Sociedade

Entre a arte e a terapia, olaria da Bajouca preserva o passado e abre espaço ao futuro

27 abr 2026 18:00

Associação Barro na Mão do Oleiro, instalada na antiga EB1 do Vale da Bajouca, resulta da união dos oleiros da Bajouca

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Claúdia Gameiro

Enquanto a roda gira, as mãos dançam num ritmado abraço ao barro, criando as formas mais inesperadas. Parece mais fácil do que, de facto, é, avisa-se. Quem visita a associação Barro na Mão do Oleiro, na antiga EB1 do Vale da Bajouca, é rapidamente convidado a sentar-se e a experimentar a arte mais característica da freguesia: a olaria. Um desafio criativo que cativa curiosos e amantes de artesanato e que tem nesta escola um dos maiores promotores da sua continuidade. As novas gerações procuram aqui não perder as raízes ou acrescentar conhecimentos à sua formação. Mas há também um grupo crescente de estrangeiros a procurar os cursos de olaria.

“O primeiro passo é sempre centrar o barro” — Céu Neves, presidente da associação, inicia assim mais uma aula de olaria na roda. São cerca de 15 alunos, a maioria já iniciou o trabalho sem quaisquer instruções. Céu molha então o barro e começa a moldar, mostrando a destreza dos dedos treinados.

Nem sempre é possível fazer a peça conceptualizada, explicam-nos, as mãos vão-se adaptando ao barro. Para muitos, funciona como terapia, mas as dificuldades criativas podem tornar esta arte frustrante. O observador só consegue ficar maravilhado com a forma como, em poucos minutos, pedaços toscos de terra barrenta molhada se transformam em chapéus, vasos e esculturas com as mais variadas características.

Nem todos são estreantes nestas lides. Mónica Santos, 18 anos, natural da Bajouca, cresceu com a olaria. “Vivo neste mundo desde pequena. Como já acabei a escola, desafiaram-me a tentar” as aulas de olaria. Mónica admite que tinha os conhecimentos básicos e que a formação a tem ajudado a aprofundar as técnicas, preservando assim uma tradição familiar que vem do trisavô. “Foi também por isso que vim, para compreender as minhas raízes”, explica. Não vê, porém, a actividade como futuro, mas como um passatempo e um “anti-stress”. “Sempre cresci neste mundo; para mim não é novidade”.

Martina Allende, 31 anos, é uma argentina a viver na Figueira da Foz. Não é a primeira estrangeira que aparece nestas aulas. No seu país, explica, já vendia peças de cerâmica e, em Portugal, abriu um atelier, onde promove workshops. “Agora estou a inteirar-me da roda de oleiro”, refere, acrescentando assim mais técnicas à sua formação. Apesar de o barro ser diferente em relação à sua terra natal, constata que as técnicas são semelhantes. “Lá não se fazia tanto mosaico”, explica, sendo que o barro da Bajouca “é muito bom para a roda”.

Em Portugal, Martina procura o seu caminho artístico. Quer crescer como artista e com o seu atelier. “Chegámos a Portugal na aventura”, recorda, tendo-se estabelecido numa região que considera tranquila e onde existe uma grande comunidade de latinos.

Beatriz Pedrosa, 31 anos, é de Paião, Figueira da Foz, e dinamiza as redes sociais da associação. Depois de ter integrado as primeiras formações, encontra-se a tentar entrar, a tempo integral, no mercado da olaria. “Estudei Design de Produto em Lisboa, tinha experiência em cerâmica e vim experimentar, na Bajouca, a roda de oleiro. É intimidante”, reflecte, admitindo que atravessou um nível que a assustava.Para esta artesã, há mercado para este tipo de produto, sobretudo para quem procura “autenticidade”. Tem-se focado em feiras, explorando a região. “Na era do digital, penso que há quem procure o artesanal, onde se conhece o autor, e reconheça esse valor”, constata.

Rodrigo Gameiro, 26 anos, natural de Barreiros, Amor, é apontado pelo grupo como o artista inesperado. Chamado pela irmã, encontrou nas formações da associação uma forma de quebrar a rotina. “Foge um pouco ao quotidiano, em que aparece tudo feito”, explica. “Gosto muito de criar, ver as coisas a crescer e a transformar-se — as mãos a transformar a matéria”. Para este designer de mobiliário, o futuro é uma incógnita. “Ainda estou no início para perceber” se a olaria pode tornar-se mais do que um hobby.

Lucie Ferreira, 40 anos, de Matos de Ranha, Pombal, sempre gostou de comprar peças de olaria na Bajouca e tem experimentado as formações de moldagem e agora a roda. Amante de trabalhos manuais, constata que “são precisas muitas horas de prática para fazer algo”. “Para já, é um hobby e para uso próprio. Gosto de ter peças que tenham história”, explica, enquanto vai ensinando a trabalhar o barro e como, rapidamente, uma peça perfeita pode desmoronar-se.

A Barro na Mão do Oleiro conta quatro anos. Céu Pedrosa fala com orgulho da associação, que tem por objectivo preservar e representar, nomeadamente através da escola, a história da olaria. O espaço promove residências artísticas, formações, possui uma olaria comunitária e tem em projecto a criação de um forno a lenha. A olaria “é como uma terapia”, explica Céu Pedrosa; “o barro é terra, limpa-nos, transforma-nos”. Aqui “vêm ter muitos tipos de artistas, alguns, inclusive, que não sabem que o são”. A associação resulta da união dos oleiros da Bajouca e tem o apoio da CEARTE — Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património.