Sociedade

2 mil milhões de pessoas terão mais de 60 anos em 2050

20 abr 2018 00:00

“O segredo da longevidade é comer a metade, andar o dobro e rir o triplo.” Este provérbio chinês dá o mote para aquilo que poderá ser um envelhecimento com qualidade.

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O índice de envelhecimento tem vindo a aumentar um pouco por todo o mundo. Em 2017, as pessoas com 65 ou mais anos representavam 20,5% de toda a população residente em Portugal. Em termos comparativos esse valor posiciona-nos no quinto país da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) mais envelhecido do mundo, revela a investigadora Maria Irene de Carvalho.

A estimativa é que em 2050, em cada três habitantes, um seja idoso, segundo o cenário central das projecções demográficas. A esperança de vida à nascença foi estimada em 80,62 anos, por um estudo do Instituto Nacional de Estatística, que referia que os homens viveriam em média 77,61 anos e as mulheres 83,33 anos.

No entanto, uma investigação do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, divulgada na semana passada, mostra que, de cinco países europeus analisados, Portugal é aquele que apresenta a menor probabilidade de sobrevivência da população idosa para além dos 85 anos.

Este estudo da Unidade de Investigação em Epidemiologia sublinha a "importância de reduzir as desigualdades sócio-económicas existentes no território europeu para se conseguir aumentar a longevidade da população mais idosa", indicou a investigadora Ana Isabel Ribeiro, citada num comunicado.

Os resultados mostraram que os idosos que vivem em locais com maior privação sócio- económica têm menor probabilidade de atingirem idades mais avançadas. “O envelhecimento traduz-se não só pela alteração na base e no topo da pirâmide (diminuição dos nascimentos e aumento da longevidade), mas também com a alteração da população jovem activa decorrente da imigração”, salienta Maria Irene de Carvalho.

Este tipo de envelhecimento coloca desafios à sociedade e ao próprio Estado, nomeadamente, garantir maior qualidade de vida e começar desde cedo a preparar o futuro. “Os dados que existem, neste momento, indicam que as escolhas que fazemos durante a nossa vida e o ambiente no qual estamos enquadrados influenciam a qualidade do nosso envelhecimento”, afirma ao JORNAL DE LEIRIA João Passos, professor universitário e especialista em envelhecimento da Universidade de Newcastle no Reino Unido.

Maria Irene de Carvalho, doutorada em Serviço Social, acrescenta que se mantêm os antigos desafios como “a pobreza, invalidez, protecção e reforma”, associando- se agora a novos riscos, nomeadamente “novas dimensões de vulnerabilidade social (demências, pessoas deficientes, necessidade de cuidados altamente especializados), entrada das mulheres no mercado de trabalho e a necessidade de conciliação entre trabalho pago e não pago”.

Surge ainda a “instabilidade das estruturas sociais e alterações ocorridas no mercado de emprego/desemprego (precariedade, trabalho mal pago, discriminação face à idade), austeridade e desresponsabilização do Estado face à protecção social”.

Considerando a sociedade “altamente discriminatória face à idade, a investigadora desafia os Estados e as políticas a “pensarem como viver numa sociedade de adultos e adultos muito idosos, integrar todas as idades e criar sistemas de protecção social e de saúde sustentáveis”.

A docente aponta ainda a adopção de políticas que possam “modificar a estrutura da população”, de modo a “aumentar o número de crianças e de pessoas activas na estrutura da população através de imigrantes”.

Comemorar 100 anos é um fenómeno que começa a ser cada vez menos raro. João Passos revela que os principais factores para o aumento do número de centenários estão relacionados com as “melhores condições de vida, higiene e uma melhoria de cuidados médicos”. No entanto, “a contribuição genética” também poderá explicar alguns casos.

O aumento da idade traz doenças associadas ao envelhecimento como “alzheimer, parkinson, cancro ou doenças cardiovasculares”. “A medicina lida com este problema tratando uma doença de cada vez, o que é ineficaz e de certo modo tem contribuído para os problemas globais de manutenção do financiamento dos sistemas de saúde”, alerta o investigador, ao considerar o aumento da esperança de vida “um sucesso na história da humanidade".

Se a comunidade médica e científica tem preocupação em tratar e prevenir doenças neuro-degenerativas próprias do envelhecimento, há também uma franja que procura encontrar soluções para travar o envelhecimento e tentar garantir a juventude o maior tempo possível, o que pode levantar questões éticas.

João Passos garante que existe uma “obrigação sob ponto de vista ético em tentar evitar o sofrimento dos seres humanos”. “O envelhecimento da população mundial é um problema real e prevê-se que em 2050 haverá dois mil milhões de pessoas com mais de 60 anos. Com o aumento da esperança de vida a nível global, observamos um aumento da incidência de várias doenças associadas ao envelhecimento e uma degradação da qualidade de vida”, reforça João Passos.

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