Desporto

Miguel Lucas: “Também sou treinador e todos nós sofremos de ‘treinismo’”

11 dez 2014 00:00

Está ligado a dois dos grandes nomes do desporto nacional. Foi treinador de Carlos Calado, ainda hoje recordista nacional do salto em comprimento, e é psicólogo de Nuno Saraiva, o mais promissor judoca da nova geração.

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Quando ganhou a medalha de bronze no Mundial de juniores, em judo, Nuno Saraiva fez questão de relevar o seu papel enquanto psicólogo naquela conquista.

Não tenho dúvidas de que estamos a fazer um trabalho distinto e sistematizado, muito focado em conseguir que as componentes da prática dos conceitos da psicologia interferiram de forma construtiva, potenciando o treino, permitindo que o atleta esteja constantemente a progredir, conhecendo-se melhor e o que tem de desenvolver para atingir o nível que queremos que ele atinja. Um segundo aspecto é a preparação para uma grande competição.

Como se faz isso?

O que mais fazemos é o trabalho das rotinas pré-competitivas, que se focam apenas nos momentos antes de entrar em competição. Muita coisa acontece nos três ou quatro combates que pode haver num dia. O ideal é que o atleta não perca, mas pode acontecer, como no Campeonato do Mundo. O Nuno foi derrotado num dos combates, o que já o impedia de chegar à medalha de ouro, mas podia continuar a lutar pelo bronze. Se ele vai unicamente a pensar numa medalha de ouro pode ficar logo defraudado e vai ficar mais focado na desilusão do que no combate que vai ter a seguir. Em vez de ficar em terceiro, como ficou, poderia ficar em sétimo ou em nono. O Nuno está treinado, não para evitar sentir – porque é impossível não sentir o impacto da perda – mas para depois conseguir canalizar a sua atenção para os processos motivacionais e emocionais, cognitivos de orientação da tarefa, de crença: “posso ganhar nos primeiros segundos, posso ganhar nos últimos segundos, todo o tempo de combate é útil. Se a estratégia A não está a ser bem-sucedida posso mudar de estratégia”.

Cada modalidade tem as suas especificidades. O seu trabalho também depende da modalidade com que está a trabalhar?

A base é a mesma e passa por criar no atleta a mentalidade competitiva vantajosa, que tem de levar em consideração a disciplina que o atleta pratica. O que é vantajoso para a atletismo não será para o ténis. Na natação, por exemplo, durante a competição não existem muitas componentes de estratégia que possam fazer diferença. O que há são todas aquelas que foram trabalhadas anteriormente. Durante o percurso não há grande coisa a fazer. Já no judo há tempo para pensar e para mudar de estratégia, de perceber que estamos em desvantagem, ou que o tempo está a escassear. Muita coisa deve estar sistematizada para que o atleta não fique à mercê de um raciocínio que pode estar certo, ou não. Ele tem de ter a certeza que é por ali que tem de agir, não de forma racional nem emocional, mas sempre de forma funcional.

A psicologia já é devidamente valorizada no desporto?

Ainda é o parente pobre das mais-valias do desporto. Toda a gente sabe que é importante e que faz a diferença. Nota-se, depois de uma competição menos bem-sucedida, que praticamente todos os agentes do desporto concordam que foi devido a aspectos psicológicos ou emocionais. Então se a perda está ligada a isso, porque não nos vamos preparar para que numa próxima situação tal não suceda? Salvo raras excepções, ainda nem sequer estamos na fase em que o atleta tenha habilidades psicológicas que não lhe bloqueiem a competência física, quanto mais fazer um trabalho que possa potenciar as condições físicas e técnicas.

E porquê?

Sobretudo por falta de conhecimento. O próprio treinador pode ter receio que chegue outro agente para interferir no seu mérito e até ter medo que o atleta constate que, afinal, não sabia tanto assim. Também penalizo a minha área. Precisamos de melhores psicólogos, que apresentem melhores trabalhos e com melhor rendimento. Depois, ainda há as questões financeiras.

Um treinador tem prazo de validade para um atleta?

Penso que não, porque nas modalidades individuais vive-se muito das duplas. Temos muitos casos de atletas que conseguiram chegar ao topo sobretudo pelo entendimento e confiança com o treinador, pelo facto de sentirem que são uma dupla especial e que sem aquele parceiro não atingiriam esses resultados. Ainda assim, a tendência pode ser que essas duplas se quebrem, não só por desgaste, mas por interferências de outra ordem, por haver uma inconsistência de rendimento e já se começar a duvidar um do outro. Mas acredito que tem sido uma mais-valia.

Os treinadores precisam de psicólogo?

Não precisam de um psicólogo na vertente tradicional, mas beneficiariam de algum acompanhamento da psicologia para perceberem que poderá haver outras formas de intervir com os atletas e que há um conjunto de aspectos que nunca levaram em consideração. Também sou treinador e todos nós sofremos de ‘treinismo’. Um termo que não existe, mas que significa treinar para o treino, para cumprir o que levou décadas a aprender e horas a planificar. Os treinadores querem muito que aquilo seja feito de determinada forma e esquecem- se daquele que deve ser sempre o objectivo principal do treino: a competição. Como estão períodos prolongados sem competir, sobretudo nas modalidades individuais, perde-se a ligação do exercício àquilo que importa que o atleta venha a desempenhar.

Mas se perceber a importância da psicologia...

O treinador ficará muito mais flexível e menos preocupado pelo incumprimento de um conteúdo. Pode alterar um treino mais facilmente, porque não está ali a pensar no treino, mas naquilo que é preciso fazer para estar melhor em competição. E se este treino não se adequa naquele momento às circunstâncias do atleta, ele não tem de o fazer. Se o técnico estiver demasiado dependente do próprio treino, vai forçar o atleta a fazer, vai irritar-se e vai apontar factores que não importam, como dizer que o atleta está a ser preguiçoso e que não quer sofrer. Coloca-se os atletas no limite do sofrimento pela crença que o treino é para cumprir.

A psicologia também ensina o treinador a falar com o seu atleta?

Posso dar um exemplo. Existem palavras que não devem ser ditas. Chama-se comunicação não violenta. Posso dizer a um atleta que está “como um bicho”. Isto é uma comunicação violenta, porque estou a agregar todas as características de um atleta a uma só palavra e isso pode ser danoso, principalmente se ele não se vê como tal ou se depende muito mais das suas características técnicas do que da força. É uma comunicação violenta, parecendo, no meio desportivo, ser um elogio. Também não posso dizer ao atleta “não podes diminuir a tua intensidade de ritmo nos últimos metros”. Tenho de dizer “tens de manter a intensidade de ritmo nos últimos metros”. Devemos ir ao encontro daquilo que queremos e não daquilo que tememos.

Treino ou tranquilidade. O que é mais importante nos dias que antecedem uma grande competição?

Não é por na semana antes fazer o treino A ou B que se vai conseguir um melhor resultado. Importa é que outros factores que podem potenciar aquilo que foi feito até ao momento estejam presentes. Devemos considerar outras áreas de vida do atleta. Os amigos, a família, a namorada, as saídas, os sítios a que gosta de ir. Se estivermos a retirar isso é como se lhe estivéssemos a vazar um pouco dessa energia, que será consumida em sítios inóspitos, em que se está focado apenas no treino. Os outros reservatórios começam a ficar vazios e precisam de ser cheios novamente.

É possível exercer as funções de treinador e psicólogo com os mesmos atletas?

É engraçado que os meus atletas do Clube de Atletismo da Marinha Grande não conhecem muito da minha vertente de psicólogo. A não ser a que está implícita, a forma como os abordo, como programo o treino, como preparamos as competições e lhes lanço os desafios. Na perspectiva em que trabalho apenas como psicólogo do desporto de outros atletas, não está. Não posso vestir as duas peles ao mesmo tempo, porque tenho de continuar a pensar como treinador para lhes dar treino. Uso é o conhecimento que tenho de psicologia não para ser psicólogo, mas para ser treinador.

Treinar um miúdo hoje é diferente do que treinar um miúdo há 15 anos?

É, por variadíssimas razões. A sociedade fez passar a imagem do sucesso rápido, de quem não tem sucesso não tem valor. Acontece que na primeira fase, se o atleta tem de se dedicar e não consegue bons resultados, tende a ficar desmotivado e a abandonar, não dando valor ao esforço. Quer que tudo surja muito mais rápido e no desporto a recompensa é adiada constantemente. É trabalho e trabalho, acreditando que um dia vai conseguir alguma coisa. Por outro lado, aquelas cargas astronómicas de volume de treino que se faziam antigamente talvez até nem fossem as mais adequadas, mas surtiram efeito porque tínhamos crianças que estavam mentalmente preparadas para o sofrimento. Hoje não. Esse mundo não existe mais. É tudo muito mais facilitado, está tudo muito mais à mão, ninguém passa frio, toda a gente se desloca de carro, há condições para trabalhar em todo o lado. A palavra sofrimento quase saiu do dicionário e ainda bem.

O papel do treinador é, então, diferente?

Temos de adequar o treino aos tempos modernos e acredito que o desporto não vai evoluir para mais volume, mais treino e mais carga. Não pode. Atingimos o limite. Tem de ir para mais ligação ao treino, não importa tanto o que se faz mas como se faz, não importa tanto o que os outros fazem, mas aquilo que eu preciso fazer. Não podemos andar a matar os atletas como nas décadas de 1980 e 1990. Temos de lhes dar espaço para outras coisas e, com isso, aumentar a qualidade e a eficácia do treino. Posso dizer que muito do treino que se fez, e do qual não me excluo, era lixo.

Importante é ouvirem-se mutuamente...

Há muitos atletas excepcionais, mas para se ganhar uma medalha ela tem de ser preparada. Há atletas extremamente inteligentes que nos vão dando dicas e temos de aprender com eles, porque eles é que sentem. Se dizem que antes da competição não gostam de treinar ou não querem ver a pista, o treinador não pode ficar agarrado à teoria que diz que deve ser feita uma activação. Não é a teoria que vai saltar e temos de ser flexíveis. Por outro lado, se dizemos a um atleta que acreditamos que vai ser capaz de atingir uma marca quando chegar a determinado nível num exercício, estamos a trazer a emoção do resultado para aquele exercício. Então, o atleta dedica- se como se estivesse a fazer o resultado. Isto é o doping natural, porque o treino está ligado à competição e, mais do que isso, ao resultado concreto que queremos atingir. São gatilhos constantes. O que eu percebo é que muitos atletas são exímios a treinar, mas estão desligados do objectivo.

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