Opinião

Deixa-me estar calado | Fui comprar cenouras e trouxe uma região. O segundo sábado

21 ago 2026 09:52

O Mercado de Santana, muito bem recuperado e já usado para exposições, eventos e outras iniciativas, tem uma localização que não podia ser melhor: está no coração do centro histórico. Porque não acolher, um sábado por mês ou em algumas datas ao longo do ano, um mercado assumidamente dedicado a produtos biológicos e pequenos produtores?

O segundo sábado de cada mês é o que mais me motiva para sair de casa mais cedo.

É o sábado em que digo que vou ao mercado comprar dois ou três produtos e acabo sempre por trazer o dobro daquilo que contava levar. Da última vez fui ao Mercado Municipal de Leiria com uma missão concreta: preparar um almoço para uns amigos. Um almoço sem grandes pretensões, que são normalmente os que dão mais trabalho.

Comecei pelos legumes frescos e por umas carnes para fazer uma sopa à moda antiga, numa panela de ferro que tinha comprado, há uns tempos, na Feira do Levante de Leiria.

Comprei também farinha para fazer pão, morcelas de arroz, tão nossas, e um saco de arroz do Mondego, de um produtor local. Depois apareceu o mel, de um apicultor da terra, num bonito pote de vidro feito na Marinha Grande.

Ainda trouxe sardinhas da nossa costa para fazer na telha. O pão e as sardinhas foram para o forno: primeiro entrou o pão e, depois, aproveitando o calor, entraram as sardinhas.

Quando já achava que tinha tudo, fui espreitar a Feira de Antiguidades e Velharias, que acontece todos os segundos sábados do mês. Saí de lá com dois vinis.

Porque, aparentemente, quem vai comprar legumes também precisa de comprar discos.

Ilustração de Rui Gaspar

Foi também por ali que encontrei um casal amigo. Convidei-os para o almoço. Assim, sem grande cerimónia. Se já havia mesa posta para alguns, haveria certamente para mais dois.

E foi assim que o almoço acabou por juntar sopa na panela de ferro, pão acabado de sair do forno, sardinhas na telha, dois vinis e mais dois convidados. A lenha aquecia o almoço e os amigos aqueciam a mesa.

Nesse sábado voltei a pensar no que um mercado pode ser. Não apenas um lugar onde se compra comida, mas um ponto de encontro entre quem produz e quem compra, entre a cidade e o campo.

É uma das questões estudadas pelo Blumi-Med, projecto europeu que procura perceber como os mercados urbanos e periurbanos podem contribuir para sistemas alimentares mais sustentáveis, resilientes e inclusivos. Em Portugal, a Praça da Fruta, nas Caldas da Rainha, e o mercado biológico Agrobio do Campo Pequeno, em Lisboa, são dois dos casos de estudo.

E fiquei a pensar: e Leiria?

Não seria preciso criar outro mercado nem competir com o Municipal. Bastava olhar para o que já temos. O Mercado de Santana, muito bem recuperado e já usado para exposições, eventos e outras iniciativas, tem uma localização que não podia ser melhor: está no coração do centro histórico.

Porque não acolher, um sábado por mês ou em algumas datas ao longo do ano, um mercado assumidamente dedicado a produtos biológicos e pequenos produtores?

Legumes, fruta, pão, ovos, mel, azeite, queijos, plantas e produtos transformados. E, sobretudo, pessoas. Gente que produz e que pode explicar como produz e de onde vem aquilo que comemos.

Seria outra coisa, com identidade própria, capaz de trazer novos públicos ao centro da cidade e dar visibilidade a produtores que nem sempre têm onde vender directamente.

E se o próximo segundo sábado começasse no Mercado de Santana?