Sociedade
Felizes pela detenção de Maduro, venezuelanos estão expectantes
Os venezuelanos da região receberam com alegria as notícias sobre a detenção do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, mas estão expectantes sobre o futuro do país sul-americano
“Estamos felizes e à espera de ver o que vai acontecer.” Esta é a frase que caracteriza o sentimento dos venezuelanos da região de Leiria face à detenção do Presidente Nicolás Maduro e da sua mulher na madrugada do dia 3.
O Presidente venezuelano e a sua mulher, Cília Flores, foram transportados para Nova Iorque. Presente esta segunda-feira num tribunal americano, Maduro declarou-se inocente das acusações de narco-terrorismo, conspiração para a importação de cocaína, posse de armas de fogo e dispositivos destrutivos e conspiração para posse de armas. O detido será novamente presente a tribunal a 17 de Março.
A número dois, Delcy Rodriguez, assumiu a Presidência interina do país, mas os venezuelanos não lhe reconhecem melhores qualidades do que o seu antecessor, considerando-a mesmo uma pessoa “perigosa”.
“Estamos felizes e expectantes. Já nos manifestámos muitas vezes [contra o regime de Maduro]. Tivemos de fugir em 2017. Conheci o [Vladimir] Padrino López e o [Diosdado] Cabello, não são melhores”, assume Daniel Freitas, que deixou na Venezuela vários familiares, assim como a sua mulher.
O irmão mora em frente ao Forte Tiuna e ouviu as bombas a rebentar do ataque americano. Ligou-lhe a perguntar se sabia o que se passava. “Eu estou aqui e tu aí e ligas-me?”, respondeu, explicando que a opressão no país continua a existir. “Quem fala mais alto arrisca levar com uma bala na cabeça. Às 6/7 horas da tarde tens de estar em casa, sob o risco de seres roubado ou morto”, conta, ao referir a frequente falta de electricidade e de água, mesmo na capital, Caracas.
Nem sempre é fácil adquirir comida e quem trabalha não é bem aceite, porque o governo quer as pessoas dependentes. “Trouxe a minha mãe para Portugal, porque não havia acesso à saúde. “Não sei se é uma treta do Trump, mas concordo com o ataque e a detenção do Maduro. Estávamos à espera disto há muito tempo. Esperamos que vá para prisão perpétua e saia da Venezuela. Já fugiram cerca de sete milhões de pessoas. Se o regime mudar, acredito que muita gente vai regressar”, admite Daniel Freitas.
O venezuelano radicado em Leiria há vários anos revela que foi obrigado a vender a sua empresa e vários cidadãos perderam os seus negócios e casas quando imigraram.
Na Venezuela os relatos que lhe chegam são de familiares “assustados, mas tranquilos”. “Quem está no poder agora é igual ao Maduro. A Delcy e o irmão estão lá para fazer vingar a morte do pai. Sequestraram e mandaram matar muita gente. São pessoas muito perigosas. Não estão preocupados com os cidadãos, mas com o dinheiro para meter ao bolso.”
Para garantir a realização de eleições livres, Daniel afirma que o Conselho Nacional de Eleições tem de ser trocado, porque os elementos actuais ainda são do tempo do antigo presidente Hugo Chavez.
Entre a incredibilidade e a alegria
A mãe de Alex Abreu irrompeu pelo seu quarto a alertá-lo para o que estava a acontecer em Caracas. “Primeiro foi um choque porque não sabia o que estava a acontecer e depois foi uma alegria. Foi um pouco pensarmos: isto é real? Está mesmo a acontecer? Tantos anos no poder e de repente é detido”, refere.
Apesar da felicidade, Alex reconhece que “ainda não acabou, porque eles ainda estão no poder”. “Mas, finalmente foi dado um grande passo, que tanto foi desejado.
Pode ser difícil de ouvir, mas concordo com Donald Trump, quando disse que é preciso dar continuidade à administração do país, para que não se incendeie”, afirma, admitindo, contudo que “dói ver ainda o Madurismo no poder”.
E esta linha de governantes, como Vladimir Padrino e Deosdado Cabello, deixa os venezuelanos expectantes no futuro. “Sabemos como funcionam as coisas na Venezuela e por isso não se vê ninguém a festejar, porque há medo. Houve comércio fechado, filas em bombas de combustível e nos supermercados.”
A distância de um oceano não esbate o medo e a preocupação vividos nos últimos dias por uma imigrante venezuelana, que mora e tem negócio há vários anos na região de Leiria, mas mantém grande parte da família na Venezuela.
“Queremos que os Estados Unidos nos salvem. Os venezuelanos não conseguem. Mas é Maria Corina que tem de ficar à frente”, entende a imigrante, que prefere não ser identificada. “Queremos um país livre e uma democracia real”. Até lá, “estamos com muito medo”.
A mãe e a irmã vivem em zonas muito próximas de locais atingidos pelas armas norte-americanas. Apesar de feliz, a sua família tem receio de sair à rua até para comprar comida. Maduro foi retirado, mas mantêm-se no governo pessoas dedicadas ao narcotráfico, que “armaram malandros encarregados de revistar telemóveis”, à procura de qualquer sinal de felicidade por parte da população.
A comunicação entre Portugal e Venezuela é esporádica e acontece via whatsapp. E os constrangimentos nos aeroportos são de tal ordem, que a imigrante nem sequer equaciona encaminhar alimentos ou outros bens de primeira necessidade.
Longe vão os tempos em que a sua família detinha negócios na área do têxtil na Venezuela. Os sucessivos cortes de electricidade e as tentativas de extorsão ditaram o fim da actividade. E a situação só tem vindo a agravar-se. Nas últimas eleições, que Maduro afirmou vencer, até o pai desta imigrante, que tinha morrido há mais de 20 anos, contou como votante, revela.Em directo da Venezuela