Desporto

A mais perigosa onda do planeta fez do surf um desporto colectivo

12 dez 2017 00:00

A segurança é vital e tem de ser respeitada por todos. O problema é que dada a perigosidade do local, os procedimentos comuns em outras latitudes não se adequam. A palavra-chave é prevenção.

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Estamos na época delas. Não das castanhas, mas das ondas grandes, fortes e perigosas. Os surfistas mais radicais esperam ansiosamente que as previsões meteorológicas digam qual é o momento certo para apanhar o avião e rumar a Portugal.

E porquê? Um dia, Garrett McNamara assumiu, em entrevista ao JORNAL DE LEIRIA, ser a onda da Praia do Norte “a mais pesada do Mundo”. Ora, é precisamente essa especificidade que faz com que seja cada vez mais procurada pelos corajosos, mas também por alguns menos conscientes.

“É uma bênção estar ligado à mãe natureza desta maneira e sentir esta energia e poder, que nos alimenta e nos faz sentir tão vivos”, disse o italiano Francisco Porcella, vencedor do prémio de maior onda surfada do ano passado.

O português Hugo Vau, em declarações a este semanário, alinhou pelo mesmo diapasão. “É um misto de felicidade, com muita adrenalina. O oceano é muito poderoso e não vale a pena lutar contra ele. Sinto uma perfeita sintonia com a natureza e um enorme bem-estar.”

“A Nazaré é uma nova realidade e as pessoas não estão preparadas, porque não há um sítio seguro para se estar. É um contexto que nada tem de parecido, inimaginável até as pessoas tomarem contacto"

O profundo respeito pela natureza, é, por outro lado, o que faz estes rapazes permanecerem com os sentidos em alerta. “Faz que te mantenhas focado e perspicaz”, disse Garrett McNamara. “A Nazaré é o local mais perigoso do Mundo. A onda é caótica. Perigosa. A corrente está sempre a mudar.”

As palavras são de Andrew Cotton, numa conversa com os alunos da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria, em 2015. Bem antes, portanto, do susto que o levou para a cama de um hospital no início deste mês de Novembro, com fracturas na coluna.

O perigo existe, os problemas podem acontecer a qualquer momento e o mais importante é ter a retaguarda bem segura para que um acidente não se torne jamais numa tragédia. As quedas acabam por ser uma inevitabilidade perante condições tão extremas.

Antes de Andrew Cotton, dois brasileiros tiveram os acidentes mais mediáticos na Praia do Norte. Maya Gabeira, em 2013, chegou ao ponto de ter de ser reanimada no areal.

“No Hawaii consegue-se ter uma mota de água para uma série de pessoas. Na Nazaré tem de haver duas ou três motas por pessoa, um plano B e um plano C”

Nuno Santos é o único surfista local de ondas grandes. Está “genuinamente” preocupado com a quantidade de surfistas que têm chegado à Nazaré à procura de cinco minutos de fama. No dia em que Andrew Cotton teve o acidente, por exemplo, havia mais de duas dezenas de atletas no mar.

Ele não se preocupa com Garrett McNamara, com Andrew Cotton, com Sebastian Steudner – de quem é piloto – mas com aqueles que chegam ali sem o suporte que entende ser necessário para poderem surfar com segurança. São jovens lobos, menos conhecidos, e que vêem o local como uma “rampa de lançamento”.

“A Nazaré é uma nova realidade e as pessoas não estão preparadas, porque não há um sítio seguro para se estar. É um contexto que nada tem de parecido, inimaginável até as pessoas tomarem contacto. Ao passo que em qualquer outra onda grande do mundo existe sempre um canal e uma zona de segurança onde podem estar com equipas médicas, na Nazaré o único sítio seguro é no penhasco, mas aí não se vai buscar ninguém.”

O que existe de mais parecido “não é um terço do que lá se passa”. “No Hawaii consegue-se ter uma mota de água para uma série de pessoas. Na Nazaré tem de haver duas ou três motas por pessoa, um plano B e um plano C.” O melhor que é feito lá fora ao nível da segurança “não tem aplicabilidade”, sublinha o surfista.

“Há malta sem mota de resgate, o que tem de ser revisto. Há um esquema de segurança desde que Garrett McNamara chegou e que nem sempre é respeitado”

Nuno Santos dá um exemplo: “combinar sinais”. “Levanto os braços para dizer que estou ok e desligo a mota? Não pode ser. Na Nazaré não podemos andar com a chave da mota-de-água agarrada ao pulso, porque tem de estar sempre ligada. Se se virar é menos uma coisa para perder tempo.”

 

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