Sociedade
A infância é para brincar. Como o recreio e o risco ajudam a crescer melhor
“Já temos muitas escolas, por exemplo na Marinha Grande, que têm recreios que são um convite à brincadeira e à exploração”, diz Francisco Lontro, fundador do projecto Brincar de Rua
Aos poucos, os recreios de terra batida foram sendo substituídos por todo o tipo de piso, onde cresceu o cimento e o ladrilho, numa lógica de “higienizar” os espaços da rua. Os jardins de infância e as escolas de primeiro ciclo já não são lugares feitos para as crianças se sujarem com terra e com relva, embora estejamos agora numa fase que parece querer inverter a loja da arrumação e da limpeza como escudo para evitar que os mais pequenos se magoem e se sujem.
Francisco Lontro, mentor do projecto Brincar de Rua (nascido em Leiria), especialista em Psicomotricidade na área de Saúde Mental da Infância e Adolescência, lembra que desde os anos 90 começou em Portugal um movimento “da higienização dos parques, dos recreios e dos parques infantis de um modo geral, que tem a ver com uma leitura demasiado restrita do que são as normas europeias”.
Na verdade, o que aconteceu no contexto do País “foi completamente deturpado”, afirmava. “Foi uma realidade que só aconteceu aqui, nos outros países por onde tenho passado, não aconteceu”. E isso aplica-se ao recreio, mas também “a uma interpretação rígida destes espaços de recreio”. Porém, Francisco Lontro acredita que este começa a ser o momento de viragem, já visível em muitas escolas de Leiria e Marinha Grande, que estão a fazer essa transformação outra vez “para o lado mais natural”.
“Já temos muitas escolas, por exemplo na Marinha Grande, que têm recreios que são um convite à brincadeira e à exploração”. A acompanhar esse movimento de que fala Francisco Lontro estavam - claro - os pais, que muitas vezes pressionavam no sentido de haver recreios “mais limpos”. Mas são eles agora quem também faz o movimento contrário.
“Em todos os municípios com quem vamos falando, e aqui em Leiria em particular, está-se a assistir agora a esse movimento. A ideia de voltar a naturalizar os espaços é uma meta. Mas há muitos intervenientes aqui no meio e é preciso encontrar um ponto de equilíbrio onde se corrijam expectativas e limitações dos espaços”, admite este responsável.
O passo seguinte reside no modelo de concretização dessa mudança. “A importância de brincar é vital. Não apenas no pré-escolar como ao longo de toda a infância, até à adolescência”, explica Francisco Lontro, que recusa colocar a meta do pré-escolar como a bitola para a brincadeira: “O tempo de brincar é um tempo fundamental para o desenvolvimento de competências.
Nos mais pequeninos tem mais a ver com o desenvolvimento de competências motoras e psicomotoras, depois vai aumentando para o campo do desenvolvimento cognitivo e do desenvolvimento social. Mas até aos 10, 11 anos, o brincar é o ponto, é a nossa ferramenta biológica para lidarmos com os grandes desafios da nossa vida”, explica este investigador.
O desafio da descoberta e da reflexão sobre as coisas, o desafio de imaginar e criar, de nos relacionarmos com os objectos e com as pessoas, tudo isso entronca no acto de brincar. Francisco Lontro escolhe falar do lado do desenvolvimento cognitivo: “a brincadeira associada ao tempo de brincar tem uma co- -relação muito forte com o tempo de aprender das crianças.
Por um lado a motricidade física, por outro o lado de exploração, de descoberta, esse espírito de iniciativa - quando as crianças brincam com alguma liberdade - tem influência positiva na forma como as crianças depois organizam a informação. E isso acaba por resultar em aprendizagens mais sólidas”, explica. Com isto quer dizer que, afinal, pese embora as pressões de muitos pais (mais uma vez) para que os meninos e meninas do pré-escolar comecem cedo a conhecer letras e números, é a brincar que tudo resultará melhor. A começar pela socialização (com a mesma dimensão da aprendizagem).
“Nós somos essencialmente seres sociais. Nos primeiros anos da vida, aprendemos primeiro por imitação dos outros, depois por relação. E o brincar traz esse ecossistema. Quando vemos um conjunto de garotos a brincar uns com os outros, em que uns vão puxando pelos outros, uns já estão mais à frente, outros dão dicas de como fazer; uns são mais afoitos e querem subir um pouco mais alto. É por isso (também) que o brincar tem essa regulação entre os pares. Essa ideia de puxarmos uns pelos outros e ir procurando coisas diferentes no processo de crescer, de experimentar o mundo, do desafio”, sustenta Francisco Lontro.
A importância do risco
O criador do programa Brincar de Rua, que tem passado grande parte da sua vida nas escolas e nos recreios, fala também de um outro lado, da relação dos miúdos com o risco, mais ligado à natureza. “É uma relação fundamental. O miúdo que é mais afoito e decide trepar à árvore, subir mais alto, tem noção do risco - que não é a mesma coisa que perigo. Isso influencia muitos factores do nosso desenvolvimento psicossocial. É fundamental para que os miúdos possam crescer com autonomia e responsabilidade, sentindo que são capazes de tomar decisões e acreditem neles próprios”, alega.
E deixa a ressalva: “a relação da criança com o risco é uma relação de descoberta. Por vezes o que assusta muito os pais é a ideia (errada) de que risco é o mesmo que perigo. O risco envolve uma questão de avaliação. E não há criança nenhuma saudável que se ponha numa situação em que avalia um dano significativo. A chave aqui é irmos encontrando com as crianças um equilíbrio. Eu não vou pôr uma criança a brincar num lago de crocodilos. Numa situação em que o perigo é iminente e eles não controlam”, conclui.
Tal como Carlos Neto, um dos maiores especialistas mundiais na área da brincadeira, também Francisco Lontro persegue há anos esta demanda de alertar a sociedade para a importância do brincar, preferencialmente na rua. “Não há brincadeira à frente do computador. Ou quando é um adulto que diz à criança ‘vais por aqui e por ali’. O brincar tem este lado de autonomia, tem deser a criança a avaliar. Faz parte do nosso instinto de sobrevivência. Eu posso criar as condições, decidir que tipo de materiais posso colocar à frente, em que contexto. Mas é a criança que vai perceber quais são os seus limites, os limites dos equipamentos e dos espaços. Tudo isso é fundamental para crescer com a auto- -estima adequada para enfrentar os desafios da vida”, sublinha.