Opinião
Pode uma mentira ter valor? Pode!
Há mentiras que apesar de nada terem de piedosas são importantes: podem dar força ao outro para “fazer o que ainda não foi feito”. Por isso, Roberto Martínez eu compreendo a sua mentira…
Roberto Martínez foi apelidado de mentiroso por ter dito que a atitude da Seleção foi extraordinária e eu que não concordo com essa sua afirmação percebo-a! É que, há muitos anos, quando eu era professora numa escola, apoiei uma aluna que, apesar de ter um pai e uma mãe na casa onde vivia, cresceu sem os mínimos cuidados parentais.
Na mesma situação vivia como ela, na cave da habitação, um irmão - tão criança como ela - filho de uma outra mãe e que se tornou seu companheiro de sobrevivência.
Ambos chegaram, a crescer dessa forma, a uma situação de incesto fraterno, por eles considerada perfeitamente normal. Certamente que ligado ao seu passado, esta rapariga passou a apresentar uma desinibida “hipersexualidade” e por isso, a ter constantemente comportamentos sexuais de risco.
Quando a conheci já era adolescente e estávamos em plena “era da SIDA” e até nós, chegava a informação de que ainda não existiam respostas terapêuticas eficazes para tratar essa síndrome.
Como autora do programa de Educação Sexual tinha os mecanismos de intervenção bem interiorizados e foi-me fácil agendar para ela um acompanhamento nos serviços médicos ligados à juventude. Mas não fiquei satisfeita!
Lá, apesar do que eu e ela explicámos à equipa que nos atendeu, foi-lhe apenas proposta a aplicação de um método contracetivo de longa duração, quando afinal, era o seu medo de engravidar a única arma de que dispúnhamos, para a convencer a exigir o uso do preservativo aos seus parceiros ocasionais!
Ora, a continuar a ser negligenciada, dessa vez, por parte de quem tinha o dever de tudo fazer para evitar que aumentassem os números da seropositividade, de volta à escola, pus-me eu em ação.
No dia seguinte, na nossa sessão de trabalho, contei-lhe que a filha de uma amiga tinha morrido com SIDA sem nunca ter suspeitado que fora um dos amigos com quem se tinha relacionado sem proteção, um rapaz atlético e bem parecido, mas seropositivo, que a tinha infetado!
Claro que imprimi neste meu relato mentiroso um tal dramatismo que dei comigo a chorar!
Confesso que fiquei, para além de surpreendida com as minhas lágrimas, confusa com a legitimidade daquela minha mentira, mas foi-me fácil aceitá-la quando passados uns anos encontrei essa rapariga, já mulher e ela me disse como, o que lhe contei, se tornou importante na vida que “escolheu” ter!
E é um facto.
Há mentiras que apesar de nada terem de piedosas são importantes: podem dar força ao outro para “fazer o que ainda não foi feito”.
Por isso, Roberto Martínez eu compreendo a sua mentira…
Oh, se compreendo!