Desporto

Jordan Santos: "Canso-me mais na passadeira do que a correr na areia"

18 out 2018 00:00

Entrevista| Aos 27 anos, o atleta da Nazaré está, pela segunda vez, nomeado para melhor jogador do Mundo de futebol de praia. As dificuldades na infância deram-lhe a força para triunfar.

O Jordan está, pelo segundo ano consecutivo, nomeado pela FIFA para melhor jogador de futebol de praia do Mundo. E tudo aconteceu tão rapidamente...

Quando comecei a jogar futebol de praia sonhava estar entre os mais fortes, mas não me imaginava nestas andanças tão rapidamente. Tinha a noção de que tinha alguma qualidade e quando comecei a jogar e a treinar com os melhores achei que conseguiria fazer tudo o que eles faziam. Agora, encaro essa nomeação com naturalidade e não escondo que já considero que estou ao nível deles. Tenho confiança plena de que, mais tarde ou mais cedo, posso ganhar esse prémio. Ainda sou novo e por isso ninguém me tira essa ambição.

Habitualmente são jogadores mais velhos a ganhar.

Sim. No futebol de praia, o melhor momento chega depois dos trinta. Começamos a jogar de forma organizada mais tarde, praticamente quando se chega a sénior, com 18 ou 19 anos, e atingimos o auge por volta dos 32 ou 33 anos. Sinto, por isso, que tenho ainda muito para evoluir.

Ainda assim acredita ser possível ganhar este ano?

No ano passado tive mais próximo, porque ganhei o campeonato português, a Liga dos Campeões e muitos prémios individuais com a selecção. Este ano, em termos colectivos, foi mais fraca. Não ganhei a Liga dos Campeões e Portugal não foi campeão da Europa. Conquistei alguns prémios individuais com a selecção, é verdade, mas isso não chega. O que realmente conta são os colectivos. É muito difícil ganhar este ano, mas pronto, já é um reconhecimento estar na lista. Surgirão outras oportunidades, com certeza.

Apontar o Jordan como sucessor do Madjer é algo que lhe agrada?

Por um lado é bom, porque o Madjer é um dos maiores ícones do futebol de praia a nível mundial, mas eu não quero ser um novo Madjer. Quero que falem do Jordan, de quem eu sou, do que represento, do que sou capaz de fazer. Ele ganhou tudo o que tinha para ganhar, vai ser sempre lembrado como um dos melhores de sempre, a lenda do futebol de praia, mas quero fazer o meu caminho. Se puder conquistar o que ele conquistou vou tentar, mas tem tudo de acontecer com naturalidade.

Corre na areia como se estivesse numa pista de tartan: os pés não se enterram. Qual é o segredo?

O director de futebol de praia da Federação até costuma dizer que sou o cavalo do Bastinhas. Não sei. Provavelmente será ter pisado na areia todos os dias, desde sempre. Temos feitos estágios na selecção em que o mister Narciso convoca novos jogadores para observar, são miúdos que têm qualidade, mas nota-se que não pisam a areia regularmente. Realmente nota-se muita diferença, não se sentem à vontade, porque o esforço é completamente diferente. Costumo dar este exemplo: canso-me mais a correr na passadeira do ginásio do que na areia. É mesmo verdade.

E todo este percurso de sonho começou pelo clube da terra, o incontornável Sótão, que sempre foi uma referência na modalidade.

O Sótão surgiu através dos torneios de 24 horas que faziam. Seleccionavam os melhores jogadores e formavam uma equipa. Joguei esse torneio com 17 anos, fui eleito o melhor jogador e convidaram-me para integrar a equipa. Na altura, para mim, o Sótão era tudo. Quando fui treinar nem sequer acreditava que poderia jogar no Campeonato Nacional, porque éramos uns 17 e só eram convocados dez. Tinham tantos jogadores experientes, da casa, que nunca pensem que mexessem neles para meterem um miúdo. Mas nos treinos estava tudo a correr-me bem, era incrível, e eles devem ter pensado que eu tinha mesmo de ir. Fui ao Campeonato Nacional, fomos campeões, e estava lá o seleccionador nacional. Perguntou quem eu era, que tinha gostado de me ver e queria levar-me ao estágio. Fui fazer esse estágio ainda com 17 anos e nunca mais saí.

Foi tudo muito rápido.

Praticamente num ano consegui chegar ao patamar com que sonhava. Naquele primeiro estágio tremia por todo o lado. Estava habituado a ver os craques na televisão e de repente estava ali com eles. Mas são outros tempos. Lembro-me de ver o Alan a fazer passes de ombro e a levar a bola colada na cabeça até à área. Isso já não existe. Evoluiu de tal maneira que já se analisa os jogos, as selecções e os futebolistas ao máximo, e é muito difícil alguém distinguir-se. Tanto que num ano a campeã da Europa é Portugal, mas depois pode ser a Itália, a Espanha ou a Rússia. Antigamente, os melhores eram Portugal e o Brasil, que ganhavam sempre.

Ser jogador de futebol profissional, mesmo de praia, é cumprir um sonho?

Quando estamos a ver jogos de futebol na televisão, o meu sogro diz sempre que podia ser eu a estar ali, mas estou satisfeito com o que estou a conseguir.

Mas ainda teve uma experiência no Boavista. O que falhou?

Fui para o Boavista no meu primeiro ano de iniciado e as pessoas gostavam de mim. Mas faltou-me aquilo que agora tenho: espírito sacrifício. Foi muito difícil para mim sair da Nazaré, ir sozinho para o Porto, com 13 ou 14 anos. Estava tão preso à minha avó e à minha mãe, que eram as únicas pessoas que tinha, que foi um grande choque. Gostava de estar lá, mas não conseguia lidar com a situação. Acabei por fugir. Um dia, num torneio no Cartaxo, senti-me injustiçado por não jogar a final. A minha mãe estava a assistir e, com as saudades que tinha, quis vir com ela. Meti-me no carro e nunca mais. Deixei lá tudo.

Ter crescido na Nazaré foi uma vantagem para ter sucesso no futebol de praia?

Claro. Tive sorte, porque sempre fui criado pela minha avó, que vive perto do campo. Levava muito na cabeça dos meus colegas, que queriam ir para a praia mais a norte, mas eu não queria, queria ficar no campo, sempre tive o vício de jogar futebol na praia. Raramente ia praia que não fosse para dar uns pontapés numa bola. A minha infância foi toda passada no campo e isso realmente foi uma vantagem.

Era um menino que passava muito tempo na rua. Resistiu a muitas tentações?

Os meus pais separaram-se tinha eu seis anos e fui criado pela minha avó. Foi muito complicado. Nunca fui um bom aluno e sempre tive um gosto enorme pelo futebol. Com os meus amigos, que não tenho vergonha de dizer que são meus amigos, sempre tive muitas oportunidades para me portar mal. Tive sorte, porque a minha avó sempre me alertou para essas coisas. Dizia para eu ver bem o que fazia, para ter cuidado comigo, para ver as companhias. Respondia-lhe sempre que eram meus amigos, mas que sabia o que fazia. E quando digo que teria sido muito fácil é verdade, porque a minha infância foi difícil, passava muito tempo na rua. Se não fosse o gosto pelo futebol e acreditar que podia ser alguém, as coisas podiam ter sido complicadas.

Que ferramentas é que o facto de não ter nascido num berço de ouro lhe deu para atingir o sucesso?

Saber lutar para ter algo na vida. Não sou rico, os meus pais não têm poder. Não era bom na escola e só sabia jogar à bola, pelo que tinha de lutar por isso. Se calhar, se tivesse alguém na família que me arranjasse emprego, tudo teria sido diferente. Assim, teve de ser por mim. E quando as oportunidades surgiram, como no Sótão e na selecção, dei tudo para agarrar a oportunidade. E foi mesmo assim. Há miúdos que têm qualidade, mas como não precisam, não têm aquela vontade de superaç&atild

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