Viver

Pinturas de guerra em retratos do Ultramar na Pele

21 out 2020 09:26

Tatuagens | Saudade, amor, pedidos de protecção divina ou episódios de guerra. Em 21 relatos e outros tantos retratos, Rui Caria, fotojornalista natural da Nazaré, e Diana Gomes, tatuadora, revelam as histórias por detrás dos desenhos que habitam a pele dos antigos combatentes da Guerra Colonial Portuguesa

Ultramar na Pele
Ultramar na Pele
Ultramar na Pele
Ultramar na Pele
Ultramar na Pele
Ultramar na Pele
Jacinto Silva Duro

Há quase uma década que não saía da cabeça de Diana Gomes uma ideia. Vivia ali e deixava-se ver, para depois se esconder.

Mostrava-se em traços, pontilhados, letras e recordações de um tempo enevoado na memória pessoal e colectiva de um Portugal escondido e varrido para debaixo do tapete do quotidiano.

Proprietária de um estúdio de tatuagens desde 2004, na Praia da Vitória, ilha Terceira, nos Açores, fascinavam-na  as “pinturas de guerra” dos antigos combatentes da  Guerra Colonial, umas vezes escondidas pela roupa, outras à mostra, mas de significado igualmente ignorado.

“Angola”, “Moçambique”, “Guiné”, datas, nomes,  desenhos e juras de amor eterno, umas vezes concretizado, outras, nem por isso.

As tatuagens exibidas pelos militares do Ultramar são arte à flor da pele, feita em noites e dias ébrios, de solidão, de saudade, ou no rescaldo de mais um dia em que rapazes de 20 anos, oriundos de um Portugal dormente e brutalizado, escapavam de um encontro imediato com aquilo que ninguém quer.

Esses episódios relatados, as mensagens e os talismãs desenhados na pele resultaram no livro Ultramar na Pele, que Diana assina com Rui Caria, fotojornalista natural da Nazaré, radicado na Terceira.

O volume documenta,  ao longo de 96 páginas, as histórias e tatuagens de 21 antigos combatentes locais.

“As tatuagens da guerra eram mistificantes”, conta a  autora.

No coração desta artista de 37 anos, nascida quase  dez anos após o fim do conflito que opôs Portugal aos povos das ex-colónias que procuravam a autodeterminação, havia uma necessidade urgente de saber mais, de conhecer, de escutar, de entender e de preservar para o futuro um capítulo da história que, em Portugal, em vez de se abraçar e tirar lições, se prefere, muitas vezes, condenar como “vergonhoso” e “opressor” ou, noutros  casos, elogiar como se fosse determinante para a “portugalidade”.

O sonho materializou-se quando um antigo militar entrou pela porta do seu estúdio de tatuagem.

Queria tapar uma das pinturas que tinha por não se sentir confortável  com ela.

“Percebi que era urgente preservá-las  para as gerações futuras. Se não houvesse forma de as  guardar, elas desapareceriam para sempre.”

Memórias gravadas na pele
“A minha avó sempre me disse que ‘o trabalho feito de noite, de dia aparece’. Muitas vezes, nestas tatuagens, era o caso.

Foto: Rui Caria


Os soldados, rapazes ainda, desenhavam-nas em condições emocionais complexas, após emboscadas, após um combate, após verem amigos serem mortos. Alguns tatuaram Salazar e, após o 25 de Abril,  com maior conhecimento, traçaram-no com um risco  preto”, conta Rui Caria.

O Ultramar na  Pele, de Diana  Gomes e de Rui Caria, pode ser adquirido através do site do Instituto Açoriano de Cultura ou na página de Facebook Poison Tattoo


É provável que, devido a Hollywood, boa parte dos  portugueses saiba de cor nomes de cidades no Vietname, como Hanói e Saigão, onde as tropas americanas e o Vietcong se confrontaram. Menos saberão o que são Madina do Boé, Caxito, Silva Porto ou Tete.

“As balas  do Vietname matavam tanto quanto as do Ultramar e  os soldados ficaram igualmente marcados”, afir

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