O resto esfumou-se. Enquanto esperam uma ajuda para reconstruir a casa, dormem em casa da irmã de Rosalina.

Naquele dia, ela e o filho ligaram incessantemente para os bombeiros, mas não tiveram resposta. Talvez fosse por causa do Siresp, do diabo ou do fim do mundo. Resignaram-se e fecharam-se no pequeno café do Lino. Foi da guarita que sofreram a angústia de ver a casa transformar-se em cinza.

"As paredes a tombar para o chão… Aquelas bolas de lume pareciam bombas que puseram para aqui. Rebentavam com tal estrondo! Vi muitos fogos, mas nunca uma coisa assim", recorda, com a voz afogada em lágrimas.

O discurso é marcado por silêncios, como se a voz, pequenina, enferma de tristeza, procuras-se fôlego para se fazer ouvir. "Ando doente... ando doente. Sinto-me mal. Abatida da cabeça e do corpo. Perdi muito peso."

 

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