Sociedade

José Miguel Medeiros: “O Estado permitiu que o Interior fosse transformado em barriga de aluguer da celulose”

14 fev 2019 00:00

Entrevista | Escolhido pelo Governo para liderar a empresa pública de gestão florestal, diz que “não há árvores malditas”, mas assegura que a Florestgal “não irá usar o eucalipo".

Maria Anabela Silva

Foi escolhido para liderar a Florestgal, a empresa pública de gestão florestal criada pelo Governo. Como encara este desafio?
É um grande desafio. Talvez esteja aí a razão de ser da minha aceitação. Sou desta região e aqui [Figueiró dos Vinhos] desenvolvi toda a actividade profissional, como professor e consultor, até entrar na política de forma mais intensa. Fui ainda presidente da Comissão Instaladora da Associação Pinhais do Zêzere. Tenho uma ligação profunda a este território. Por outro lado, tenho uma opinião sobre a forma como se pode e deve intervir no território muito coincidente com o que está subjacente a esta empresa. O facto de a Florestgal não ter ficado em Lisboa [tem sede em Figueiró dos Vinhos] também pesou na minha decisão.


O ministro Capoulas Santos referiu que a empresa terá como objectivo “demonstrar como é possível gerir de forma rentável a floresta, particularmente as zonas de minifúndio”. Como é isso isso será feito?
O que se pretende é que, através da sua acção, a empresa promova a concentração fundiária. Ou seja, que crie condições para que as explorações florestais possam ter dimensão razoável para serem geridas de forma moderna. Não podemos voltar a gerir a floresta como se fazia antigamente, porque não há mão-de-obra para tal nem é viável fazê-lo sem mecanização. Para introduzir novas técnicas de gestão, temos de promover a concentração fundiária.

De que forma?
Sendo este um governo reformista, não podia ir por uma lógica de nacionalização de terras. Hoje isso não faz sentido. Temos de ultrapassar a dificuldade inerente à fragmentação das propriedades. Nesta região, a dimensão média das explorações é de meio hectare (cinco mil metros quadrados). E não estamos a falar apenas de uma propriedade, mas do conjunto de parcelas de um só proprietário ou de uma família. A ideia é, por via do arrendamento, de contratos de gestão e de outras possibilidades jurídicas, que a empresa consiga agregar propriedades, criando unidades de gestão suficientemente grandes para que a exploração possa ser viável. Por outro lado, pretende-se ter também um efeito demonstrativo.

A empresa já tem quantas propriedades ao seu cuidado?
A Florestgal assumiu a gestão de propriedades do Grupo Parpública. São cerca de 80, em 26 concelhos, que totalizam perto de 16 mil hectares. O que estamos a fazer agora é dar a essas propriedades uma gestão que não tinham. Estamos a avançar com planos de gestão florestal e com processos de certificação, de limpeza e de repovoamentos das propriedades e a desenhar um quadro de pessoal adequado à empresa. Estamos a trabalhar em várias frentes. Já começámos os contactos, nomeadamente com as Câmaras dos territórios mais atingidos pelos incêndios de Junho de 2017. Em Pampilhosa da Serra, por exemplo, estamos a articular também com a associação de baldios para ver como podemos assumir a gestão de cerca de seis mil hectares que arderam no concelho. Com os poucos técnicos que temos, estamos já no terreno a fazer levantamentos e recolha de informação, para avançarmos com projectos de reflorestação.

Em que moldes assentará essa reflorestação?
Não se poderá ter apenas em vista a rendibilidade da exploração. Temos de olhar para a floresta como um elemento de conservação da natureza. Vamos reflorestar zonas onde a rentabilidade é baixíssima, assumindo parcelas que mais ninguém quer. Na Pampilhosa há a possibilidade de gerimos propriedades acima dos 800 ou até 1200 metros de altitude, onde as árvores de produção de madeira não têm rentabilidade. Aí, a estratégia será apostar na reflorestação para conservação da paisagem, para evitar a erosão dos solos e para proteger as linhas de água. Alguém tem de fazer esse trabalho e ser compensado por isso. Estamos a contar com apoios da União Europeia e não apenas com a madeira que dali se tirará daqui a 20, 30 ou 40 anos. Como há indemnizações compensatórias às empresas de transportes por causa dos preços sociais dos passes, também terá de haver um dia um mecanismo semelhante para uma empresa como esta que vai fazer floresta onde mais ninguém o quer fazer.

Que espécies irão privilegiar?
Não há árvores malditas nem temos preconceitos em relação a nenhuma espécie. Todas têm o seu espaço mas, como empresa pública iremos privilegiar o repovoamento com espécies mais adaptadas às características dos nossos solos e do nosso clima.  

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