Entrevista

Maria José Casa-Nova: “Temos jovens no ensino superior que não dizem que são ciganos, para não serem estigmatizados”

31 jan 2020 14:06

A coordenadora do Observatório das Comunidades Ciganas, que está de saída do cargo, avisa que continua a existir discriminação e racismo institucional

Segundo Maria José Casa-Nova, muitas famílias ciganas (pelo menos 32%) ainda vivem em alojamentos precários
Ricardo Graça

Os ciganos estão em Portugal há 500 anos, por que motivo continuamos a falar de integração?
Por todo o estigma e preconceito associados à população cigana, que ainda hoje, no imaginário das pessoas, não é perspectivada como sendo portuguesa. Costumo dizer que são os estranhos próximos que se querem ver socialmente distantes. São os estranhos, entre aspas, mais próximos que temos, porque são portugueses, mas a população maioritária continua a querer uma distância social de segurança em relação a eles.

Há um estudo em que metade dos inquiridos dizem não querer um cigano como vizinho.
Todos os inquéritos por questionário feitos a nível internacional, numa investigação comparada, põem em primeiro lugar a população cigana como aquela com quem os inquiridos não querem nenhum tipo de contacto, vizinhança, casamentos muito menos. São a população mais discriminada a nível mundial.

E quem tem mais responsabilidade?
Na minha perspectiva, a sociedade maioritária. Porque a população minoritária tende a fechar-se como estratégia de sobrevivência. E é o que tem acontecido com a população cigana. Uma estratégia de sobrevivência face a uma população maioritária que a estigmatiza é fechar-se sobre si mesma e arranjar formas de sobrevivência, do ponto de vista biológico, que passam pela endogamia, que é o casamento dentro da própria população. Que ainda é frequente? Sim, é a regularidade. Apesar de tudo, a excepção ainda é o chamado casamento exogâmico.

Os estudos também mostram que não há um único modo de vida cigano.
Não há uma comunidade cigana, há comunidades ciganas. A sedentarização leva a uma série de transformações. Leva a um maior contacto intercultural nas relações de sociabilidade e nas relações comerciais, porque as pessoas normalmente fazem feiras e as feiras são lugares fixos onde estão todas as semanas. E, depois, a questão da escola. Para a integração da população cigana, a frequência da escola é fundamental. Estas são transformações que se dão com o processo de sedentarização. E há outra, muito importante, que tem a ver com a lei cigana no que diz respeito à preservação da honra e à questão dos conflitos dentro da própria população. Houve uma diminuição de conflitos pelo facto de haver sedentarização, porque as pessoas começaram a viver com determinado tipo de comodidades a que não estavam habituadas e que são muito mais agradáveis do que ser itinerante. E o conflito intraétnico leva a que as famílias tenham de viver separadas, obriga a uma mudança de lugar.

Tem um custo.
Exactamente. Temos várias mudanças que se deram com o processo de sedentarização. Quando se dizia que a população cigana não trabalhava porque não queria, que não ia à escola porque não queria, ninguém que seja obrigado a ser itinerante pode frequentar a escola com regularidade ou inserirse no mercado de trabalho.

Há relações de tensão entre classes dentro da comunidade?
Há uma hierarquização, e essa hierarquização tem variáveis, que vão desde o facto de termos os tios, dentro da população cigana, que são os chamados homens de respeito, não por serem muito mais velhos, mas por terem uma exemplaridade de vida. A partir da década de 80 passámos a ter também como homens de respeito pessoas relativamente jovens, que eram os pastores da Igreja Evangélica de Filadélfia, na casa dos 30 anos.

Há um impacto da Igreja Evangélica?
Muito grande. Agora há uma dispersão por várias igrejas, mas ainda a tradicional e que tem mais pessoas ligadas é a Igreja Evangélica de Filadélfia.

Capaz de provocar alteração de comportamentos?
A vários níveis. Por exemplo, as pessoas que estavam na Igreja Evangélica de Filadélfia diziam “nós não queremos conflitos com ninguém porque somos pessoas de Deus”. Depois, a questão da toxicodependência de adolescentes, que procuravam prevenir. Jovens que frequentavam com relativo absentismo a escola passaram a frequentar com mais regularidade porque queriam ler a Bíblia. Agora está a ter um papel um bocado conservador, em querer determinadas práticas que muitos jovens não querem seguir.

Por exemplo?
Nomeadamente, o casar comparativamente cedo. A emancipação da mulher é das coisas que a Igreja mais teme e que pretende manter como está.

Até ao século XIX, os ciganos não tinham direito à cidadania.
Até à carta constitucional de 1822.

Hoje ainda temos um problema de ciganofobia no aparelho do Estado?
Não gosto de lhe chamar ciganofobia. Existe discriminação e existe racismo institucional e i

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