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Lentriscas em Castelo | Mata Bicho: o sabor da inquietação

26 ago 2026 16:37

O verdadeiro projeto nunca foi um restaurante, um bar ou uma galeria. Foi uma forma de olhar para os negócios, para a cidade e para o próprio tempo

Vasco Ferreira e Sabino Carvalho, responsáveis por um dos projectos mais singulares de Leiria
Vasco Ferreira e Sabino Carvalho, responsáveis por um dos projectos mais singulares de Leiria
Ricardo Graça
Uma cozinha segura, assente no respeito pelo produto
Uma cozinha segura, assente no respeito pelo produto
A tradição continua a ser profundamente contemporânea quando é tratada com inteligência
A tradição continua a ser profundamente contemporânea quando é tratada com inteligência
O Edifício Zúquete como um lugar em permanente construção
O Edifício Zúquete como um lugar em permanente construção
Ricardo Graça
Na sala de visitas da cidade
Na sala de visitas da cidade
Ricardo Graça
Há receitas que dispensam reinvenções porque já encontraram a sua forma perfeita
Há receitas que dispensam reinvenções porque já encontraram a sua forma perfeita
Ricardo Graça
E o doce de amêndoa, produzido na casa, distingue-se por uma subtil nota caramelizada
E o doce de amêndoa, produzido na casa, distingue-se por uma subtil nota caramelizada
Ricardo Graça

O Edifício Zúquete começou por albergar um sonho muito diferente. Quando as famílias de Vasco Ferreira e Sabino Carvalho o adquiriram, em 1987, o futuro passava pelo comércio de pronto-a-vestir. A restauração ainda não fazia parte da equação. Ninguém imaginaria que, décadas mais tarde, aquele edifício se transformaria num dos projetos mais singulares de Leiria.

Nada nasceu de um plano fechado. Foi um percurso feito de curiosidade, persistência e uma permanente disponibilidade para mudar. Primeiro a Galeria D'Artes e o GL Café. Depois o Chico Lobo. Mais tarde, outros capítulos foram sendo escritos, entre bares, restaurantes e novos conceitos, até chegarmos ao Mata Bicho e ao Gallo Doido. Nenhum surgiu para repetir o anterior. Cada projecto acrescentou uma nova camada à identidade do edifício, sem nunca apagar a memória do que ali existira antes.

É precisamente essa a força desta história. O verdadeiro projecto nunca foi um restaurante, um bar ou uma galeria. Foi uma forma de olhar para os negócios, para a cidade e para o próprio tempo. Ao longo de mais de duas décadas foi sendo construído um verdadeiro ecossistema de ideias, onde cada espaço tem identidade própria, mas todos partilham a mesma inquietação. Nunca houve a tentação de cristalizar uma fórmula de sucesso. Preferiu-se continuar a experimentar, a aprender e a arriscar. É uma forma de construir rara, assente numa confiança mútua que o tempo não desgastou e numa curiosidade que o sucesso nunca acomodou.

Convicção sem artifícios

O Mata Bicho é uma das expressões mais felizes dessa filosofia. A refeição começou com uma excelente tábua de queijos, onde um magnífico camembert recheado com gorgonzola assumiu naturalmente o protagonismo. A acompanhá-la, uma sangria de maracujá fresca, equilibrada e com a medida certa de verão. Seguiram-se uns croquetes de alheira onde a acidez da mostarda cortava a untuosidade do enchido com precisão, mostrando como um pequeno detalhe pode elevar um prato. A morcela de arroz, o pica-pau e os ovos rotos confirmaram uma cozinha segura, assente no respeito pelo produto e na convicção de que a simplicidade, quando bem executada, nunca precisa de artifícios.

Foto de Ricardo Graça

Depois chegou o prato que melhor traduz a identidade da casa: o arroz de tomate com pastéis de bacalhau. Há receitas que dispensam reinvenções porque já encontraram a sua forma perfeita. Esta é uma delas. O arroz chega intenso, reconfortante e profundamente português, acompanhado por excelentes pastéis de bacalhau, lembrando-nos que a tradição continua a ser profundamente contemporânea quando é tratada com inteligência, rigor e sensibilidade.

As sobremesas mantêm o mesmo nível. A mousse de chocolate caseira recupera o sabor das receitas verdadeiramente feitas em casa. A crema catalana revela um excelente equilíbrio entre cremosidade e caramelização. As natas do céu confirmam que os clássicos continuam a ter lugar quando são executados com rigor. E o doce de amêndoa, produzido na casa, distingue-se por uma subtil nota caramelizada que lhe acrescenta profundidade e personalidade.

Mais do que uma refeição

Saí do Mata Bicho com a sensação de que a refeição era apenas um capítulo de uma história muito maior. O verdadeiro legado de Vasco Ferreira e Sabino Carvalho não cabe no nome de um restaurante, de um bar ou de uma galeria. Está na forma como olharam para o Edifício Zúquete como um lugar em permanente construção, onde cada nova ideia acrescenta valor sem apagar a anterior. Os espaços mudam. Os conceitos evoluem. O Edifício Zúquete permanece. E permanece, talvez, pela mesma razão que Vasco e Sabino continuam a caminhar lado a lado: porque há projectos que nascem do talento, mas só atravessam o tempo quando são sustentados pela confiança, pela curiosidade e por essa rara vontade de procurar, todos os dias, uma forma de fazer melhor.