Viver

Na Ronda Poética o verso vai ao hospital e à prisão

14 mar 2019 00:00

Para todos os públicos e idades, a espalhar poemas nas ruas e a cruzar poesia com música, dança, teatro e cinema.

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Trinta actividades, em cinco dias, mais um dia do que em 2017. A Ronda Poética 2019, que começa na próxima quarta- feira, em Leiria, chega às escolas, à prisão, ao hospital e aos lares da terceira idade – para que todas "as pessoas possam ser implicadas a partir de um verso, a partir de um poema, a sentirem a poesia como algo que as transforma", explica Paulo José Costa, poeta, psicólogo e co-organizador do programa que decorre entre 20 e 24 de Março, em parceria com a livraria Arquivo e o Município de Leiria. Todas as pessoas, incluindo reclusos. Um deles estará mesmo, temporariamente, no exterior da cadeia.

Nomes nacionais como Luís Filipe Castro Mendes, Alberto Pimenta, José Anjos, Carlos Barretto e Manuel João Vieira juntam-se a autores e artistas locais, alguns deles com criações originais específicas para a Ronda Poética 2019, como é o caso do mini-documentário em vídeo Rondó, de Luís Marques da Cruz.

Ao longo do itinerário, há poemas da autoria de alunos, reclusos e idosos espalhados pela cidade e a Ronda Poética 2019 alcança até os lugares mais improváveis. Por exemplo, a sala de espera das consultas externas do serviço de pediatria do Centro Hospitalar de Leiria (CHL), com leitura de poemas para a infância e canções tradicionais em jeito de recital inesperado. E, se se proporcionar, a construção do poema receitado pelo médico, através de um origami, um avião de papel, um chapéu ou um barco, numa intervenção dinamizada por Nídia Nair Marques com elementos da SAMP – Sociedade Artística e Musical dos Pousos.

Paulo José Costa, que é assistente de psicologia no CHL e trabalha sobretudo com crianças e adolescentes, lembra que "a poesia é sempre uma forma de expressão emocional" e "ajuda a entender coisas que as pessoas não expressam de forma directa, por estarem retraídas ou terem dificuldade em fazê-lo sem um momento de introspecção, sozinhas consigo próprias", o que se revela um instrumento precioso para o crescimento pessoal, no consultório e fora dele.

Destaque também para a maratona de poesia na prisão, com poemas lidos por reclusos, guardas e técnicos, convidados a criar com base no tema A poética das chaves; o pequeno-almoço com poesia no Praça Caffè, em que alunos chineses do Politécnico de Leiria vão ler Fernando Pessoa; e o declamatório instalado no centro histórico para leituras de poesia por quem passa.

O esforço para convocar todos os públicos e converter até os mais desconfiados reflecte-se ainda no envolvimento de várias gerações, dos mais novos aos mais velhos, nomeadamente, através da gala de poesia nas escolas com alunos do primeiro ao quinto ano e da leitura de poemas de canções tradicionais numa espécie de serenata para o público sénior do Lar S. Francisco, enquanto na Quinta do Alçada os jovens que participam no projecto Redes na Quint@ vão construir poemas através de um jogo de dados e lê-los nas ruas do bairro.

O encontro, inevitável, segundo Paulo José Costa, com outras artes, acontece através do cinema, da dança, do teatro e, sobretudo, da música – incluindo o espectáculo de encerramento da Ronda Poética 2019, que está entregue ao colectivo No Precipício era o Verbo e envolve sons e leituras encenadas. Antes, é atribuído o Prémio de Poesia Francisco Rodrigues Lobo, uma iniciativa da Livraria Arquivo e da Fundação Caixa Agrícola de Leiria.

Durante cinco dias, fruto de parcerias e colaborações, diálogos e intercâmbios, com diversas plataformas de cultura e associações, há tertúlias, lançamentos e apresentações de livros, recitais e concertos, serões poético-musicais, exposições de pintura e fotografia, projecção de filmes e poetry slam.

A poesia no centro dos acontecimentos, em Leiria, cidade com longa tradição que remonta às cantigas de amor e ao rei D. Dinis. "Talvez o semeador", arrisca Paulo José Costa, que no cenário da Casa do Terreiro vai dar voz a obras de autores leirienses desde D. Dinis até à actualidade, com música de André Barros e coreografia de Clara Leão. "Há sempre uma dimensão de comoção associada à poesia", antecipa. "O género poético é tão amplo que permite sempre algo de novo".

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