Desporto

João André Silva: “A relação de subsidiodependência de Leiria perante um investidor terá de mudar”

16 abr 2020 11:20

Foi, nos últimos meses, muito mais do que o médico da equipa sénior da União de Leiria. Ajudou à sobrevivência da SAD e tem uma novidade: há negociações avançadas para a entrada de um novo investidor.

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João André Silva
Ricardo Graça

Unionista ferrenho, João André Silva não conseguiu estar parado perante o rápido definhar na SAD da União de Leiria. Em vários momentos, o médico foi muito mais do que isso. Encontrou solições e foi a tábua de salvação para um grupo de trabalho que viveu momentos aflitivos, sem dinheiro e sem esperança. Com outros associados e muitas dificuldades, acabou por conseguir viabilizar o futuro do futebol sénior na cidade. E agora, acredita, o futuro pode voltar ser risonho.

Como é que o médico da equipa foi fundamental para a continuidade do futebol sénior na União de Leiria?

Foi uma época que começou mal, sem qualquer tipo do provisão. O ideal teria sido, perante o insucesso desportivo do fim da última época, procurar-se no Verão uma mudança de investidor. Os donos entenderam continuar, mas a partir de Setembro deixaram de pagar. Em Dezembro, a situação estava caótica do ponto de vista humano.

Como se resolveu?

Contribuí com uma quantia e coloquei-a na mão do treinador de então, Filipe Cândido, que aguentou o plantel unido e entendi que era a melhor pessoa para seleccionar os futebolistas que efectivamente precisavam. Havia quem não passasse fome, mas havia outros, designadamente os estrangeiros, que não tinham dinheiro para comer. Havia despejos, cortes de água e luz. O Mário Cruz andava atrás, a pagar as contas com multas.

"Há muita gente que podia ter ajudado nos momentos mais difíceis, não apareceu, mas quando estivermos lá em cima vai aparecer. Nessa altura, se puder tomar alguma decisão, vou repelir essas pessoas"
João André Silva

As pessoas não têm noção de quanto ganha, hoje em dia, um futebolista da União de Leiria.

Na temporada passada, o ordenado médio deveria rondar os 1.500 euros, com jogadores a receber acima de 2 mil euros. Este ano era mais baixo, mas o orçamento mensal era superior a 30 mil euros. No entanto, em Janeiro já só estavam sete futeblistas dos que iniciaram a época. Neste momento, o orçamento mensal são 14 mil euros e os jogadores da União de Leiria - grande parte deles são agora da região - ganham em média 500 a 600 euros.

O Natal não trouxe novidades.

A situação estava muito má, com jogadores a ameaçarem sair. Começámos a ver que a época estava em risco e a insolvência da SAD era uma possibilidade que não estava longe. Temos consciência de que nunca houve, nem haverá, uma terceira SAD na mesma instituição. Ou seja, o nome União de Leiria acabava para o futebol sénior. As pessoas que estavam perto da estrutura sentiam-se incomodadas, sobretudo sob o ponto de vista humano, mas também desportivamente. Entretanto, e não há que ter medo das palavras, o Alexander Tolstikov e o Sergiu Renita foram-se embora e os jogadores ficaram desamparados. A estrutura, naquela altura, resumia-se a mim. Depois conseguimos reunir um grupo de unionistas para estar perto do plantel, como o Miguel Grácio. O vereador Ricardo Santos ajudou, a Câmara ajudou, o clube também ajudou. Disponibilizaram instalações e os juniores para podermos ir a jogo, mas poderiam ter ajudado de outra forma, mais objectiva, e não ter deixado um grupo de sócios atravessar-se.

"Quem está na Câmara muitas vezes não ajuda porque sabe que isso pode ser uma arma política arremessada pela oposição"
João André Silva

Tiveram de recorrer a contas pessoais?

Já lá vamos. Começámos a pensar numa maneira de conseguir pagar alguma coisa de forma a que eles pudessem ter um Natal digno. Perante o abandono da estrutura administrativa, começámos a mexer-nos no sentido de conseguir pagar um vencimento, pela razão humana e também para evitar que os jogadores pudessem sair em finais de Janeiro. Tínhamos o objectivo de dar condições aos jogadores, mas também continuar a ter equipa após o fecho do período de transferências. Muito se disse, de facto parte dos 31 mil euros foi de patrocinadores, verbas que estavam por cobrar, mas que eram incobráveis para os actuais proprietários, porque não fizeram nada do que estava combinado. Só foi possível recolher porque pessoas idóneas garantiram que as coisas iam mudar e os patrocinadores, mais pela vontade de ajudar do que por obrigação, deram uma ajuda grande. Juntamente com outros patrocínios em troco de nada conseguiu-se pagar um ordenado ao plantel todo, correspondente a Dezembro, sendo que metade de Setembro, Outubro e Novembro ficaram pendurados. Entretanto, a administração regressou, mas esse regresso cerceou a capacidade de pedir dinheiro. Ficou difícil para o mês seguinte, não foi possível evitar a saída de muitos jogadores e o valor acabou por ser reduzido. Conseguiu-se pagar com algum dinheiro pessoal e patrocínios que tinham sobrado.

E chega o coronavírus.

Sim. Este mês já foi impossível fazer este circuito de pedir às empresas e ficámos na situação de sermos nós a fazer um investimento pessoal. Houve muitos jogadores que vieram em Janeiro com o objectivo de chegar ao fim da época desportiva e garantir a manutenção, enquanto não chegava um novo investidor, e caso não tivessem recebido esse mês teriam ficado mês e meio sem receber nada.

O que vai acontecer aos futebolistas com a pandemia e o fim dos campeonatos?

São os principais prejudicados. Os nossos e os restantes do Campeonato de Portugal. Não será a União de Leiria a única a não pagar mais, serão praticamente todos. Como no plantel actual só há um jogador que não é amador - os outros profissionais tinham saído em Janeiro - em termos legais não há volta a dar. Lamentando a situação dos atletas, temos de olhar para a posição da União de Leiria: a equipa de juniores fica na 1.ª Divisão - uma oportunidade que caiu do céu e não podemos desperdiçar - e os seniores garantem a manutenção no Campeonato de Portugal, que acredito que conseguiríamos dentro de campo. Temos, por isso, oportunidade e tempo para preparar a próxima época da melhor forma possível.

"As negociações são com um investidor português, com experiência no futebol e que poderá levar a União de Leiria ao lugar de onde nunca deveria ter saído"
João André Silva

Como reagiu a administração ao vosso trabalho?

Aquando do regresso do Sergiu Renita, ele não complicou. Não têm dinheiro para ajudar, mas querem entregar a SAD sem ir para insolvência e esse mérito tem de lhes ser dado. No futuro, num dia em que a União de Leiria tiver sucesso, pego no telefone e dou os parabéns ao Alexander Tolstikov. digo-lhe que uma parte da vitória é dele. Dificilmente vamos ter na União de Leiria um investidor que gaste tanto dinheiro. No primeiro ano levou uma machadada com a Operação Matrioskas e o erro dele foi não ter percebido que tinha de ir embora, que não ia conseguir ter uma vida normal em Portugal, que os problemas que a Justiça lhe causou iam ser impeditivos de ter sucesso. Devia ter-se desfeito do negócio.

Está iminente a entrada de algum investidor?

Assim as negociações que estão a decorrer cheguem a bom porto. Tem sido um processo difícil, mas neste momento podemos dizer que faltam detalhes contabilísticos. Acredito piamente que está interessado e já deu meia-dúzia de demonstrações desse interesse.

Terá de assumir o passivo?

Sim. É ligeiramente superior a um milhão de euros, mas acredito que será negociável, em parte.

Quem é?

Já houve vários interessados, todos estrangeiros e pouco credíveis, agora as negociações são com um investidor português, com experiência no futebol e que poderá levar a União de Leiria ao lugar de onde nunca deveria ter saído. Esperamos que até ao início de Maio a situação esteja apalavrada, porque urge preparar a próxima época. Temos a oportunidade de preparar a equipa para ter sucesso desportivo e administrativo.

Acha que Leiria recebe bem os investidores?

A mentalidade de subsidiodependência da cidade perante um investidor terá de mudar. Vindo um novo administrador, a cidade não poderá encará-lo como encarou o Alexander Tolstikov. Não é pensar o que se pode ganhar pessoalmente com o dinheiro do investidor, mas o que se pode fazer para ajudar a SAD, para não acontecer o que já sucedeu duas vezes. O investidor tem interesse económico, é legítimo, e os adeptos têm de ajudar ao sucesso desportivo. Os leirienses têm de deixar de pensar que o investidor tem de sustentar tudo o que está à volta. Só há sucesso se todos remarmos para o mesmo lado e haver um investidor não quer dizer que não seja preciso haver patrocínios, por exemplo.

Como vê o papel da autarquia neste assunto?

Tem de ser mais interventiva. O facto de ser SAD não pode ser desculpa para não haver ajuda. Há maneiras legais de mostrar que a União de Leiria é o emblema mais representativo da cidade. Digo isto para o poder e para a oposição, porque quem está na Câmara muitas vezes não ajuda porque sabe que isso pode ser uma arma política arremessada pela oposição.

Calculo que esteja feliz.

Desejo muito que isto aconteça. Quero continuar a ajudar, quero estar presente. Já não sei se consigo ser apenas o médico, que é o que devia ter sido sempre. Mas também tenho objectivos. Os meus amigos médicos estão na 1.ª Liga ou na 2.ª Liga e também quero lá chegar. Estou disponível para colaborar e gostava de ser tido em conta nas tomas de decisão do futuro de clube. Há muita gente que podia ter ajudado nos momentos mais difíceis, não apareceu, mas quando estivermos lá em cima vai aparecer. Nessa altura, se puder tomar alguma decisão, vou repelir essas pessoas.

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