Sociedade

João Bonifácio Serra: "A Cultura tornou-se num sistema tão exigente quanto o abastecimento de água"

25 ago 2016 00:00

O antigo responsável pela 'Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura' fala dos pontos fortes e fracos da eventual candidatura de Leiria a capital da cultura e da “revolução” que a realização do evento permitiria na cidade e na região

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Jacinto Silva Duro

Foi escolhido para liderar a equipa multidisciplinar que irá estudar uma possível candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura (2027). Depois das primeiras reuniões já chegaram a conclusões sobre potencialidades e dificuldades?
O primeiro passo deste grupo de missão criado pela Câmara de Leiria foi o de tentar construir um diagnóstico sobre a situação de Leiria e da região circundante, com o objectivo de ajudar a definir o âmbito desejável dessa candidatura. É uma candidatura consensual, que pretende ser da cidade e da região envolvente. Este grupo não se destina ainda a preparar a candidatura porque não foi ainda aberto pelo Governo português o período de candidaturas. Supomos que só o será por volta de 2020. Este grupo destina- -se a ajudar e a aconselhar a autarquia a construir um plano que valorize a cultura e as potencialidades da candidatura, de modo a que, quando chegar a 2020, o faça numa posição mais favorável, dado que presumivelmente, haverá candidaturas de outras cidades portuguesas. Independentemente de um diagnóstico mais preciso sobre equipamentos ou forças e fraquezas do movimento cultural, o ponto forte de Leiria, é a "centralidade". Está numa posição central, não apenas do ponto de vista geográfico, o que, só por si, não seria uma vantagem, mas tem uma posição central relativamente à economia - é uma posição sólida e central polarizando toda a região em torno de uma economia relativamente pujante -, uma centralidade histórica, quando se pensa na construção do País e na consolidação do Estado, uma centralidade religiosa e embora não se possa falar de uma "centralidade cultural", podemos, pelo menos, referir a ambição cultural que tem vindo a ser concretizada nos últimos anos, passo- a-passo, esbatendo uma imagem menos favorável que a cidade tinha nesse domínio. O trabalho deste grupo destina-se a avaliar os pontos fortes e fracos e tentar propor formas de ultrapassar os fracos e reforçar os mais fortes.

Quais são os pontos fracos?
O ponto fraco que exige mais trabalho é o que se prende com a falta de conjugação das instituições relevantes, no concelho e na região, no sentido de uma política cultural activa. Além da Câmara, temos as instituições dos diversos sectores da economia, comércio e empresas, e as associações e entidades que fazem programação cultural. Temos o Instituto Politécnico de Leiria (IPL), temos a Diocese de Leiria-Fátima, temos os sindicatos, as organizações que estão no terreno. Estas organizações são, na maioria, bastante sólidas, mas não estão conjugadas no sentido de uma acção cultural... O sucesso de uma candidatura destas também depende dessa capacidade de ultrapassar a relativa autonomia de cada uma das entidades, que é desejável, mas que não tem complementaridade e conjugação de esforços. Não há um forum onde se diga, por exemplo, que a Nerlei ou o IPL também têm responsabilidades no campo cultural. Todas as instituições admitem tê-la no plano teórico, mas não há uma experiência consolidada de trabalho conjunto no campo cultural. Este é o grande desafio de Leiria.

A massa crítica existe, mas está dispersa?
Existe, mas trabalha de uma forma que não forjou ainda laços sólidos e consistentes para poder suportar uma candidatura vitoriosa. É importante ter a percepção de que uma política cultural não é uma coisa distinta e aparte das políticas urbanas, mas um elemento central da cidade, da sua promoção e afirmação dos seus valores e projecção. Em Guimarães, percebi que todo o tecido empresarial e industrial local tinha consciência da importância da cultura para a projecção internacional da cidade e da região. Todas as cidades têm políticas culturais relevantes, mas uma Capital Europeia da Cultura é, em primeiro lugar, um projecto europeu e internacional. É um título outorgado pela União Europeia a duas cidades para, durante um ano, serem palco da manifestação da diversidade cultural europeia.

Como estão os contactos com as Câmaras da região?
O primeiro contacto foi feito na Cimrl. Também há o desejo de Ourém, que não faz parte da Cimrl, participar neste esforço. A Batalha e Marinha Grande, que são as mais próximas, já participaram no processo de avaliação e agora estamos numa fase de alargamento. Devemos ampliar a acção a toda a Cimrl e a Ourém e depois se verá se outros municípios se poderão associar. Falei com as Câmaras e partidos políticos e todos manifestaram abertura e o desejo de participar.

Há quem diga que, em muitos eventos que se realizam nos nossos municípios, tanto a população como quem os organiza, cai na armadilha de confundir entretenimento com cultura. Concorda?
Distinguir essas coisas faz todo o sentido. Compreendo que os responsáveis políticos tenham de dosear a sua atenção entre essas áreas, mas a Capital da Cultura não é um projecto de entretenimento. No passado, aqui e ali, houve uma ou outra cidade que pensou nesses termos, hoje, a cultura é um recurso de transformação, de futuro, de qualificação das pessoas e do território. A cultura está ligada a profissões exigentes. Estão ligadas ao sector cultural pessoas de elevada formação, com relações internacionais, que estão a par das tendências e movimentos, e que encaram a cultura enquanto prática de cidadania. Entendem-na não apenas como diversão mas como forma de qualificação e integração e condição fundamental para a inovação. Os territórios que aspiram a ter uma posição importante em indicadores de inovação são os que atraem talento e o disponibilizam num ambiente cultural fervilhante e produtivo. Isso separa as águas entre entretenimento e cultura. As cidades que foram, nos últimos dez anos, Capitais da Cultura e prepararam as suas candidaturas de forma cuidada e atempada, fizeram desse acontecimento uma oportunidade para a regeneração dos seus tecidos social, económico e urbanístico. Liverpool marcou a mudança de paradigma. Poderia ter criado um projecto baseado na música, mas optou por partir da sua própria cultura e aproveitou a oportunidade de regenerar áreas degradadas e de criar indústrias criativas. Não quer dizer que resulte imediatamente no crescimento da indústria criativa, mas criaram-se novas oportunidades para o empreendedorismo cultural. Isso aconteceu em Lisboa, Porto e Guimarães. Não tenho a menor dúvida de que o Porto hoje é diferente devido à Capital Europeia da Cultura, de 2001. O resultado mais imediato aconteceu no domínio do turismo.

A programação cultural nas cidades deve seguir por que modelo: continuar nas mãos de uma vereação ou ser entregue a um programador?
Os vereadores da Cultura não devem ser programadores culturais. Deve mos caminhar no sentido de separar os papéis. Um vereador é um decisor político, que decide quais as áreas de investimento. Deve saber fazer um caderno de encargos e contratualizar, de acordo com o seu programa político, as várias entidades que são capazes de realizar no plano cultural. Elas apresentam os seus projectos e candidatam-se a financiamento, numa base de continuidade sempre que possível, com contratos que se estendam para lá de um ano, para que a entidade possa contar com uma planificação a prazo e não a meses. Em Guimarães, o Pelouro da Cultura não fazia programação. Tinha o seu plano anual de trabalho, mas quem fazia a programação era o Centro Cultural de Vila Flor ou as diversas associações do concelho que, dentro desta estratégia, informavam quantas exposições de pintura ou festivais de música iriam organizar. A programação está ligada à criação. O programador é alguém que garante as condições para melhorar e estimular a criação artística e cultural e essa não é a vocação de um vereador. O vereador pode estabelecer metas: por exemplo, pode querer melhorar a criação nova em 30%, em quatro anos, e que, no final desse prazo, haja um determinado número de novas peças de teatro, exposições e composições musicais. Nas cidades, a Cultura tornou-se num sistema tão exigente quanto o abastecimento de água. Há que garantir que a água corre nas torneiras e que tenha controlo de qualidade e é preciso garantir que os equipamentos culturais funcionem e que garantam qualidade. É um sistema como outro que a cidade oferece a quem a habita e a quem a visita, como a segurança, a água, transportes... A cultura garante a empatia e uma relação de proximidade com quem a visita.

Perfil
Jornalista da Flama e da AFP

Nascido a 22 de Abril de 1949, em Caldas da Rainha, João José Bonifácio Serra é docente na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (Instituto Politécnico de Leiria), membro do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e licenciado em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

No seu currículo conta-se a passagem como assessor (1997-2004) da Casa Civil do Presidente da República Jorge Sampaio, e chefe da Casa Civil do Presidente da República (Setembro de 2004 a Março de 2006), também de Jorge Sampaio.

Antes de se ter licenciado e m História, frequentou a Faculdade de Direito, na mesma universidade e teve como colegas, Cáceres Monteiro, Pacheco Pereira ou Almeida Martins, e foi jornalista nas revistas Flama e Vida Mundial e correspondente da Agence France Presse (AFP).

Faz parte do Conselho Geral e é pró-presidente do IPL. É o coordenador de um grupo de trabalho que estuda uma candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura (2027).

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