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Das Boot - A odisseia do submarino U-963 na onda da Nazaré

19 dez 2013 00:00

O Berço: "Não o acordem por favor. Deixem-no dormir no berço". As palavras do último comandante do submergível alemão U-963, afundado ao largo da Nazaré, junto ao Guilhim, constam de uma mensagem que este enviou à equipa que, em 2004, explorou o local

Jacinto Silva Duro

Os big waver ridders, Garrett McNamara, Carlos Burle e Maya Gabeira e a maior parte do público que, nos últimos tempos, tem afluido à zona do farol da Nazaré, na esperança de ver batido o recorde de maior onda do Mundo surfada, não imaginam que, a 500 metros a sul-sudoeste do farol, a 100 braças - cerca de 220 metros (1 braça= 1,828 metros/notícia actualizada a 16/12/2019 para indicar o número correcto de metros) -, no fundo marinho, mesmo na borda do canhão da Nazaré repousa na paz de Thánatos, o U-963, uma das mais poderosas e temíveis máquinas de guerra da Segunda Guerra Mundial.

Mais de 16 anos depois da confirmação da localização dos destroços e 74 desde o afundamento da embarcação [actualização de datas em 2019], o canhão que cria as ondas gigantes e atrai tanta gente, é também o sarcófago que guarda um pedaço da história e os destroços deste submergível alemão, modelo Tipo VII-C, com mais de 67 metros de comprimento.

Em 20 de Maio de 1945, 13 dias depois da rendição incondicional da Alemanha aos Aliados, o submergível entrou para a história da vila piscatória. O escritor nazareno José Soares escreveu que, por volta das seis da manhã, três tripulantes do submarino foram a terra num bote de borracha, para contactarem com as autoridades marítimas.


Os tripulantes teriam informado que o vaso de guerra estaria com água aberta e pediram socorro. Com as válvulas de fundo, tubos de torpedos e escotilha da torre abertos, o U-963, conhecido entre as tripulações dos submarinos como o Berço, foi afundado pela tripulação.

Em Julho de 2004, os jornalistas Aurélio Faria e Jorge Ramalho investigaram a história, em conjunto com o arqueólogo Adolfo Silveira Martins, da Universidade Autónoma de Lisboa, e Universidade do Connecticut e a Ocean Technology Foundation e o Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa.

O resultado foi a confirmação do local de afundamento deste que é um dos três submarinos naufragados na costa nacional, além de Matosinhos e da Figueira da Foz. O NRP Andrómeda usou um mini-submarino capaz de recolher vestígios arqueológicos até 500 metros de profundidade e chegou perto, muito perto dos destroços, contudo, devido às dificuldades de manobra, correntes, e impossibilidade de ver na água turva de sedimentos e resíduos de pesca não foi possível filmar os destroços.

Memórias de uma rapariga da “Praia”
Maria Mateus Amaro, olhos verdes e um rosto que revela a beleza das suas 86 Primaveras, recorda- e daquele dia de Maio, ainda frio. Tinha 18 anos quando os jovens altos, loiros e de olhos claros deram à costa na “Praia”.

Eram muito simpáticos. Lembra-me muito bem. Estou velha, mas lembro-me!”, diz esta matriarca nazarena que, depois de uma vida a vender o peixe que aportava à lota, hoje, reparte o tempo entre a lida da casa e a universidade sénior.

Naquele tempo, vivia no Sítio. Tinha-se levantado para ir ao pão, quando viu o povo a correr. “Perguntei às vizinhas o que se passava”, recorda. Os nazarenos, temerosos do que tinham ouvido sobre a guerra que, durante quase seis anos devastou a Europa, tinham medo do que poderia acontecer com a proximidade daquele vaso de guerra, que fazia parte das poderosas matilhas de submergíveis germânicos que durante o conflito levaram a morte de forma brutal, silenciosa e inesperada a milhares de marinheiros Aliados.

“Dizia-se por ali: ‘estão ali os alemães e vamos todos morrer”, recorda Maria Amaro. Mas isso não a amedrontou nem às duas raparigas amigas com quem foi ver melhor o que se passava. “Era um submarino. Eu já sabia que era um submarino!”

A embarcação deixava-se embalar, para a frente e para trás, na espuma das ondas, quando as jovens chegaram perto do velho forte filipino cujas vigias dão para o Atlântico. “De repente, parou e saíram um poucos rapazes que puseram as baleeiras para baixo. Depois de saírem, o submarino apitou três vezes e desapareceu no fundo. Nunca mais se viu”, lembra.

Em seguida, desceram para o areal, “para ver o resultado daquilo”. À hora combinada, a maior parte da tripulação, que já tinha sido retirada pela barca da capitania, perfilou-se, virada para o U-963, e fez uma última continência ao submergível que estava a pique.

Na praia, o povo, curioso, rodeou os rapazes altos, loiros e de olhos azuis, embora ninguém percebesse o que diziam. Pouco depois, até eles, vieram a polícia e o capitão do porto, conforme recorda Maria Amaro.

Numa espécie de romaria, o povo levou aqueles alemães elegantes e bem fardados a conhecer a praça Sousa Oliveira, que servia como mercado naquele tempo. No meio das hortaliças, alguns descobriram as primeiras cerejas da época e rapidamente começaram a depenicá-las.

A vendedora pesou um quilo de vermelhos frutos e quis oferecê-los, mas não havia onde os colocar. Maria Amaro, que a esta altura fazia já parte do grupo que mais interagia com eles, resolveu o problema.

“Roubei a touca de lã de um deles e enchi-a com as cerejas. Não as ia levar na abada do avental, não era? Depois tinha de andar o dia todo com eles para me comerem as cerejas!”

Maria, tal como muitos nazarenos seguiram os “submarinistas” para ver que rumo iriam seguir. Voltados à borda de água, um deles, provavelmente atraído pela beleza daquela rapariga portuguesa pequenina, agarrou-lhe o pulso e prendeu-lhe o relógio que havia tirado do pulso.

“'Ó Maria, ele está-te a dar o relógio.' disse-me alguém. Para que queria eu um relógio? Nem horas sabia ver. Só tinha andado na escola até passar para a segunda classe.” Na hora de voltar com as amigas para casa, no Sítio, talvez para evitar invejas e poucas vergonhas, a nazarena decidiu resolver o assunto.

Foi à Ourivesaria do Vinho Verde e trocou a oferta por 30 mil réis (escudos). “Dava para dividir pelas três e deu um grande jeito a uma delas que levou o dinheiro à mãe que, naquele dia, só tinha feijões cozidos para comer.”

Os 47 tripulantes foram temporariamente alojados na fortaleza de Peniche e acabaram por ser transferidos para cativeiro em solo britânico. Regressaram à Alemanha apenas em 1948.

Os elementos da tripulação ainda vivos, deslocam-se, ocasionalmente, em romaria, ao miradouro da Nazaré para homenagear os camaradas caídos em combate e os que desapareceram nas últimas sete décadas. Dos 40 mil marinheiros dos U-Boat enviados para a guerra, 30 mil não regressaram.

Enigma
Que segredos esconde o U-963?

Quando saiu da sua base na Noruega, em Abril de 1945, o Uboat 963 - “barco subaquático”, em alemão - tinha como missão largar minas no Canal da Mancha. Em Maio,ao emergir, a tripulação é informada que o III Reich se havia rendido e a II Guerra Mundial havia terminado na Europa.

Em vez de acatarem as ordens e de se renderem num porto britânico, os marinheiros preferem rumar a Portugal e afundar o submergível, entregando-se, de seguida, às autoridades. Oito dias e 4500 quilómetros depois, chegaram à Nazaré.

Especula-se sobre o que estaria a bordo do U963, que segredos militares, para o comandante, o Oberleutnant zur See Rolf-Werner Wentz, não o querer entregar aos Aliados e, na Nazaré, não ter permitido que a embarcação tivesse aportado no porto, para retirar a tripulação, antes de o afundar.

Sabe-se que outros Uboat foram ao fundo, no final da Segunda Guerra Mundial, quando carregavam tecnologia e materiais radioactivos destinados ao esforço de guerra do Japão, último país a ser derrotado pelos Aliados.

Isto sem falar nos equipamentos que permitiam a encriptação das comunicações de e para o submarino, como as famosas máquinas Enigma, que, sem os alemães saberem, tinham, há muito, sido capturadas pelos polacos e ingleses.

No seguimento dos trabalhos de preparação da reportagem, Aurélio Faria conclui que o U-963: “pode ter sido afundado ainda com os torpedos, o que à luz das Convenções de Guerra era um crime.”

No futuro, a embarcação poderá vir a ser acedida por equipamentos não tripulados e muitas das dúvidas poderão ficar definitivamente esclarecidas.

O U-963, afundado ao largo da Nazaré, era um submergível e não um submarino. Apenas na segunda metade do século XX apareceram os verdadeiros submarinos, com o advento da era nuclear.

Até aí, estas embarcações eram navios que se movimentavam mais depressa à superfície das águas e que, em caso de ataque, podiam submergir e manter-se por um período de tempo curto debaixo de água.

Saiu pela primeira vez para o mar a 17 de Fevereiro de 1943, do estaleiro Blohm & Voss, em Hamburgo, o local onde foi construído, em 1937, o Albert Leo Schlageter, navio que, hoje, conhecemos como navio-escola Sagres (II).

Integrava a 11.ª Unterseebootsflottille, da KriegsMarine, baseada em Bergen, Noruega. Tinha uma autonomia de 15 170 quilómetros, com motores diesel, e 150 quilómetros debaixo de água, com propulsores eléctricos.

Entre Outubro de 1943 e 20 de Maio de 1945, o U-963 serviu nove patrulhas no Atlântico, Golfo da Biscaia e Mar Báltico, mas não atingiu nunca um navio inimigo.

60 bebés
Berço das Ondas

Corria o mês de Fevereiro de 1943, quando o jovem Karl Boddenberg, primeiro comandante do submergível recebeu o U-963. Tinha acabado de receber a notícia de que iria ser pai e quando desceu às entranhas de aço da máquina de guerra que iria comandar nos meses seguintes levava, debaixo do braço, algumas tábuas.

Ao fim de 67 dias de trabalho, na sua cama estreita e acanhada de comandante, Boddenberg mostrou à tripulação um berço de madeira, destinado ao filho. A partir daí, o Uboat ficou conhecido pela alcunha de o “Berço”.

E assim se explica parte da mensagem em alemão do último comandante da embarcação quando soube que a embarcação iria ser explorada, em 2004. “Não o acordem por favor. Deixem-no dormir no Berço".

Rolf-Werner Wentz, o último capitão do U-963 mandou retirar o velho emblema vermelho e ordenou que se pintasse um novo, com um berço em branco, com fundo branco. A família de Boddenberg guardou o berço original e deste foram feitas várias cópias, onde, reza a história familiar, dormiram já mais de 60 bebés da família.