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Carlos Lopes Pires: “Os antidepressivos não são melhores do que uma pastilha de qualquer coisa”
Fotografia: Ricardo Graça

Sociedade

18 Maio 2017

Carlos Lopes Pires: “Os antidepressivos não são melhores do que uma pastilha de qualquer coisa”

Psicólogo há 34 anos defende que “os antidepressivos são placebos” e que “jamais haverá um tratamento farmacológico para a depressão”.

Defende que a depressão não é uma doença. Então é o quê?

É uma perturbação. São coisas distintas e isso, às vezes, faz confusão. O conceito de doença remete para a teoria biomédica da doença. Segundo essa teoria, todas as manifestações desconfortáveis de mal-estar, físico ou psicológico, resultam de problemas estruturais no corpo, normalmente no cérebro. Em relação à depressão é já um mito urbano que resulta de défice de serotonina. Nunca foi encontrada qualquer origem ou causa de natureza orgânica e ainda menos relacionada com a serotonina. Há uma grande diferença entre perturbação e doença. A depressão é uma síndrome, ou seja, é um conjunto de características que tendem a ocorrer relativamente de forma uniforme em conjunto, mas nada disso significa que tenha de ter uma causa, isto é, uma disfunção orgânica.

Os antidepressivos estão no topo de vendas dos medicamentos em Portugal. São mesmo necessários ou há terapias alternativas mais eficazes?

Não é a forma mais eficaz. Muitas vezes as pessoas fazem afirmações que mostram um desconhecimento profundo, não só sobre a natureza dos psicofármacos, como dos estudos que já existem há muitos anos, fazendo comparações. Se tomarmos em consideração aquilo que se chama eficácia e eficiência, os tratamentos psicológicos são mais aconselháveis. Existem tratamentos validados empiricamente para a depressão, mas há muita gente que anda aí a fazer coisas que não têm nada a ver com isso. Muitas vezes chama-se a isso psicoterapia, mas a depressão tem tratamentos que estão há muito tempo aprovados para isso. Quando falamos desses tratamentos e os comparamos com os chamados antidepressivos, os tratamentos psicológicos são muito melhores – se considerarmos eficácia a três meses e depois o prolongamento, a retirada e a manutenção. Com antidepressivos, 50 a 75% das pessoas que melhoram, passado um ano, recaem; com tratamentos psicológicos, não chega a 25%. Vivemos num sistema e numa cultura que se baseia sob a ideia da medicação. Jamais haverá um tratamento farmacológico para a depressão. Os antidepressivos, basicamente, são placebos e isso também está demonstrado. Quando se compara, por exemplo, um antidepressivo com a cafeína constata-se que, em termos de resultados, a cafeína é igual ou superior. Nos estados depressivos a pessoa tende a estar apática e, quando algo a estimula, ela interpreta isso como estar a melhorar. Há muitos estudos sobre isso. A conclusão é que os antidepressivos não são melhores do que uma pastilha de qualquer coisa, desde que a pessoa pense que está a tomar algo bom. Não se pode pensar que é tudo tratado da mesma maneira. O aumento muito grande que há da prescrição de antidepressivos não significa que a percentagem de pessoas deprimidas aumentou. O que significa é que os antidepressivos estão a ser prescritos para tudo. Dentro da comunidade médica estão aprovados não só para depressão, mas para todas as perturbações da ansiedade, personalidade, desordens alimentares, entre outros. O aumento da depressão é também um mito urbano. Mas claro que favorece alguns interesses, médicos e psicológicos. Essa ideia de que as pessoas estão todas deprimidas gera necessidade. E esse é um dos princípios do marketing.

As pessoas tendem a desvalorizar os problemas psicológicos?

Sim. Existe uma confusão entre força de vontade e ser psicológico. Outra confusão é ser psicológico e ser imaginação. As pessoas muitas vezes pensam: “se é psicológico é uma questão de se ter força de vontade”. E a outra é: “se é psicológico é imaginativo, é uma fantasia”. Claro que as coisas não funcionam assim. Mas, por vezes, é muito difícil alguém perceber os outros.

O síndrome do burnout começou a ser falado neste século. O que é concretamente?

Já vem de anteriormente, mas neste século é que ganhou uma maior proeminência. Inicialmente, até se pensava que acontecia apenas com algumas profissões como polícias, bombeiros ou pessoal médico ou paramédico. Tem a ver com uma saturação, com um desgaste do próprio trabalho que leva a que a pessoa comece a ficar indiferente, fria ou distante dos outros. Tem características disfóricas, a fazer lembrar coisas depressivas. À medida que se foi investigando percebeu-se que isso acontece também noutras classes como jornalistas ou psicólogos, em profissões que têm características de prestar ajuda aos outros.

As pessoas estão a ficar 'viciadas' no trabalho?

Espero que isso entretanto mude. Devido a transformações dos últimos 20 ou 30 anos, uma série de pessoas que mandam, mais ou menos, no mundo, têm-nos andado a convencer de que trabalhamos pouco. Isso é um mito que foi criado para as pessoas acreditarem que são mal agradecidas, ingratas e que andam, de facto, a trabalhar pouco. Mas faz parte de um conjunto de coisas, como as certificações. Hoje em dia tudo é certificado, mas são tudo fraudes. Foi como Bolonha [Processo de Bolonha no ensino superior] que também é uma fraude. São coisas que se vão fazendo, para criar na população em geral ideias que não têm nada a ver com a realidade.

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Ana Camponês
Redacção Ana Camponês ana.campones@jornaldeleiria.pt






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