Editorial

Uma herança renegada

2 jul 2020 15:27

Agora, Gonçalo Lopes fez saber que a cobertura da avenida Heróis de Angola, outra ideia de Castro, também não avançará, deixando, assim, cair mais uma das bandeiras do anterior presidente.

Desde que Gonçalo Lopes assumiu a Câmara de Leiria, na sequência da eleição de Raul Castro para deputado na Assembleia da República, tem sido bem visível a diferença de ideias para o concelho e a divergência de opiniões face a algumas das obras mais emblemáticas do programa eleitoral do PS.

Se o processo de elaboração da lista às eleições autárquicas de 2017, que levaram os socialistas para um terceiro mandato, já fazia perceber que a relação entre os dois não era a melhor, com António Costa a ter de intervir para que Gonçalo Lopes não caísse para quarto lugar na lista, como era intenção de Castro, os últimos meses vieram comprovar isso mesmo.

Após o episódio do busto de Lemos Proença que um grupo de leirienses, onde se incluía Castro, queria colocar na rotunda da Cruz da Areia, cuja polémica gerada obrigou Gonçalo Lopes a travar o desejo do seu anterior líder, o actual presidente deixou cair a grande obra que Raul Castro gostaria de deixar à cidade como marco da sua presidência: o pavilhão multiusos, que iria receber o nome de Centro de Actividades Municipal.

Caiu o pavilhão multiusos, mas não a conclusão do topo Norte do estádio, obra que nunca foi uma prioridade de Castro, mas sim uma ideia convicta de Gonçalo Lopes, que quer ali instalar um centro de negócios ligado às novas tecnologias e também um espaço para acolher diversas associações culturais e desportivas do concelho.

Neste caso, apesar de o custo previsto da obra ter disparado 73%, para 13 milhões, não foi invocado o impacto financeiro nos cofres da autarquia, argumento usado para suspender o multiusos, o que evidencia que na base da decisão da suspensão do multiusos estarão outras razões que não apenas a financeira.

Agora, Gonçalo Lopes fez saber que a cobertura da avenida Heróis de Angola, outra ideia de Castro, também não avançará, deixando, assim, cair mais uma das bandeiras do anterior presidente.

Neste caso, reconhecendo-se que é necessária uma intervenção no espaço público e na reorganização do trânsito, parece sensato não investir na sua cobertura, uma obra tão dispendiosa quanto questionável, principalmente quando há ainda tanto por fazer no centro da cidade, de que é exemplo a requalificação da rua Direita e a sua urgente pedonalização.

Resta saber que impactos políticos terão estas decisões de Gonçalo Lopes nas próximas autárquicas, pois é sabido que Raul Castro conquistou a Câmara pelo PS, mas com o importante apoio de uma facção do PSD que, sem a sua intervenção, não é de prever que apoie o actual presidente.

São riscos que a herança que herdou o obrigam a correr, mas a verdade é que com estas decisões, certamente difíceis, Gonçalo Lopes não poderá ser acusado que não dar um cunho próprio à sua liderança e de, concorde-se ou não, decidir consoante as suas convicções, o que não é nada desprezível num líder político.

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