Sociedade

Arquitectos desaconselham eventos de massas no Jardim da Almuinha

24 out 2022 17:30

Responsáveis pelo projecto do Jardim da Almuinha realçam que eventos e festas devem deixar o espaço verde nas mesmas condições

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O arquitecto João Marques da Cruz (ao centro) durante a visita ao Jardim da Almuinha
Ricardo Graça

“Os jardins são espaços de cenário, de teatro, música, e são muito adequados a festas, a tudo o que é fantasia. Há muitos tipos de eventos que são atraentes para um jardim, mas têm de ser compatíveis com a sua manutenção. A regra principal é, no final do evento, o jardim tem de estar exactamente como estava antes, porque se não estamos a prejudicar o que é património público, que é de todos”, assume João Marques da Cruz, um dos arquitectos do Jardim da Almuinha, que assina o projecto com Rui Ribeiro, dando continuidade à ideia do falecido Jorge Estrela.

Para João Marques da Cruz, “não pode haver uns, por muitos que sejam, que possam usar o jardim prejudicando os outros”.

As declarações do arquitecto são a resposta ao JORNAL DE LEIRIA que, durante um passeio ao espaço verde, o questionou sobre a realização do Leiria Sobre Rodas no Jardim da Almuinha.

Numa publicação na sua página de Facebook, o presidente da câmara, Gonçalo Lopes, alega que, após o Leiria Sobre Rodas o Jardim da Almuinha encontra-se “verdejante e ao dispor de todos os leirienses”.

“É evidente que um jardim é muito atraente para fazer um evento destes, só que pela natureza dos carros, é um evento que tem muita carga sobre o jardim, compacta os solos. O próprio estádio sofre com isso. Talvez faça mais sentido colocar o evento noutros locais”, aconselha João Marques da Cruz, ao considerar que o “concelho de Leiria tem tantos sítios interessantes e bonitos mais adequados para o evento”.

O especialista em paisagística confirma que “há festas que são fáceis”, como “um evento com crianças”, que terá um “pequeno impacto no jardim”.

“No evento do Leiria Sobre Rodas, que as pessoas gostam muito, é um evento que tem um impacto muito grande no jardim e depois tem de haver um investimento na sua recuperação”, insiste.

O arquitecto sugere, como exemplo “levar os eventos até às freguesias, que também querem ter vida e isso aliviaria o centro da cidade”.

“Para o ano talvez faça sentido equacionar um sítio mais fácil e adequado para este tipo de evento que tem uma carga muito grande no jardim”, reforça.

Também Rui Ribeiro alerta que este tipo de eventos “dá cabo dos sistemas de rega e de drenagem”.

“Neste jardim foi criado um passeio público, esse sim aguenta cargas pesadas e, por isso mesmo foi criado para permitir determinado tipo de eventos e aguenta eventos mais pesados, com mais carga de pessoas”,afirma.

O arquitecto salienta que o problema “não são só os carros, são 20 mil pessoas em cima do jardim e não há jardim que aguente”.

“Eventos sim, mas no final o jardim tem de ficar exactamente como estava antes do evento. Se isso não for possível o evento não entra na utilização do jardim, que é de todos. Lá porque 51% das pessoas querem utilizar o jardim de uma maneira que se estraga, não pode acontecer”, conclui João Marques da Cruz.