Opinião
“Eu é que sou o Presidente da República”
Porque a democracia não é só a festa das cruzinhas em escolas pelo país todo
Escrevo este artigo durante o domingo eleitoral. Já votei, feliz de usar o meu direito favorito. Ir regularmente a uma escola fazer uma cruzinha num papel deixa-me extraordinariamente feliz. E esta sensação é absolutamente desligada do resultado de cada domingo eleitoral: ao longo de mais de um quarto de século como eleitor poucas foram as vezes que votei no vencedor.
Escolhi escrever agora, antes de saber os resultados, por dois motivos: por um lado, é certo haver uma segunda volta e pouco se decidiu hoje; por outro lado, não estar influenciado pelos resultados permite-me escrever cheio da mais pura alegria democrática. Vi hoje [dia 18] no boletim de voto 14 fotografias – ainda que só 11 sejam mesmo a contar. Uma equipa de futebol de alternativas, um record absoluto. Só podia ser mesmo uma eleição em 2026, em que os egos individuais são o principal motivo para entrar na corrida.
Nestes tempos do triunfo do individualismo, a húbris de achar que “só eu sou suficientemente bom” fez multiplicar o número de candidaturas para uma quantidade disparatada. Quais influencers a mostrar ao mundo que são espetaculares – e, sobretudo, que são mais espetaculares que o vizinho do lado que é praticamente igual –, 11 dos nossos concidadãos quiseram partilhar connosco o seu promocode.
Percebe-se que estamos na era das redes sociais porque o foco dos candidatos é, muito mais que antes, o que torna cada um único. Não procuram perceber os pontos em comum, os princípios partilhados, os objetivos que ambos querem prosseguir.
Quais influencers a fazer o seu “get ready with me para a candidatura a Belém”, nada mais fazem do que mostrar que o seu casaco bege é muito mais lindo do que o casaco bege do seu adversário. Há quase 30 anos, Herman José dizia “Eu é que sou o presidente da junta!”; hoje teria que atualizar para “Eu é que sou presidente da república”.
Uma equipa de futebol de candidatos. Muitos deles sérios, competentes. Todos eles com pleno direito de se candidatar. E, no entanto, tomados pelo ego e individualismo, vários deram um mau contributo para a democracia. Porque a democracia não é só a festa das cruzinhas em escolas pelo país todo.
É a procura do melhor para o país – que nem sempre coincide com o melhor para si ou para o partido. É a procura de pontes, consensos, cooperação – porque ganhar não significa poder absoluto. Em 2026, tivemos 11 candidatos. Com o êxito impagável do ego, receio que em 2031 o boletim de voto tenha a fotografia de todos os cidadãos portugueses.
Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990