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Lentriscas em Castelo | Meeting: produto, ponto e equilíbrio
No fundo, o Meeting reflecte a personalidade do seu chef: uma cozinha sem ansiedade de impressionar, construída com serenidade e respeito pelo produto
Há cozinheiros que aprendem nas escolas. Outros aprendem primeiro na vida. Nuno Pereira pertence claramente à segunda escola. Cresceu numa família ligada ao comércio de carnes, um ambiente onde o respeito pelo produto não era um discurso gastronómico, mas prática diária. Entre talhos, mercados e cozinhas familiares, foi absorvendo desde cedo o valor das matérias-primas, dos cortes bem feitos e do tempo necessário para que tudo chegasse ao ponto certo.
Esse contacto precoce com o alimento acabaria por marcar o seu percurso. Ainda jovem, abriu em Leiria o Manjar dos Sabores, restaurante que durante anos lhe serviu de campo de aprendizagem permanente. Ali afinou técnica, consolidou uma clientela fiel e, sobretudo, amadureceu uma ideia de cozinha que não vive de efeitos fáceis, mas de consistência.
Em 2018 surge o Meeting, instalado no edifício da Nerlei. O projeto revela já uma fase diferente do cozinheiro: mais madura, mais segura, mais consciente do que quer dizer à mesa.
A proposta assenta numa cozinha portuguesa contemporânea, com olhar mediterrânico, onde tradição e técnica caminham lado a lado, sem necessidade de ruído.
A refeição começou com uma quiche leve e saborosa, cumprindo bem a função de despertar o paladar enquanto a mesa se compõe. Depois chegou a tiborna de bacalhau: um prato que convoca imediatamente a memória da cozinha portuguesa. O bacalhau chega suculento, lascando em folhas largas, bem tratado e acompanhado por grelos que trazem frescura e um ligeiro amargor. A batata a murro dá conforto, a cebola grelhada acrescenta profundidade e o crocante de broa introduz textura. O conjunto revela equilíbrio e sentido de proporção, onde cada elemento cumpre o seu papel.
Seguiu-se o tataki de vazia com puré de couve-flor assada e grelos salteados com nozes. A carne chega no ponto certo, macia, com a intensidade natural da vazia bem presente. O puré oferece cremosidade e delicadeza, enquanto os grelos com nozes acrescentam contraste e textura. Um prato pensado com simplicidade, onde a técnica serve o sabor, e não o inverso.
Um clássico a fechar
Para terminar, a sobremesa trouxe uma leitura contemporânea de um clássico: pudim de queijo da Serra com tangerina crocante, pistáchio, gelado, manjericão e citrinos. Aromática e fresca, a sobremesa encontra equilíbrio perfeito entre a riqueza do queijo, a acidez delicada da tangerina e as notas herbais do manjericão.
O serviço acompanha a cozinha: seguro, atento e com aconselhamento de vinhos preciso. Tanto o branco como o tinto chegaram à mesa à temperatura certa — um detalhe aparentemente pequeno, mas revelador do cuidado com que a casa conduz a experiência.
No fundo, o Meeting reflecte a personalidade do seu chef: uma cozinha sem ansiedade de impressionar, construída com serenidade e respeito pelo produto. Há ali aprendizagem, maturidade e, sobretudo, uma relação honesta com os ingredientes e com quem se senta à mesa.
Meeting
Avenida Bernardo Pimenta
Leiria
244 210 845
Artigo publicado originalmente na edição impressa 2174 do JORNAL DE LEIRIA, de 12 de Março de 2026