Entrevista

Ricardo Castro: “Como contivemos muito, não há ainda uma grande imunidade grupal”

21 mai 2020 12:16

O director do Serviço de Patologia Clínica do Hospital de Santo André considera que se tem evoluído para uma medicina mais personalizada e afirma que só agora se poderá adquirir imunidade grupal

Ricardo Castro é director do serviço de Patologia desde 2009
Ricardo Graça

A patologia clínica está presente em todos os passos da medicina moderna. Em que medida se pode afirmar como uma das mais importantes especialidades?
Não tenho dúvidas de que tomamos cada vez mais relevo. A medicina modificou-se muito ao longo dos últimos anos. Há um grau de diferenciação da especialização em cada uma das áreas, mas não deixa de funcionar em equipa. A medicina passou a ser muito mais defensiva, o que significa que os meios complementares de diagnóstico e terapêutico estão presentes no dia-a-dia e mais de metade das decisões clínicas são baseadas nesses meios. O hemograma, que antigamente era uma coisa muito difícil de realizar, foi das coisas que levou maior impulso, mas é quase como o advento do carro individual, que passou a ser muito banalizado. Creio que há alguma perda de valor. Fazem-se milhares de hemogramas por ano e agora com resultados muito rápidos. Não tenho dúvidas de que vamos ter pequenas máquinas, cada vez mais complexas, à cabeceira do doente.

Como tem evoluído a patologia clínica?
Antes era muito mais manual. Nem se pensava fazer o mesmo número de análises que fazemos hoje. Era muito complexo, às vezes até de algum risco para o operador. Há uma mudança sem precedentes. A patologia clínica sempre esteve na crista da onda da nova tecnologia e continuará a estar. Não tenho dúvidas de que a patologia clínica é a especialidade mais evoluída em termos tecnológicos.

A patologia contribui para uma medicina preventiva, que fica mais barata. Por que razão se evita, muitas vezes, realizar exames complementares?
A prevenção também tem um custo. Quando se aposta num seguro, vê-se o custo e não logo o benefício directo. Como todas as áreas, tem um benefício pelo custo de investimento. Há quem diga que Portugal pode ter tido vantagem na covid por ter mantido um plano vacinal muito rigoroso, o que teve um custo. Ainda estamos um bocadinho aquém daquilo que deveria de ser a chamada prevenção e deveríamos rentabilizar melhor tudo o que temos ao nosso dispor.

Mas tratar a doença não sai mais caro?
Evoluímos para uma medicina mais personalizada. Os testes, que continuam a ser massificados e iguais para todos os utentes, também deverão caminhar para uma personalização. Com os estudos genéticos entra-se numa abordagem do doente de forma mais personalizada. Conhecer antecipadamente dá-nos sempre uma melhor possibilidade de preparar o futuro. Somos realmente os nossos genes ou podemos enganá-los? Podemos enganá-los. Se assim não fosse não tratávamos nada. Mas, há uma certa predisposição. Aliás, a patologia começa a ser entendida para além daquilo que é a causa. O património celular é muito grande e nem tudo é nosso, a começar pelos microorganismos que habitam connosco. As bactérias que estão comigo fornecem- me alguns componentes, que em determinada altura tanto podem ser benéficos como não. Agora há uma grande abrangência daquilo que é o indivíduo.

O meio ambiente consegue alterar o nosso ADN?
Se não alterasse não teríamos tumores. O meio ambiente (radiações, o que inalamos, poluição...) interfere naquilo que são as nossas características multifactoriais. A catadupa de alterações que possam surgir, uma célula que se divide... A probabilidade de acontecer um erro está presente. Também temos mecanismos que eliminam esses erros. Se sobrecarregarmos áreas locais com determinadas características é provável que haja uma determinada predisposição.

“Não tenho dúvidas nenhumas que a patologia clínica é a especialidade mais evoluída em termos tecnológicos
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