Opinião
A Mata
Na mata, as silvas são cortadas para que não magoem quem nela passeie, tapa-se algum buraco de uma toca abandonada não vá alguém cair, ou é amparado algum novo pé de medronheiro ou gilbardeira para que possa crescer
Na pequena mata que abraça a casa onde o Verão acontece e onde, ao longo de todo o mês, vão chegando, ficando e partindo avós, tios, primos e netos, a vida é extraordinariamente complexa, bela e interdependente.
Por entre meia dúzia de grandes árvores crescem arbustos de todos os tamanhos, espigam as ervas, as pequenas flores e os fetos, estendem-se os musgos e os líquenes, erguem-se trepadeiras.
Sobre tudo pousa a luz nova e limpa de cada manhã a prometer mais um dia, ao som dos chilreios, do esvoaçar entre os ramos e do som das vozes acabadas de despertar.
A agitação da manhã cresce e perdura no entusiasmo dos mais novos, nas propostas para o dia, no vozear alto, nos risos, nas gargalhadas e na antecipação esfaimada do que será o almoço.
É uma azáfama de vida semelhante à que acontece por entre as folhas caídas onde se resguardam osgas, sardões e lagartixas e, por baixo da terra, na correria das toupeiras e na cantoria das cigarras quando, mais tarde, o sol a pino reduz as sombras e ilumina o mundo com uma luz uniforme e esbranquiçada.
Sabe-se que a tardinha chegou pela cor quente da luz, pelo arrulhar das rolas, pelas fomes de pão com marmelada acabada de fazer, pelos olhos, agora já mais sossegados, pousados nos livros que acompanham o Verão, pela apanha gulosa de figos e pelo crescente cheiro a sabonete que vão trazendo os que se vão agora juntando na roda das cadeiras.
Aí, a par das cores quentes que o sol deixa nas folhas, das franjas de luz nos ramos mais finos, e dos raios desenhados na poeira do ar, a conversa vai surgindo em torno de acontecimentos recentes, de lembranças de outros verões, ou de histórias da família onde surgem os nomes de quem está longe, ou de quem jamais poderá voltar.
Com as sombras agora alongadas no chão, a contraluz tornando negros os troncos e os ramos, e a chegada pacata do fim do dia, acontecem por vezes perguntas e explicações, dúvidas e conselhos, reparos, rebeldias e apaziguamentos, numa relação entre idades e sabedorias que ajuda a manter a ligação e o vínculo de uma família.
Tal como na mata, em que árvores e plantas produzem o seu alimento com a ajuda do sol, os pequenos animais se alimentam de plantas ou de outros animais e os fungos e as bactérias transformam todos os restos em nutrientes para o solo, num eterno ciclo de crescimento, partilha, cuidado e protecção, assim é esta família.
Assim serão quase todas. É a interdependência que faz crescer, que ajuda, que se transforma em lembrança e em continuidade, que cria laços indestructíveis e ata todas as pontas tecendo uma rede que estará sempre debaixo dos nossos pés. Família é sermos aceites tal como somos e valorizados pelo papel que nos cabe, à semelhança de arbustos, líquenes, árvores ou trepadeiras.
É sentirmo-nos seguros, interligados e parte importante de um caminho. Na mata, as silvas são cortadas para que não magoem quem nela passeie, tapa-se algum buraco de uma toca abandonada não vá alguém cair, ou é amparado algum novo pé de medronheiro ou gilbardeira para que possa crescer.
Assim se faz também na família.