DEPRESSÃO KRISTIN

Seis meses após a Kristin, 1.600 clientes ainda sem comunicações

22 jul 2026 10:17

Região de Leiria concentra a maioria dos casos que continuam sem serviços fixos de comunicações quase seis meses após a tempestade

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Ainda há infra-estruturas que não estão repostas, seis meses após a tempestade
Fotografia: Ricardo Graça
Redacção/Agência Lusa

Quase seis meses depois de a depressão Kristin ter varrido o território, cerca de 1.600 clientes continuam sem serviços fixos de comunicações — e a maioria está na região de Leiria. O número foi avançado na pela Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom), que confirma ser este o território onde se concentra o maior número destas situações.

O valor representa menos de 1% dos acessos fixos inicialmente afectados. Segundo a comunicação do regulador, a previsão é de que grande parte dos acessos ainda em falta seja reposta nas próximas duas semanas.

Como evoluíram os números desde Janeiro?

A recuperação tem sido lenta mas contínua: dos mais de 30 mil clientes sem rede fixa em Março passou-se para 1.600 em Julho, uma redução de cerca de 95% em quatro meses. A progressão, reconstituída a partir dos sucessivos balanços da Anacom, é a seguinte:

Data do balanço Clientes sem rede fixa
Março de 2026 Mais de 30.000
24 de Abril de 2026 Cerca de 20.000
Final de Maio de 2026 Cerca de 9.400
Julho de 2026 Cerca de 1.600

Recorde-se que, no balanço de Maio, a Anacom indicava que as operadoras previam concluir a recuperação da rede fixa até ao final desse mês, prazo que acabou por não ser cumprido.

As reclamações continuam a subir?

Sim. Até ao dia 15, a Anacom tinha recebido cerca de 2.200 reclamações escritas relacionadas com os fenómenos meteorológicos extremos do início do ano, quase o dobro das 1.200 contabilizadas em Abril. Os motivos mais frequentes prendem-se com a demora na reposição dos serviços e a reincidência de falhas após reparação, com as dificuldades no contacto com os operadores, com a facturação do período de indisponibilidade e com o agendamento das intervenções técnicas.

O regulador assegura ter tratado cerca de 99% das reclamações recebidas, correspondendo as restantes a solicitações mais recentes. O descontentamento tem chegado também às instituições: no início de Julho, a Assembleia Municipal de Ourém aprovou por unanimidade uma moção que exige aos operadores uma resposta mais célere e transparente, sustentando que uma indisponibilidade tão prolongada não pode ser tratada como um mero incómodo.

Por que demora tanto a reposição da rede fixa?

Porque, ao contrário da rede móvel, a reposição da rede fixa exige reconstruir toda a capilaridade da rede de acesso, habitação a habitação e estabelecimento a estabelecimento. Subsistem ainda, segundo a Anacom, diversos postes por repor e quilómetros de cabos junto ao solo, com os trabalhos de reposição destas infra-estruturas físicas em curso mesmo onde o serviço já foi recuperado.

Questionada sobre a eventual abertura de procedimentos contra-ordenacionais às operadoras, a entidade presidida por Sandra Maximiano esclareceu que as suas equipas estiveram no terreno e constataram que as empresas de comunicações electrónicas e as detentoras de infra-estruturas mobilizaram de imediato meios humanos e técnicos para os trabalhos de recuperação. A extensão territorial e a severidade dos danos obrigaram, contudo, a uma priorização: primeiro foi reposto o backbone das redes, para garantir a ligação às principais localidades, depois as redes móveis e, por fim, a rede fixa.

Há também um obstáculo acrescido, e este envolve directamente a população: os operadores têm alertado para inúmeros casos de cabos já reparados que voltam a ser danificados ou cortados durante trabalhos de limpeza de terrenos, apelando a que se evite manipulá-los ou pisá-los até à conclusão das obras. É um problema que se arrasta desde os primeiros meses, quando moradores e empresários de várias localidades do distrito denunciavam o calvário das falhas nas comunicações.

Que medidas foram propostas ao Governo?

No plano legislativo, o regulador submeteu ao Governo propostas destinadas a reforçar a capacidade de resposta e a resiliência das redes — designadamente quanto à coordenação das intervenções de limpeza e reparação de danos, às intervenções em propriedade privada e em espaços sob gestão de concessionárias e à priorização de clientes na reposição do fornecimento de energia eléctrica. Foi ainda apresentada uma proposta relativa ao roaming nacional temporário e formuladas recomendações para simplificar os procedimentos de instalação de infra-estruturas.

Entretanto, foi publicado um diploma que estabelece um regime excepcional e temporário de simplificação administrativa e financeira para a reconstrução do património e das infra-estruturas nos concelhos afectados.

O sistema está hoje mais resiliente?

A Anacom não o garante. Os elementos disponíveis, admite o regulador, não permitem concluir de forma inequívoca que a rede seja hoje mais resiliente do que era a , madrugada em que a depressão atingiu a região.

O que o país ganhou, sustenta, foi um conhecimento mais aprofundado das suas vulnerabilidades: os pontos críticos das redes, os constrangimentos na reposição dos serviços, a dependência das comunicações face ao fornecimento de energia eléctrica e a fragilidade dos traçados aéreos.

Os operadores, acrescenta, têm vindo a investir no reforço da robustez das suas redes.