Opinião
A mulher de Lot
Viramo-nos para trás, para o que passou, e ficamos transformados em estátuas de sal, isto é, deixamos de viver realmente o presente
1- Os mais velhos sempre me disseram que com o passar do tempo, isto é, com o envelhecimento, as memórias mais antigas voltam com mais intensidade. Em mais novos não ligamos a isso, felizmente!, porque o presente que se vive e o futuro que há de vir tomam quase por inteiro as nossas preocupações. Mas dou razão aos mais velhos, tendo passado os 65.
As memórias, sobretudo das pessoas com quem crescemos e vivemos, ou, para utilizar uma expressão mais técnica, com quem interagimos, voltam com um pouco mais de intensidade, mesmo quando não nos queremos envolver demasiado no passado.
A história do Antigo Testamento de Lot e da fuga de Sodoma, desde cedo se tornou para mim numa alegoria sobre o passado.
Olhar é para a frente, para o futuro, e não olhar para trás, como aconteceu com a mulher de Lot.
Viramo-nos para trás, para o que passou, e ficamos transformados em estátuas de sal, isto é, deixamos de viver realmente o presente. Ficamos a remoer o passado, no limbo do que deveríamos ter feito e não fizemos. Na realidade paralisamos, como que morremos.
2 - Um professor que chegou ao fim da carreira tem muito que contar. Mas a maioria de nós pouco conta, porque nos cansámos de “interagir” em terreno educativo com milhares de pessoas.
O que um professor faz, quando se aposenta, é deixar de falar em Escola e das suas experiências enquanto professor, quase como os soldados no pós-guerra que se recusam a falar sobre o que viveram. Mas, por outro lado, a Escola (e, portanto, a sociedade) descarta amiúde as experiências dos que por lá passaram e fazem disso, algumas vezes, missão de vida. E se calhar, quem sabe, com alguma razão.
As mudanças geracionais têm sido tão abruptas que após 2 ou 3 já não vale a pena aproveitar uma experiência desatualizada...
3 – Mesmo sem olhar para trás o passado recai sempre sobre nós. Se forem coisas boas, então ficamos de coração cheio. Quando encontramos, por exemplo, ex-alunos ou ex-colegas e sentimos que a nossa ação marcou mais do que esperávamos. Na maioria das vezes, estranhamente, não tanto somente porque ensinámos muito bem, mas sobretudo porque enquanto pessoas algo positivo os não fez esquecer de nós.
Por isso, como me apraz encontrar a Vânia, que me lembra que fui responsável pela sua decisão de carreira profissional (e pela qual já lhe pedi desculpa), ver o sorriso da Carla, que sempre me engrandece, como me sinto feliz estar com o Armando, já meu companheiro e confidente, de absoluta confiança…
Nestas alturas, gostamos do confronto com o passado.
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990