Opinião

Nasce-se homem, mas aprende-se a sê-lo

3 mai 2026 21:30

Não deixem de falar com os vossos filhos. Não são apenas as mulheres que ficam na mira destas visões conservadoras

Nem sempre tenho o insight que queria quando me sento a escrever o que aqui leem. Por isso, à semelhança das poupanças que faço, vou amealhando artigos e notícias para mais tarde me socorrer – como agora. Ou sou muito coerente nas minhas escolhas ou o algoritmo faz bem o seu trabalho, pois no meu banco de assuntos SOS há um que se destaca: “a manosfera”.

Na realidade é um tema que me encoleriza. O que sinto não cabe bem em palavras, mas vou tentar.

Penso que sabem do que falo, deste ecossistema digital de comunidades masculinas onde circulam discursos antifeministas e, em alguns casos, misoginia explícita e legitimação da violência contra as mulheres. Quanto mais se pesquisa, mais assustador fica.

Incels, red pills, pick-up artists, Men Going Their Own Way, Men’s Rights Activists, são alguns exemplos de subgrupos deste universo, com níveis diferentes de radicalização.

Nem todos têm o mesmo grau de risco social, eu sei, mas não vejo nada de positivo nas narrativas de ressentimento e de oposição ao feminismo que apregoam.

O acesso a estes conteúdos está à distância de um clique. O que pode começar por acaso ou sob a aparência de “desenvolvimento pessoal masculino”, rapidamente desperta curiosidade e se assume como um reforço identitário e uma ideologia.

E isto é particularmente preocupante em jovens com tendência ao isolamento, principalmente em fases de maior vulnerabilidade, como na adolescência, onde se procuram respostas e um sentido de pertença.

Não sou mãe de rapazes, mas sou tia, trabalho com jovens e acima de tudo sou mulher. E 52 anos depois de abril, é triste, muito triste, ver emergir caminhos que esvaziam a liberdade conquistada.

Não basta restringir ou dosear o acesso. É preciso conversar, questionar, acompanhar.

Não deixem de falar com os vossos filhos. Não são apenas as mulheres que ficam na mira destas visões conservadoras, também os homens se aprisionam em modelos rígidos, exigentes e cheios de expectativas irreais.

Se não formos nós a educar, é o que está atrás do ecrã a fazê-lo. Psicóloga educacional

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990