Opinião

O que farei quando tudo inunda

8 set 2026 15:45

O mar está gigante, nervoso, já não sossega as ondas que até aqui pareciam fibras distendidas, ganhando força para mais tarde entesoar. Já não abafa o rugido, caiu o disfarce que nos fazia esquecer a ameaça

É tempo de rasgar listas de quereres tão rasos que nunca chegariam a riscar céus, regressar às revoltas ridículas e ruminar nas mesmas teimas que resistem sem razão. Raiva de te revelar fotografias de risos tapados em rostos velados por mãos em riste. Raiva. Riso. Raiva e riso na rua repleta de rusgas que nenhuma ronda detém. Arruma o choro enrolado na ganza que deixa reluzir o olho na borra. Raiva e riso, resiste e repete, não morras agora. Recalca os resquícios da dor que revolve entranhas e faz-me a fineza de nunca morrer.

O que farás quando tudo floresce sem história de adubos que venham de ti? Deixa-me contar-te que és dispensável, limpo a garganta para te gritar ao ouvido que és nocivo, até. Queimas os rebentos espontâneos que sem ti dão tanta flor. É olhar e ver, que lindos se puseram desde que te foste. Era de prever, tu não previste? Tens de ler mais, e não é sobre jardinagem.

Não sei o que fazer com o gato selvagem que num dia arbitrário se roça na minha perna. Se o deixo para cumprir a sina de ser livre até que o rodado o espalme contra o asfalto, ou se lhe imponho o viés da sina, servido sob uma campânula de lar protegido onde sobram mantas e faltam árvores para trepar sem medir o salto. Decidir o rumo de outras vidas quando me sei inapta no que toca a traçar o meu, eis a grande tentação. O gato não sabe que o tenho debaixo de olho, que se começa a confiar em mim acaba com uma pipeta desparasitante no cachaço, à revelia. Não sabe que olho a lareira limpa e o vejo espalmado contra o tapete farfalhudo, tão logo seja tempo de chegar fogo às acendalhas. O gato não sabe, não escolhe, eu escolho por ele e também não sei. Outro alguém escolhe por mim e, sem saber nada, espeta comigo no cenário que escolheu. Pode haver calor dentro quando o inverno é cerrado mas pode acontecer que eu prefira a árvore gelada do lado de fora. O gato também, mas vou assumir que não é esse o caso. A pipeta amanhã já vai no bolso.

O que farás quando tudo estremece e as ombreiras das portas ruíram, rebelando-se contra os panfletos da protecção civil? Onde será seguro, então? Em volta só cacos e o rugir monstruoso da destruição, fendas com dentes prontos a tragar paredes, muros, casas e estradas, tudo parecia robusto e afinal tudo é assim como nós somos também. Frágeis. Atreitos a perecer. Fugazes. Pasto de demónios que brincam com os nossos dias. Que comem as nossas certezas ao pequeno-almoço e arrotam medos que nos gazeiam. Atordoados, limpamos o pó dos olhos e cambaleamos sem a certeza de ter sobrevivido, embora tudo indique que sim. Há uma casa nova por construir, há sempre um par de mãos que acorre em socorro e percebemos então que tudo recomeça, queiramos ou não.

O mar está gigante, nervoso, já não sossega as ondas que até aqui pareciam fibras distendidas, ganhando força para mais tarde entesoar. Já não abafa o rugido, caiu o disfarce que nos fazia esquecer a ameaça. Cresce a olhos vistos, rebenta com um estrondo que replica as guerras que nunca ninguém venceu. Se o vento virar, se a lua encher, se os deuses antigos vierem cobrar as afrontas recentes, se a ira acabar por ser tão justa que o juízo tenha mesmo de ser final, se as águas galgarem com a força de todos os erros que somamos cegos, se cada um de nós tiver de prestar contas pelo seu quinhão de apocalipse no fim do outro, se o mar nos vier cobrar as correntes em que não soubemos confiar que arrastassem para terra firme, então bem podemos buscar guarida. No topo de uma árvore. Qualquer uma. Pode bem ser aquela onde o gato cumpriu a natureza e permaneceu à sua sorte.

É o que farei quando tudo inundar.