Viver

Dez anos de um Casulo em metamorfose

22 out 2018 00:00

Em articulação com o Museu e Centro de Artes, O Casulo, casa do pintor José Malhoa, tornou-se na última década um ponto de visita obrigatório para apaixonados pela arte e pelo Naturalismo

Daniela Franco Sousa

De tão pequena, que viria a receber o nome de O Casulo, a casa de José Malhoa, em Figueiró dos Vinhos, passou a ser, ao longo dos anos, um espaço emblemático, um enorme testemunho das criações do pintor.

E foi há precisamente dez anos, para melhor proteger e projectar o património do artista, que a Câmara de Figueiró dos Vinhos adquiriu O Casulo, reabilitando o edifício e o espaço envolvente. Essa tarefa continuou em 2013, com a construção do Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos, um espaço moderno, erigido nos terrenos da antiga horta d 'O Casulo, que serve agora para promover as artes de Figueiró dos Vinhos, entre as quais a própria obra de Malhoa.

Dez anos volvidos, o JORNAL DE LEIRIA percebeu que os investimentos e que a aposta na programação cultural destes espaços se mantêm constantes, e que quer O Casulo quer o Museu e Centro de Artes alcançaram uma forte dinâmica, tornando-se pontos de referência para milhares de visitantes locais e forasteiros.

O desenvolvimento de uma rota turístico-cultural em torno de quatro artistas de Figueiró dos Vinhos (José Malhoa, Manuel Henrrique Pinto, José Simões d’Almeida Júnior e José Simões d’Almeida, o sobrinho) são algumas das novidades que a Autarquia está a projectar para estes espaços.

O cavalete, o chapéu de sol e um Museu do Xadrez

Marta Brás, vereadora da Cultura na Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, salienta que, em 2008, ano em que a Autarquia adquiriu O Casulo, o Município investiu cerca de 175 mil euros na reabilitação e em equipamentos para o edifício. Feita a reabilitação, o espaço passou a acolher o Museu do Xadrez - que ainda se mantém disponível para visita - e também o Posto de Turismo, que ali funcionou até 2016.

Com uma nova intervenção, iniciada em 2017, o espaço que acolhia o Posto de Turismo cedeu lugar à exposição temática sobre a história do edifício, sobre José Malhoa e Henrique Pinto. Também em termos de programação, salienta Marta Brás, O Casulo de Malhoa sofreu uma intervenção, no sentido de ir ao encontro daquilo que eram as expectativas dos visitantes.

Oferece, desde Junho de 2018, uma exposição permanente sobre a evolução da casa - projecto do arquitecto Luís Reynaud - bem como informação histórica devidamente contextualizada e fundamentada sobre a vida e sobre a vinda dos dois pintores do Grupo do Leão, José Malhoa e Henrique Pinto, para Figueiró dos Vinhos, a convite dos escultores José Simões d’Almeida Júnior e José Simões d’Almeida (sobrinho).

E dá ainda a conhecer alguns objectos de José Malhoa. O visitante, explica a vereadora, pode também visitar a sala de jantar, que ainda apresenta frisos de António Ramalho e um interessante acervo de quadros dos anos 80, de alunos e de professores de Belas Artes. Pode igualmente conhecer alguns objectos pessoais de José Malhoa, entre os quais um cavalete e um chapéu de sol, utilizados pelo artista no seu trabalho de pintura ao ar livre.

“Em virtude do projecto associado ao Casulo e Igreja Matriz, este passou a ser o ponto de visita e deinício de uma rota turístico-cultural intitulada Uma volta à vila, À Volta dos Quatro Artistas, com textos da autoria do arquitecto Luís Borges da Gama”, salienta a vereadora.

“Neste contexto, o Posto de Turismo passou a funcionar no piso superior do Museu e Centro de Artes (desde Agosto de 2016), mantendo no piso térreo do Casulo, o Museu do Xadrez, que apresenta o único núcleo expositivo dedicado à modalidade em Portugal”, nota a autarca. O interesse do público pel'O casulo reflecte-se no seu número de visitas. Desde que abriu portas, a 24 de Junho de 2013, e até 11 de Outubro de 2018, passaram por este espaço 16.419 pessoas, 3221 das quais só neste último ano.

Exposições, tertúlias e uma rota para acontecer

O Museu e Centro de Artes tem-se mostrado igualmente atractivo. Desde que foi inaugurado, a 24 de Junho de 2013, até 11 de Outubro de 2018, passaram por este espaço 16.437 visitantes, dos quais 3226 só neste este ano. E contribui para a sua dinâmica um vasto conjunto de propostas culturais.

Marta Brás explica que o Museu e Centro de Artes tem actualmente a funcionar no piso 1 o Posto de Turismo, uma área que é complementada com um espaço de exposições temporárias diversas. Já no piso 0, podem ser admiradas exposições em torno do Naturalismo e da influência de Figueiró dos Vinhos na pintura naturalista de José Malhoa e de Henrique Pinto.

As exposições abordam também a obra escultórica de Simões de Almeida tio e sobrinho, ambos naturais de Figueiró. O Museu e Centro de Artes é ainda palco para vários eventos, nomeadamente apresentação de livros, conferências, tertúlias e eventos de lazer no exterior, essencialmente, durante o Verão, especifica a vereadora da Cultura.

Marta Brás realça que o Museu e Centro de Artes e O Casulo “são espaços que se complementam, que funcionam simbioticamente. Um apresentando obras dos quatro artistas ligados a Figueiró dos Vinhos, bem como de colegas naturalistas, com exposições temáticas associadas aos mesmos.

O outro, é a própria do Mestre Malhoa.” E é a estreita cooperação destes espaços museológicos com coleccionadores particulares e outros conceituados museus de vários pontos do País que tem concorrido para o enriquecimento da programação cultural de Figueiró dos Vinhos. “Não teríamos exposições sem a boa vontade e empréstimos de entidades museológicas, como o Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado (MNAC-MC), Museu Soares dos Reis, Museu Nacional do Traje, Museu Grão Vasco, Museu José Malhoa, Casa dos Patudos, entre outros, e também de coleccionadores particulares que, ao longo dos anos, gentilmente nos cederam obras”, realça Marta Brás.

A vereadora da Cultura deixa também “uma palavra de apreço por todo o trabalho desenvolvido pelo arquitecto Luís Borges da Gama no projecto associado ao Casulo e à Volta dos Artistas”. E a dinâmica não pára por aqui. O Casulo prepara novidades. O edifício do Casulo foi incluído num projecto que se encontra em fase de conclusão, desenvolvido em torno da Igreja Matriz, envolvendo o restauro de obras de arte e melhorias neste Imóvel de Interesse Nacional.

Prepara-se também a criação de uma rota turístico- cultural associada aos quatro artistas de Figueiró dos Vinhos, a criação de uma exposição temática sobre o edifício do Casulo, sobre a vida de José Malhoae de Henrique Pinto em Figueiró dos Vinhos, e elabora- se toda a componente promocional.

Mestre e a casa que influenciou Figueiró

“José Malhoa foi, sem dúvida, um dos maiores artistas portugueses de finais do século XIX, inícios do XX, cuja obra pictórica se destaca pela utilização de uma linguagem muito própria, tendo ficado célebres algumas das suas obras, como O Fado ou Os Bêbados”, salienta a Direcção-geral do Património Cultural. Malhoa nasceu nas Caldas da Rainha, em 1855, filho de uma família muito humilde, e o primeiro contacto com Figueiró dos Vinhos remonta a 1883, por intermédio de Manuel Henrique Pinto, seu amigo, também pintor, que era natural desta vila.

Foi neste local que Malhoa encontrou o ambiente propício para desenvolver a sua obra, fixando aí residência até morrer, em 1933. Construída em 1895, com intervenções posteriores, de Luís Ernesto Reynau e de Rafael Bordalo Pinheiro, a casa do Mestre, apelidada de Casulo (por ter sido inicialmente muito pequena), acaba por se tornar uma grande influência na arquitectura de Figueiró dos Vinhos, pela utilização dos telhados de várias águas, das trapeiras, das carpintarias e das cores vivas dos revestimentos.

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