Opinião

Ventos de permanência

30 out 2026 21:00

Não nos venham pedir contas, não venham impôr-nos regras, sabemos que os nossos dias não vão ser gastos assim. Os dias passaram e foram gastos assim, mais coisa menos coisa. Mais vento motriz menos lixo que fede

As horas passavam, entarameladas, desenhando um lastro de peçonha gosmenta. Depois de seco era capaz de ficar bem bonito, pensava eu, que sabia das tantas voltas que o meu pensar levava, umas quantas muito amplas e outras tantas muito muito miudinhas. Não há labirinto mais intrincado do que o querer de uma pessoa, escolhas que intersectam vontades que esbarram em medos que rompem coragens que se enleiam em memórias que conduzem a escolhas e lá estamos nós outra vez perdidos.

No final da garrafa, que bate no nascer do dia, a arte alimentada ao peito merecia impressão 3D, mas quê, ninguém inventa as máquinas certas. Ou inventamos todos as dores erradas e essas, por instinto, não convém materializar, pois que nos deixam feridos de morte e vulneráveis à predação.

Era Agosto, desci do quarto andar onde moro, com o saco do lixo que já fedia e cobrava o atraso a cada inalação em esgar. Chego ao contentor da rua, poucos metros à frente, e vejo uma ventoinha eléctrica de cabo estropiado que alguém deixara no chão, por já ter dado o que tinha a dar em casa do vizinho que a descartou.

Mas estava vento nesse final de tarde - e aconteceu que as pás da ventoinha largaram-se a girar num frenesim supersónico, como que ligadas a uma voltagem que lhes animava cada célula do PVC, uma ventoinha em esteróides, no pico electrónico da faixa de trance, no entusiasmo febril de uma ressurreição que servia a insurreição de provar ao mundo que estava longe de ser um lixo.

Voltei para cima com as mãos já vazias e com o peito cheio de correntes de ar que desordenaram certezas e dúvidas no mesmo rodopio de ciclone, nascido nas pás de uma ventoinha que, contrariando a própria natureza, na impossibilidade de gerar vento passou a alimentar-se dele.

Recordo chavões que me inflamaram a querosene de um espírito inquieto, desde os primórdios dos meus tempos de pessoa. Não nos venham pedir contas, não venham impôr-nos regras, sabemos que os nossos dias não vão ser gastos assim. Os dias passaram e foram gastos assim, mais coisa menos coisa. Mais vento motriz menos lixo que fede.

Mais amor que electriza menos raiva calada. Mais crença pueril menos desacerto previsto. Mais poema menos choro em dois tragos. Mais estrada menos destino. Mais eu menos eu. Não sabia que as contas eram para prestar à miúda que gritava que não viessem pedir-lhe contas. Não sabia que ela seria a primeira a impôr-me regras e a fazer os meus dias assim.

Ainda tento convencê-la de que há um encanto qualquer nos propósitos que não se cumprem. Que podemos existir de outra maneira, como a ventoinha de Agosto ou como o Agosto sem ventoinhas. Não vou dizer-lhe, embora seja uma verdade absoluta, que deixei de gritar o que acredito, que deixei de acreditar no que grito, que só queria vê-la feliz.