Viver
Exposições: Cápsulas de Intervalos
Banco das Artes Galeria (BAG), Leiria

Até 2 de Novembro
Desenho e pintura contemporânea
Artista: Rafaela Ferreira
Curadoria: Samuel Rama
Banco das Artes Galeria (BAG), Leiria
De segunda a sexta: 9 às 12:30 horas e 14 às 17:30 horas
Sábado e domingo: 9:30 às 13 horas
Texto de Samuel Rama
A importância radical do gesto não reside unicamente na capacidade de expressar força, diversidade de amplitudes, maior ou menor concentração e exactidão do executante. O gesto é a prova mais forte do combate contra a angústia da morte. Para melhor entender a importância do gesto enquanto ímpeto de combate contra a angústia da morte, podemos dar como exemplo a génese dos objectos funcionais mais rudimentares ou das imagens da arte. Quando o humano junta as duas mãos para segurar a água que brota de uma fonte, realiza um gesto que lhe possibilita matar a sede. Construiu um depósito gestual que apesar de efémero, quando associado à evidência de que super ícies densas e côncavas seguram a água, acaba por levar ao ritmo gestual da construção das primeiras taças e recipientes que guardavam a água. Mas, fazer o mesmo utilizando a roda de oleiro é muito mais espectacular. Equivale tecnicamente, no momento da sua invenção, à viagem à lua da era moderna, tal é a capacidade de abstracção que foi preciso alcançar para se produzir um objecto a partir dessa técnica.
Lascaux foi uma gruta descoberta a 12 de Setembro de 1940, por um aprendiz de mecânico com 16 anos. Podemos hoje testemunhar a força dos gestos não funcionalistas presentes nas pinturas de Lascaux. A sucessão dos gestos marcados e pintados funcionam na caverna como uma construção simbólica, albergando expressões com diversos níveis de leitura. Mais que tentar decifrar essas expressões, o importante é reconhecer o sentido do sagrado agarrado ao mito, que permite contar as origens do sol, dos astros, da terra e assim tentar criar um plano de entendimento para os grandes problemas da comunidade que se situam sempre entre o céu e a terra, o dia e a noite, humanos e animais, as mulheres e os homens, a vida e a morte.
A arte conheceu depois a sua elaboração crescente, criou espaço e profundidade virtual a partir do plano, as figuras passaram por gradativos estádios de realidade e todos os elementos do real conheceram uma configuração mimética nunca antes experimentada. Mas a arte que sempre quis estabelecer um vínculo com a realidade veio em parte a suspendê-lo durante os modernismos. Durante a primeira metade do século XX, a arte parece ter-se inebriado a falar de si própria e das suas condições. Dessa forma, trouxe coisas para dentro da sua prática que nunca lá tinham estado, mas sobretudo, retirou coisas que sempre pertenceram à prática da arte. Ao retirar esses elementos inaugura-se a ideia de síntese oferecendo-nos obras de sublime exigência, como as que Mark Rothko criou. Nos anos 60 do século XX surge o informalismo, que foi o primeiro movimento que ocorreu rapidamente à escala planetária, recorrendo a alguns dos ensinamentos mais preciosos dos surrealistas. As suas imagens são tão simples que para serem competentes e exactas no tempo e no espaço, os seus autores têm que ser muito robustos do ponto de vista sensível e intelectual.
E agora? Quando se pensava que a barbárie já não era opção, surge de novo a sua força destruidora, muitas vezes apenas como primária resposta aos estímulos do simulacro, já muito pobre de pontes com o real. É por isso que artistas como Rafaela Ferreira são importantes, porque nos mostram a ancestralidade da força do gesto, a capacidade que tem para combater a angústia da morte, de ligar o nosso fundo animal com o intelectual e sensível.
Rafaela Ferreira fez a sua formação inicial em cerâmica no Cencal – Caldas da Rainha, em que o fazer da cerâmica, principalmente na roda de oleiro, implica uma sincronização perfeita entre as capacidades mentais e ísicas. Para que uma peça cresça a partir de um pedaço de barro, o pensamento antecipatório da forma age premonitoriamente para a mão e os braços e destes para todo o corpo. Talvez esta experiência tenha sido decisiva para o carácter gestual do seu trabalho. Em qualquer trabalho de Rafaela Ferreira se exibe o respeito pelas matérias e a consciência da escala do corpo que ao mover-se lança para o espaço os seus vectores.