Opinião

O Lado Lunar | A idade do consentimento

24 abr 2026 21:30

A nossa silenciosa anuência a toda esta violência e desmoralização, negando a oportunidade de luz em nome da comodidade, deixando o fogo tudo queimar

Por questões profissionais e pessoais tenho gosto de visitar escolas e, assim, sentir o pulso ao que os nossos jovens realmente pensam, livres dos constrangimentos dos adultos como eu, da nossa obsessiva mas, por vezes, necessária (no sentido filosófico de necessidade e não no comum) vigilância e dos desafios da sua herança.

Estar perante uma plateia de alunos numa Secundária é uma experiência que remete para o estar num palco. Os professores que o digam. Há que saber ler a sala, gerir a indiferença, especialmente quando sentimos de forma quase violenta, mas saber aproveitar também a atenção, que sendo, efetivamente, mais rara é quase como um metal precioso.

Na música, utilizando um anglicismo, dizemos: tough crowd. Público difícil. Mas, tal como no palco, essa dificuldade em escola, pode-se transformar em desafio, nem sempre ganho, decerto, mas que poderá ter um final que nos deixa felizes. O futuro o dirá.

Nas minhas apresentações escolares destaco sempre aquela que para mim representa a maior conquista de Abril: a educação.

É através de uma educação séria mas descomprometida com tudo menos com o seu nobre propósito de criar cultura e conhecimento, que podemos dotar o cidadão-estudante com as muitas e complexas ferramentas para enfrentar e quem sabe moldar o mundo que o rodeia.

E que mundo este!

Na passada semana, tivemos as infames palavras de Cristina Ferreira que, no auge do culto narcísico da sua própria personalidade, fugiu em frente, em prime time, em forma de lamento. Acrescente-se que, mais uma vez, se perdeu a oportunidade de usar esta força motriz que, e bem, criticou a apresentadora e a sua mentalidade, não só para endereçar o cerne do próprio problema (não a Cristina-consequência, mas a violência sexual-causa), como também para tentar perceber o que pode fazer para eliminar esta verdadeira crise de aumento do número de violações em Portugal. 

Ou, pelo menos, perceber que a solução passa, lá está, pela educação e por priorizar a aprendizagem do desmantelamento de males sociais, e não apenas nos focarmos na literacia económica e liberal, na disciplina de Cidadania na escola, que começa a ser nada mais do que outra oportunidade perdida.

E por falar nisso, em oportunidade perdida, não posso deixar de comentar as reações do anedotário nacional à visita de Lula da Silva, Presidente do Brasil, eleito democraticamente, que tirou milhões de pessoas da miséria na sua ascensão, mas que também desapontou tantos milhões na sua queda no caso Lava Jato.

Deputados da nação irem ganir para as ruas é indigno e desrespeitador do sentido de Estado, com o qual muitos políticos se deixaram de preocupar de todo. É, sim, urgente aprender mais sobre um país e um povo que teimamos em desconsiderar com o nosso preconceito. Povo e país esse que poderiam significar uma oportunidade tremenda para o nosso Portugal, caso estivessem na ordem do dia coisas como a criação de um mercado livre entre os países, por exemplo.

Tendo lido e relido o Arrependimento de Prometeu, do filosofo alemão Peter Sloterdijk (à venda na Arquivo), que, em linha gerais, compara o fogo, roubado aos deuses, e trazido pelo titã até aos mortais que o desbaratam em bagatelas, à ascensão das redes sociais, potencialmente um canal de paz, de prosperidade, de comunicação, que, com rapidez, fizemos render ao ódio, à desinformação e à crueldade.

A verdadeira idade do consentimento é esta: a nossa silenciosa anuência a toda esta violência e desmoralização, negando a oportunidade de luz em nome da comodidade, deixando o fogo tudo queimar, para, no fim destes tempos, legarmos aos nossos jovens pouco mais de que uma herança de cinzas.