Opinião
Espírito de sacrifício, altruísmo e outras virtudes
Enquanto Montenegro medrosamente se preocupa com o seu lugar, o Povo traz a sua força para a frente e preocupa-se com todos
Nas últimas semanas o país mediático acordou para o tema da habitação. Depois de uma eternidade a discutir um amuo de um jogador de futebol, protestos em várias cidades do país fizeram as TV começar a prestar atenção às rendas incomportáveis e aos preços especulativos das casas.
Protestos pacíficos desmobilizados com desculpas esfarrapadas e bastonadas, enquanto governantes se desdobram em declarações que fariam corar de vergonha o mais descarado trambiqueiro. Tal como os manifestantes que gritam “tanta gente sem casa, tanta casa sem gente!”, também eu considero que há desigualdades nestes protestos.
Aponto, especificamente, cinco virtudes que têm estado mal distribuídas.
Coragem. Os manifestantes têm revelado grande coragem - física, até - estando longas horas expostos aos elementos, confrontados com ameaças, e sujeitos à atuação arbitrária da polícia que bate e prende sem processo claro nem proporcionalidade. Já ao primeiro-ministro não parece abundar: não só se tem remetido ao absoluto silêncio, como resolveu encarnar o mofento Esteves e dar às de vila diogo.
Espírito de sacrifício. O presidente do IHRU, com o seu salário mensal de 7000€, disse que faltava espírito de sacrifício aos jovens que enfrentam rendas mais altas que os salários.
Além do espírito de sacrifício, também o bom senso está em falta nos nomeados laranja.
Empatia. Nos protestos vêem-se muitas pessoas que não são diretamente afetadas a pedir medidas para que os preços da habitação sejam razoáveis. Governantes dizem que nada mais há a fazer e que não vão ouvir os protestos da rua, numa versão requentada do “ai aguenta, aguenta”. Inclusão.
Num problema social que afeta jovens e idosos, de meios urbanos e rurais, do litoral e do interior, há quem tente dividir e apontar diferenças. Nuno Melo estranhou sotaques estrangeiros entre os manifestantes e o Ministro dos Assuntos Parlamentares parece ter uma preferência por certas bandeiras.
Altruísmo. Luís Montenegro conseguiu, com umas disparatadas acusações de egoísmo e de importação dos protestos ser uma autêntica cheerleader. Foi fundamental para fazer crescer o movimento de protesto, com muitas pessoas a serem solidárias com a causa.
Depois, com cada declaração e ação do governo sem rumo, cresce sem parar o número de pessoas que saem à rua para reprovar a violência do estado contra cidadãos pacíficos.