Viver

Casa Varela, o armazém que agora é casa das artes

30 ago 2020 12:37

Criatividade | Foi armazém de torrefacção de café, armazém de produtos a granel e é um dos mais belos edifícios da zona ribeirinha de Pombal. A partir de Novembro, será a nova casa das artes de Pombal vocacionada para a incubação de projectos inspirados e inspiradores

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Jacinto Silva Duro

Dança, música, letras, artes plásticas, moda, artes performativas ou design vão encontrar um lar, a partir de Novembro, nas portas com os números 4 a 10, da Rua de Leiria, em Pombal.

A Casa Varela, à beira do Arunca, foi desenhada há 100 anos pelo arquitecto Ernesto Korrodi para ser uma residência, mas a necessidade alterou o intento e o espaço tornou-se num armazém de produtos a granel.

Cereais, especiarias, café ou farinha eram ali adquiridos aos quilos e aos litros para alimentar a cidade, então vila. Passado um século, o armazém que alimentava os corpos, a partir de agora, vai abraçar novamente o desafio de alimentar. Desta vez, as mentes de Pombal.

Dentro de dois meses, a casa reabrirá portas para se tornar num local de criação, com espaço para residências (artísticas) e de incubação de projectos ligados à criatividade.

“É um raio de sol, que irá iluminar as ideias e iniciativas locais que só precisam de um pouco de luz e calor para florir.” A metáfora é de Filipe Eusébio, novo director artístico da Casa Varela, que terá como missão a criação dos regulamentos de funcionamento e de acolhimento de projectos.

Sendo um filho da terra terá ligação directa para os agentes culturais locais, tendo colaborado em colectivos locais, ao longo da carreira.

Filipe Eusébio

 

O cargo cessa em 2021, com a conclusão do presente mandato autárquico, mas, muito antes disso, em final de Outubro ou início de Novembro deste ano, iniciar-se-ão as iniciativas regulares com os agentes culturais concelhios, na Casa Varela.

Este é um equipamento que permitirá acolher e desenvolver projectos artísticos, com a possibilidade de os mostrar quando concluídos, no local ou num dos outros equipamentos culturais da cidade.

Dará apoio e capacitação de meios aos projectos ali alojados. Há também espaço para a formação, oficinas, e para a produção quer seja intergrupos, interassociações, interartistas ou inter-regiões, com a Rede Cultural 2027 e a candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura 2027, debaixo de olho. Mas antes é preciso fazer todo o chamado trabalho “de sapa”.

Além de criar os regulamentos de funcionamento e candidatura, o actor Filipe Eusébio e equipa estão a criar pontes e ligações com os criadores locais, auscultando-os e tomando nota das suas ideias e necessidades.

“Pretendemos motivar os artistas locais a criar e a fruir do espaço”, refere, sublinhando que a grande aposta é manter a Casa Varela em constante opencall para as mais diferentes áreas artísticas.

Mecenas
Fundação em estudo
Adquirida em 2011, a renovação da Casa Varela teve um parto difícil.

Houve uma primeira empreitada, que custou 200 mil euros, e a actual, orçamentada em 517 mil, comportadas a 85% pelo programa comunitário PEDU e o restante pela autarquia.

No próximo Orçamento Municipal, o espaço terá direito a uma verba de investimento e funcionamento anual, mas o presidente da câmara diz que, num futuro a médio prazo, entre as várias possibilidades de modelo económico em estudo, está uma “fundação com pernas para andar”, com apoio mecenático, da comunidade e também da autarquia.

Aos actores, criativos, produtores, pessoas singulares ou colectivos com ideias é feito o desafio de apresentarem um projecto bem estruturado que queiram desenvolver, que terá de ser avaliado, antes de as portas da casa das artes se abrirem.

Na passada segunda-feira, quando foi apresentado à comunicação social, o espaço estava ainda vazio de equipamentos. Adquirido em 2011, do imóvel original ficaram as paredes exteriores, a organização arquitectónica imaginada por Korrodi, com os seus tectos altos e as verdes e envidraçadas portas interiores.

O resto é espaço livre, vazio e cheio de possibilidades. Um estado que o director artístico diz não ser muito diferente daquilo que pretende no futuro; “esta casa será sempre um projecto em construção, renovando-se de acordo com as necessidades de quem a usa.” Um dos melhores exemplos de como isso será feito é o modo de funcionamento.

Mesmo sendo um edifício público, o horário será alargado e ajustado aos humores e inspiração de quem o passará a “habitar”. Naturalmente, as portas estarão sempre abertas aos criadores.

Uma casa das artes que é um farol

Pombal é um município que tem marcado presença em várias redes de programação artística e da Rede Cultura 2027, pelo que a autarquia considera que a Casa Varela poderá ser um espaço onde se poderá criar trabalho apresentado nessas redes.

No futuro, o presidente da autarquia, Diogo Mateus, gostaria de ver um maior entrosamento entre a comunidade escolar e este centro de artes com - quem sabe? – alunos a desenvolveram ali as suas criações nas áreas da música, dança, letras, design ou artes plásticas, considerando como bom augúrio o facto de, no próximo ano lectivo, o concelho ir ter ensino articulado na área da Música em dois estabelecimentos de ensino.

“Se há 30 ou 40 anos, a prioridade das autarquias era levar água aos cidadãos, hoje, as necessidades das comunidades alteraram-se e criar espaços como este é um dos desafios das câmaras municipais”, disse o autarca na sessão de apresentação do espaço. “A casa apresta-se como um meio para a cultura e não um fim em si própria.

Com ela estamos a dizer: ‘aqui há condições para serem utilizadas no acesso à criação’.” Nos pisos superiores, não foi ainda definida uma ocupação, mas as possibilidades estão já estudadas. “Mantivemos uma grande versatilidade espacial, com soluções de openspace e, caso seja necessário, poderemos criar nichos para incubação de projectos”, explicou Diogo Mateus.

Os andares são insonorizados, inclusivos e com acesso para pessoas com incapacidade física, contam com instalações sanitárias e até permitem instalar residências para alunos do ensino superior em ambiente de investigação, por exemplo. As zonas de coworking têm copa e possibilidades de trabalho 24 horas por dia.

“Acreditamos que uma das virtudes é podermos juntar debaixo do mesmo tecto criativos de origens e áreas diferentes com ideias que podem ser complementares e dar-lhes a possibilidade, no futuro, de desenvolver projectos comuns”, aponta o autarca.

No rés-do-chão, há uma grande sala que, não tendo vocação originalmente definida para espaço expositivo, poderá acolher mostras com o resultado do trabalho feito nas residências artísticas.

Na cave, em ambiente blackbox, existe um espaço que, durante décadas, foi utilizado para torrar os grãos de café servido aos pombalenses nos cafés da localidade, e que agora pode ser destinado a concertos, ensaios ou performance.

Diogo Mateus resume e diz que está a ser ponderado o alargamento do corredor ribeirinho e até uma piscina exterior, no seguimento da área junto ao Arunca, onde se situa a Casa Varela.

Será um espaço nobre “de vivência” e de bem-estar de Pombal, com a casa das artes a servir de farol.

 

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