Entrevista

Valter Hugo Mãe: “Os portugueses têm uma cor bem lixada por estes dias”

19 nov 2020 13:00

Escritor, vencedor do Prémio Saramago, passou por Leiria esta semana para apresentar o seu mais recente livro. Numa obra parida durante o confinamento, conta a história do jovem Valter, que tinha o passatempo de coleccionar palavras e, um dia, viria a ser um dos mais reconhecidos escritores actuais da língua portuguesa

Valter Hugo Mãe
Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Há muito que diz que a sua vida não dava um livro. Mas, em Contra Mim, o que temos é uma espécie de livro de memórias, até aos 13 anos. O que lhe passou pela cabeça avançar para este projecto?
Andava, há anos, a coleccionar alguns episódios da minha vida, sem destino e a achar que, mais tarde ou mais cedo, pudesse compilar uma espécie de anedotário da vida, mas, este ano, o confinamento criou-me a impressão de estar diante de um espelho. Cortados e impedidos os encontros, a casa torna-se num potenciador de quem somos. A solidão é como estarmos em dobro... em demasia. Somos tudo o que há de nós próprios. Era impossível passar o susto da pandemia sem pensar quem sou, sem ponderar acerca da força que tenho, do futuro que ainda espero ter. Os textos que já estavam escritos, e fazem parte deste livro, sugeriram-me um ponto de partida para um estudo acerca do que são os meus princípios elementares, do que foram e são os meus sonhos, que expectativa tenho de ter um futuro e que tipo de futuro quero ter. Eu achava, de facto, que a minha vida não daria um livro, porque estava metido nos romances e o que era literário estava insinuado no meio da ficção, mas insinuar não era o suficiente, não esgotou nunca as questões. Este livro acaba por se virar contra mim, impondo-se com uma análise de alguém que passa uns meses a ver-se ao espelho.

Há, no seu relato, um quotidiano pobre e algo violento do final da ditadura, mas há muito humor e ironia neste livro, especialmente, no confronto entre o menino que foi e o homem que é, o que pensava ser a realidade e o que ela realmente foi.
Não podia lidar comigo mesmo, enquanto personagem, sem me propor uma certa diversão, porque é da minha natureza. Tenho a tendência para uma estética mais intensa, apraiam-me questões fracturantes e passagens de algum tremendismo até, mas sou um indivíduo divertido, que, dificilmente, me levo a sério ou levo a sério determinadas questões. Procuro sempre ver as coisas a partir de um ponto de vista permissivo e até esperançoso. Pegando em mim como questão fundamental de um texto, não poderia deixar de me permitir essa natureza. Lido comigo, nessa forma escrita, com a mesma desimportância que me dou no dia-a-dia. Algumas coisas mais terríveis são suportadas porque, em algum instante, aprendemos a rirnos delas. É uma maneira de as tornarmos suportáveis e humanas. O humor humaniza-nos. Humaniza tudo quanto nos acontece de antinatural. O que normaliza as coisas é a possibilidade de voltarmos ao riso e de encararmos muitas das nossas dores como instantes de deriva quase ridícula. Rejeitamos o sofrimento por rirmos dele.

Quem ler o capítulo Tão Pouca Madeira Para Flutuar os Homens, consegue vislumbrar como se encetou a sua ligação à Islândia e ao cenário que aborda no livro Desumanização. Viveu e vive nas Caxinas, conhece aquele povo sofrido, conhece o mar, a morte e a perda.
As Caxinas oferecem-nos uma humanidade frontal. Tudo o que ali acontece, parece acontecer na cara e de um modo tendencialmente extremo. Marca-me muito viver ali. Não é possível viver-se 40 anos num lugar daqueles, onde o perigo e a dor da perda são constantes, sem que isso não nos faça a personalidade. Nos meus livros, e, desde logo, na Desumanização, está presente a evidência de uma catástrofe constantemente anunciada, ao mesmo tempo que há uma resiliência e resistência que encontra fuga por um enfurecimento, que permite que, ao invés de sucumbirmos à dor, nos ergamos pela fúria. As Caxinas vivem estoicamente sem psiquiatria. As pessoas enfrentam o que enfrentam como se houvesse uma capacidade de se reerguerem na tradição e não com auxílio das ciências. Não são as medicinas que mantêm aquele povo são. O que faz com que aquelas viúvas - são os homens que naufragam - se suportem umas às outras com uma sabedoria que é legada pela tradição e habituação à perda. É como se houvesse um costume para a perda e para o sofrimento.

Quando mostrou este livro à sua família, corroboraram ou havia coisas que não eram como as recordava?
Há coisas que se desviam um pouco. A minha mãe tem dúvidas, mas ela tem muitas dúvidas porque teve cinco filhos e confunde as histórias de uns filhos com os outros. As minhas irmãs lembram-se melhor de algumas coisas e outras relembraram a partir da leitura. Viram a minha perspectiva pela primeira vez. Para mim, não é muito importante que o livro corresponda factualmente a toda a verdade. É difícil escrever uma autobiografia. Jamais será uma reposição da vida como ela o foi, pois será sempre uma alusão, uma espécie de edição daquilo que retivemos por algum motivo, com a participação da imaginação. A nossa história é aquilo que vivemos, junto com o que soubemos entender e com o que imaginamos. Eu mostro a construção de um indivíduo que resulta num escritor. Não sou já eu, porque esse menino está à distância de várias décadas... há 36 anos que estou fora deste livro. Esse menino produz um indivíduo que se entrega às palavras. Houve qualquer coisa na minha vida que, a cada instante, pareceu preterir outras possibilidades para me deixar apenas entregue a uma certa solidão onde havia sobretudo palavras.

"O tempo de estabilizada benesse fez com que não fossem necessários heróis. Isto significa que, provavelmente, as figuras inspiradoras estivessem ocupadas em gerir resorts, alojamentos locais e teatros municipais”
Valter Hugo Mãe

A sua mãe, com quem percebemos haver muita cumplicidade, foi fundamental para que fosse para a escola aprender mais palavras para coleccionar.
Ela entendeu o que, na escola, me poderia interessar. Sabia que eu era fascinado por elencar palavras, mesmo antes de as entender. Por vezes, só a sua força fonética ou a impressão de elas poderem ser importantes, de poderem dizer algo importante, mesmo que não soubesse o que isso seria, já me atraia, que eu vivia pedindo para me repetirem as palavras e me voltarem a dizer determinadas coisas. A minha mãe sabia que seria, para mim, um património tremendo, poder eu próprio criar uma estrutura de memória interna. Foi o que ela me disse para me convencer a ir à escola. Eu tinha clara consciência de que aprenderia a fazer o meu arquivo, mas teria de me sujeitar a umas pauladas e coças dos professores, de vez em quando.

Não foi a última vez que uma mulher o "subornou" com as palavras. A sua segunda namorada fê-lo com poemas.
A Maria da Luz. Foi tão atraente para mim que ela tivesse um livro de poemas, ainda que ela - e eu! - com aquela idade, não os soubéssemos ler... foi tão avassalador que eu quis imediatamente que ela fosse minha namorada.

E ela só tinha de emprestar o livro de poemas de António Ramos Rosa, que tinha em casa.
Só tinha de o trazer. Na minha cabeça, loucamente, achava que dela haveriam de brotar outros livros e outros versos que a poesia lhe diria respeito como por natureza. Como se ela fosse uma autoridade investida de um superpoder poético, mas... não. O livro deve ter ido parar a casa dela por algum acaso. Naquele tempo já me era interessante escrever coisas que eu não entendesse. Mas quando me deparei com aquele livro do António Ramos Rosa percebi que ele era tão hermético e tão para lá daquilo que a minha cabeça poderia imaginar que aquela espessura e inelegibilidade me fizeram crer que a literatura e a poesia estariam num lugar inexplicável e mais ou menos inatingível. Como se escrever fosse um ofício de utopia. Abracei aquilo e percebi que queria ir em direcção ao impossível. Senti que a minha vida nunca seria normal, que nunca teria como ser um rapaz normal e talvez teria de ficar sozinho para sempre. É, de certa maneira, a tese do livro e... cá estou eu.

Quando fala acerca das conversas com o seu melhor amigo de infância, o Chiquinho, embora aparentemente concordasse com o que ele dizia acerca do que era o futuro, havia uma reserva mental. O jovem Valter já via para lá daquilo que o Chiquinho via.
As coisas, para mim, eram impositivas. Sentia que não tinha como fugir àquilo. Desde novinho, que sentia que havia algo que me compelia para um resultado. O Chiquinho tinha uma cabeça engenheira, prática. Para ele, as coisas eram absolutamente normalizadas e padronizadas. Apenas tinha de seguir uma determinada receita para alcançar um qualquer resultado. Eu não tinha isso. Não tinha acesso a uma receita. Não as havia para escrever um poema como os do António Ramos Rosa. Por mais que lesse os trabalhos dos poetas que me fascinavam, não tinha como entender aquilo e nunca poderia dominar verdadeiramente um poema. Estaria sempre dominado pelo poema.

Isso era o avesso da cabeça do Chiquinho.
Ele precisava de dominar todas as coisas para as arranjar à sua feição. Quando nos despedimos, no fim do livro, com a sensação de que jamais nos voltaríamos a ver, porque ele ia viver para Proença-a-Nova, havia, do lado dele, uma frustração porque eu nunca seria adulto. Não sabia sê-lo. A minha mania da poesia, das palavras, dos desenhos e de toda aquela contemplação estética e artística, para ele, era uma forma de eu continuar a ser criança. Como se fosse um modo de ser imprestável... e ele entendia que tínhamos, de uma vez por todas, de crescer atentos ao que tinha que ver com trabalhar, responsabilizar- nos, arranjar uma namorada, casar, ter filhos, e fazer com que o ciclo da vida se completasse; passarmos a ser os nossos pais, para, depois, passarmos a ser os nossos avós e morrermos com o ofício completo. Despedi-me dele a pensar que se tomasse qualquer decisão que fosse no sentido contrário da poesia, estaria a tomar uma decisão contra mim... Como se ser adulto fosse contra mim. Este livro existe como se eu estivesse à beira de entender se já sou adulto ou se ainda estou aquém da idade adulta. É uma reflexão para saber, até que ponto podemos ter 49 anos e seguirmos como as crianças... ou se, aos 49 anos, temos de seguir como os adultos. Ou se não havia, na minha infância, questões muito mais prementes levantadas e respostas que estavam dadas que eu esqueci, quando envelheci, e se, ser-se adulto, em vez de uma ciência, não será uma espécie de neblina, deitada em cima de uma ciência que perdemos. Em algumas coisas, as crianças resolvem as coisas com muito mais facilidade.

"Amar um homem é amar o rapazinho que ele é"?
Sim... Esta dimensão infantil que todos nós fomos e, de algum modo, contemos, pode ser vista como um lugar de profunda sen

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