Sociedade

Sónia Tavares: As pessoas ainda não perceberam a diferença entre ter liberdade de expressão e ser um otário

9 mai 2019 00:00

Entrevista | A vocalista dos The Gift entende que o trabalho dos artistas está cada vez mais condicionado pelos likes nas páginas de Facebook e lamenta que a música esteja “um bocadinho desvalorizada”

Raquel de Sousa Silva

“Neste Verão os The Gift são mais íntimos que nunca”, lê-se na página de Facebook de apresentação do álbum. Como é que essa intimidade está reflectida no disco?
É um disco mais intimista do que o anterior, Altar. É um disco que vem na continuação de Primavera, que também era muito introspectivo, muito escuro. Este tem ambientes sonoros mais calmos, não menos complexos, tem momentos bastante densos até. É um Verão que não é amarelo Ibiza, é um Verão introspectivo, solitário e íntimo.

Há no disco uma certa melancolia…
Exactamente. Não são necessariamente músicas para dançar, antes pelo contrário. São músicas com grandes arranjos de orquestra, músicas que não correspondem ao padrão de uma rádio, de três minutos e meio. Algumas delas são bem mais longas, bem mais intensas. Por isso tudo é que digo que este Verão é para baixo. Não digo que seja triste, mas é carregado de bastante melancolia. O que não é necessariamente mau.

Neste álbum voltaram a trabalhar com o produtor Brian Eno…
Estivemos dois anos a fazer o disco Altar, de raíz, com o Brian Eno. Desta vez foi diferente. Ele foi uma espécie de consultor, de mentor. Quisemos alguém que percebesse se os caminhos por que estávamos a ir eram os correctos. Alguém que nos orientasse. E foi isso que ele fez. Abrilhantou o nosso disco e deu-nos algumas certezas.

O disco, tal como outros dos vossos trabalhos, tem canções em inglês e em português. Acontece naturalmente ou é uma estratégia?
Acontece naturalmente. Todos os discos têm uma canção em português por nada de especial, só porque sim. Altar não tem, só porque não. Verão volta a ter porque o Nuno [Gonçalves] gosta de escrever em português e eu gosto de escrever em inglês. Como ambos escrevemos…

Cantar em português não é um entrave para os The Gift serem reconhecidos lá fora…
Pelo contrário. Cantando em inglês somos só mais uns.

O português acaba por marcar a diferença…
Depende do tipo de música. Mas sim, nomeadamente na world music. Na pop é mais complicado cantar em qualquer língua.

Para apresentar o novo trabalho a banda está na estrada com a digressão Primavera/Verão, que passa um pouco por todo o País. Como é que concilia tudo? Carreira, um filho pequeno, um marido que também é músico e anda igualmente muito tempo em digressão…
É complicado, dá muito trabalho. São noites mal dormidas e tudo o que as pessoas não imaginam, porque acham que esta é uma vida espectacular e super glamorosa. Mas não é. Tem um lado de sacrifício muito grande, sobretudo da vida familiar. Têm de se ir gerindo as coisas da melhor forma possível. Tenho de recorrer ao meu pai para fazer de babysitter. Há sempre semanas mais complicadas e outras mais folgadas.

Quando a digressão é no estrangeiro é pior...
Sim. Mas felizmente eu e o Fernando [Ribeiro, vocalista dos Moonspell] temos tido a sorte de as datas não coincidirem. Temos tido sempre a oportunidade de um de nós ficar com o nosso filho. Quando não é possível, ajuda o meu pai.

Os The Gift estão a comemorar 25 anos como banda. Quando começaram, imaginou que um dia seria reconhecida como uma das grandes vozes da pop nacional?
Não! Com 17 ou 18 anos não imaginávamos nada nem tínhamos pretensiosismos para ambicionar o que quer que fosse. Até porque as coisas eram bastante diferentes. Ainda que os sonhos continuem a ser os mesmos: ter os discos distribuídos universalmente, seja no Spotify seja em disco físico, tanto faz, e continuar com as nossas digressões, pequeninas, pelo mundo fora.

Em termos de distribuição da música, nestes 25 anos muita coisa mudou. É mais fácil, mais difícil, apenas diferente?
É tudo junto. É melhor, é pior, é diferente, efectivamente. Não há muito a fazer para além de nos adaptarmos e de tirarmos o melhor partido do que a internet nos pode oferecer. E há que continuar a tratar bem os fãs, oferecendo-lhes discos bem feitos, com boas fotografias, oferecendo-lhes bons espectáculos. Mas hoje já não se vendem discos. Só as grandes bandas vendem. As pequeninas ou já desistiram ou estão prestes a desistir.

Por que é as pessoas não compram discos?
E por que haviam de comprar? É normal que a minha geração ainda compre, mas a geração a seguir já não foi habituada a isso. É normal, nem posso levar a mal. E para quê? Lá em casa fica um amontoado de plástico, de papel e de outras coisas que fazem mal ao mundo. Por que é que os miúdos, com outra consciencialização, hão-de comprar discos se podem tê-los com um toque no telemóvel? Mas tentamos sempre que os discos sejam bonitos e bem feitos, apelativos. Não é só para consumir e deitar fora, é uma obra, a nossa obra. É como se fossemos um pintor e o disco o nosso quadro. Não é uma fotografia do quadro.

Se não vendem discos, como é que as bandas ganham dinheiro?
Com os concertos, se encherem. Se não encherem não ganham. Hoje a música está um bocadinho desvalorizada. O artista, o músico, já não é aquela coisa romântica que imaginámos, que faz uma coisa que nós não conseguimos fazer. Hoje, além de ser muito mais fácil fazer música, toda a gente acha que sabe fazer música, toda a gente quer fazer música e, obviamente, a novidade ocupa 90% do espaço de interesse no que diz respeito à cultura. É normal. Portanto, os velhos têm de trabalhar o triplo.

Sente que o vosso trabalho é reconhecido na mesma medida em Portugal e no estrangeiro?
É diferente. O nosso público é obviamente o português. Tomaríamos nós alguma vez atingir [lá fora] o número de fãs que temos em Portugal. Cá, os The Gift são uma banda veterana, mas quando vamos à Holanda ou à América somos uma novidade. Não há preconceito. Não sabem se somos uma banda grande ou pequena, mainstream ou alternativa. Nesse sentido, é super desafiante para nós, porque temos de cativar só pela música.

As redes sociais são uma boa ferramenta de divulgação e de promoção, mas também dão azo a situações menos agradáveis. Como é que lida com isso?
Acho que é uma merda para quem é criativo, artista. E não me levem a mal, não sou melhor do que os outros, digo artista no sentido em que a pessoa cria qualquer coisa. A criatividade está bastante castrada pelos likes. Se antes se trabalhava para as pessoas, para um público fiel que gosta de música, hoje trabalha-se para os likes. Mas na realidade, um milhão de likes não é significativo do que uma banda é ou pode representar. Isto acaba por nos chatear um pouco. Andarmos tabelados por um thumb up é contra-natura, não dá vontade de fazer.

Também em termos de uso pessoal das redes sociais acaba por se ficar exposto a algum abuso…
É o mal da humanidade. As pessoas ainda não conseguiram perceber a diferença entre ter liberdade de expressão e ser um otário. Eu uso as redes sociais para me divertir, e divirto-me imenso, e para promover os The Gift. Mas não levo muito a sério, porque se o fizer desisto. Também tem coisas boas, excelentes pessoas a dizer que nos adoram. Mas custa-me saber que alguém na América vai pesquisar sobre os The Gift e dizer 'ah, só tem 40 mil seguidores, não interessa'. Isto não é nada. Não interessa porquê? Quem é que dita isso?

“Saindo dos The Gift não me parece que continue a ser cantora”, disse há uns anos numa entrevista à RTP. Ainda pensa assim?
Com certeza. Imagine-se agora, depois de velha, começar tudo de novo! Não quero! Então com esta nova geração de música e a forma como está a ser feita! Não!

A Sónia é um dos rostos da campanha contra a violência doméstica criada pela Rede de Estruturas de Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica do Distrito de Leiria. Este é um assunto a que a sociedade ainda não dá a devida importância?
Agora dá mais, porque é fixe dar importância. Acho fantástico, só espero é que não passe de moda. Porque as pessoas fazem das situações importantes coisas efémeras. É um problema horrível. Mas as pessoas têm de perceber que se querem ajudar não é a pôr fotografias nas redes sociais. Há todo um trabalho de muita gente que faz muita coisa por essas mulheres e por esses homens, que precisam de ajuda e é isso que se deve divulgar. Portugal continua a ser um País muito conservador na maneira de pensar.

A escola deve ensinar os miúdos desde cedo que há certas atitudes que configuram violência...
Como, se depois há programas como o 'Quem quer casar com o meu filho', que promove o absurdo machismo de tudo e mais alguma coisa? Culpa da mãezinha que educou o filho para ser um pateta e agora quer impingi-lo a uma mulher que pelo menos saiba cozinhar… É terrível. Por cada três passos que se possam dar para a frente, dão-se cinco para trás com estes disparates. Isto retrata bem o que ainda é Portugal.

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