Desporto

Chicotadas chegam ao futebol juvenil. Mas a que preço?

12 jan 2017 00:00

A evolução dos atletas nos escalões jovens é o objectivo da formação, mas, na maioria dos casos, os clubes preocupam-se mais com os resultados

chicotadas-chegam-ao-futebol-juvenil-mas-a-que-preco-5723

Pelo menos oito treinadores dos escalões de formação dos vários clubes da região abandonaram a liderança das equipas que orientavam.

No futebol sénior, sobretudo nas equipas que disputam campeonatos nacionais, as conhecidas 'chicotadas psicológicas' são habituais quando as vitórias não aparecem. Mas entre os mais jovens o que leva a que tantos treinadores sejam convidados a sair ou acabem por bater com a porta por iniciativa própria?

O JORNAL DE LEIRIA foi tentar perceber o que se passa e a constatação é que também na formação os resultados contam. Esta foi a justificação para a saída de José Simões dos juniores do Caldas SC.

O treinador lamenta que o trabalho desenvolvido na formação, onde os resultados são apenas mais um item, não seja levado em conta na maioria dos clubes.

“A formação é para formar jovens não só para o futebol, mas também para a vida. É preciso desenvolver um trabalho e esse é que deve ser avaliado e não os resultados obtidos em cada jogo”, afirma José Simões. O técnico admite que a sua saída “teve a ver com os resultados”, pois “já não ganhava há seis ou sete jogos”.

A Direcção entendeu que o “empenho, dedicação e o bom trabalho desenvolvido” contavam menos do que os resultados. “Para nós treinadores que entendemos a formação como o objectivo de formar fica o reconhecimento dos atletas anos mais tarde.”

A competição que existe nestes escalões acaba por condicionar de imediato os objectivos dos dirigentes, mas José Simões alerta que clubes como o Caldas não podem pensar em super resultados, “a não ser que se reforcem como fazem os grandes, que vão contratar jogadores”.

Segundo José Simões, a pressão dos pais faz-se sentir mais “até aos iniciados”. Depois são os dirigentes que exigem.

“Os jogadores que não prestam, porque não sabem jogar ou estão mais gordinhos são para ir embora. Não pode ser. Aquele que não sabe fintar é que tem de ser ensinado. São esses atletas que temos de ajudar a formar. Se só olhamos para os jogadores como Cristianos Ronaldos, que depois serão transferidos, é tratá- los como mercadoria.”

O futebol juvenil atravessa uma crise de valores, o que acaba também por levar à saída precoce de jogadores, treinadores e dirigentes, que discordam da pressão exercida sobre crianças e jovens que precisam de se divertir.

Foi o que sucedeu com Pedro Rafael, que em Dezembro abandonou o SC Leiria e Marrazes por discordar da forma como os atletas na formação são tratados.

“A vertente social que defendo que deve existir, o Marrazes ainda não a tem. É preciso formar boas pessoas e proporcionar momentos lúdicos. Não é só futebol, ganhar e perder”, adianta o treinador. Na sua equipa dois jogadores foram convidados a sair, sem ter sido consultado.

“Independentemente do que fizeram, a direcção deveria ter falado comigo sobre os miúdos. É preciso perceber os problemas que alguns jovens enfrentam e tentar compreendê- los e ajudá-los.

Na formação os treinadores não têm de perceber só de questões técnicas, mas também estar atentos aos comportamentos e às questões sociais das crianças. Se vai ou não ser bom jogador, mais à frente logo se vê”, salienta Pedro Rafael.
 

Despedimento
Perder a figura de referência deixa marcas


O sociólogo Jorge Nuno Coelho adianta que “os resultados não podem ser o mais importante” quando se fala de formação. “Há coisas mais importantes, como a qualidade de jogo, a evolução dos jogadores e os comportamentos”.

Por isso, despedir treinadores nestes escalões “não faz sentido”, sublinha em declarações ao JORNAL DE LEIRIA. Jorge Nuno Coelho salienta ainda que a relação que se deve estabelecer entre os técnicos e os jogadores “implica solidariedade, espírito de equipa e que se vá até ao fim por um objectivo”.

Quando há um despedimento ao nível da formação “ainda é mais negativo”, porque a mensagem que se passa não é a de lutar até ao fim. Também os treinadores Pedro Rosário e José Simões entendem que a saída dos técnicos a meio da época acaba por prejudicar os jovens.

"Os miúdos não reagem bem, sente-se que ficam abalados, porque o treinador é uma figura quase paternal em alguns casos. E acaba por ser marcante", adianta Pedro Rosário.

Também José Simões concorda que os treinadores são “uma referência” e considera que acabam por marcar os jovens.
 

Leia mais na edição impressa ou torne-se assinante para aceder à versão digital integral deste artigo. 

EVENTOS