Viver

De serrote e agulha em riste, nenhuma angústia resiste

19 nov 2020 09:45

Há cada vez mais jovens a recuperar os antigos passatempos dos avós. Coser, bordar ou serrar madeira, tudo vale para combater o stress em tempos de pandemia

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Bela Dina, bordadeira
Ricardo Graça
Daniela Franco Sousa

Já há muito tempo não se viam tantas pessoas jovens a fazer bordados, a coser, a tecer ou a dedicar-se a trabalhos de marcenaria. Estão claramente a roubar os passatempos dos seus avós e a Covid-19 pode ser uma das grandes justificações para o regresso em força dos trabalhos manuais.

Com mais tempo disponível, com mais stress e angústia para gerir, as agulhas, as lãs e as madeiras são o escape perfeito para desligar o cérebro das complicações mundanas e a fórmula ideal para recuperar o sentimento de utilidade e até a auto-estima. Sozinho, em grupo, apenas para satisfação pessoal ou até para vender, não faltam exemplos na região de quem se tenha rendido às manualidades.

Devolver beleza à vida

Aos 40 anos, cansada de números, de prazos e da pressão associada ao trabalho no sector dos moldes, Bela Dina, da Marinha Grande, decidiu colocar um ponto final ao trajecto profissional que a agastava. Foi em Março deste ano que tomou coragem para se despedir daquele emprego. Não fazia ideia nenhuma dos tempos que aí vinham e a sua única certeza era que, sem trabalho e com tempo de sobra, era preciso ocupar a mente e os dedos. “Não sabia nada acerca de bordados, mas lembreime de um livro que me tinham oferecido há uns anos, comecei a ver sites e tutoriais”, recorda Bela.

E foi assim que rapidamente passou a ocupar o tempo livre a fazer bordados em bastidor. Foi quase sempre assim ao longo da sua vida. Todas os momentos em que precisou de se entreter empenhou-se a fazer trabalhos manuais. Houve fases em que construiu bijuteria e outros acessórios em pasta de modelar, outras em que se dedicou mais à costura e fez malas e pequenas bolsas. E foi através destes seus passatempos que muitas vezes conseguiu vender algumas peças e garantir um rendimento extra, precioso em alturas menos boas. Desta vez não foi muito diferente.

Começou a fazer os seus bordados para matar o tempo e os amigos depressa começaram a pedir-lhe criações. “Nem encaro isto como trabalho, mas como momentos de prazer”, salienta Bela. “Combate o stress, quebra a monotonia e é a possibilidade de recuperar uma arte muito antiga”, acrescenta a bordadeira, a quem outras mulheres, até mais jovens, já começam a pedir para aprender.

Contra o stress, serrar e martelar

Na mesma cidade, também Bruno Julião, de 38 anos, tem recorrido aos trabalhos manuais “como forma de se distrair” dos seus dias mais técnicos como projectista de moldes. A marcenaria é o seu passatempo de eleição e ao qual se dedica há cerca de 10 anos.

“Sempre tive gosto pelos objectos feitos de madeira. O meu pai também gostava muito de bricolage e eu acho que herdei esse espírito”, observa Bruno Julião. No seu currículo de “marceneiro das horas vagas”, o projectista de moldes conta já com trabalhos tão diversificados como portas, armários feitos de paletes, fruteiras de parede, mas também baterias, uma guitarra, um skate. Presentemente, anda a construir um armário com tampa, que serve para esconder os lixos da reciclagem.

É tanto o prazer que retira da construção dos seus próprios artigos em madeira, que mesmo quando algum amigo lhe pede um trabalho, acaba por só cobrar pelo preço dos materiais. E não está sozinho neste vício dos trabalhos manuais. Bruno Julião garante que há cada vez mais jovens a pedir-lhe dicas e dispostos a aprender, porque nos últimos tempos, onde se vive tanta insegurança à custa da pandemia, passou a ser ainda mais importante ter o que fazer para passar o tempo e para fintar o stress.

E lá em casa não é o único. A esposa, Maria Ivone, também passa os fins de dia de volta das suas bijuterias. E o propósito, salienta Bruno Julião, é precisamente o mesmo: abstrair-se.

Recuperar a auto-estima e matar a depressão

Zélia Évora, natural de Caldas da Rainha, tem actualmente o seu atelier de costura criativa. Mas nem sempre assim foi. Durante 24 anos exerceu funções como administrativa e passou os dias entregue à pressão de um trabalho exigente, do ponto de vista intelectual. Hoje tem 51 anos e tem mais tempo para se dedicar aos trabalhos manuais. Mas recorda que sempre manifestou interesse pelas malhas.

Aprendeu a tricotar aos 8 anos, por imposição da mãe. No

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