Sociedade

Joaquim Matos: “Estarmos na União Europeia é uma segurança que não se vê mas existe”

11 out 2018 00:00

Entrevista | O empresário mostra-se satisfeito pelo facto de os filhos terem preenchido o seu lugar e fala da ambição de fazer chegar os produtos do grupo que lidera aos quatro cantos do mundo

A Molde Matos, empresa que fundou com o seu irmão Arnaldo, acaba de completar 50 anos. O que é que vos motivou? Esperava chegar onde chegaram?

A Molde Matos nasceu naturalmente. Havia uma semente interior. Tinha sido serralheiro na Aníbal Abrantes - e antes disso tinha sido serralheiro na Ivima - e depois fui para a Edilásio Carreira. Seis meses depois apareceu um americano a querer comprar moldes em Portugal e eu tenho a sorte de ser o único que tinha trabalhado na Aníbal Abrantes, que já estava a exportar moldes, pelo que me foi entregue a mim o projecto. Mas a determinada altura chega-se ao pico e cai-se de repente. Por uma questão de ciúmes de família, queriam pôr-me o pé à frente. O senhor Edilásio era meu tio e meu padrinho de casamento. Começou a questionar certas coisas, por intrigas que havia. Disse-lhe que se achasse que não estava a dirigir bem me mandasse embora. Respondeu: 'o patrão sou eu'. Cinco minutos depois eu estava na rua, despedi- -me de imediato. A família agarrou- -me, conseguiu que eu voltasse à fábrica, mas andei ali 15 dias a trabalhar e nem falava para ninguém. Acabei por vir embora. Mas já antes disto o meu pai me tinha negado empréstimo de 10 contos para ser sócio da Somema. Não fui sócio desta empresa porque o meu pai não mos emprestou, ou não os tinha. Quando saí da Edilásio Carreira, o meu irmão resolveu sair comigo, foi solidário, e despedimo- nos os dois no mesmo dia. Apesar de algumas dificuldades burocráticas, acabámos por conseguir avançar e criar a Molde Matos.

Ao longo do seu percurso enquanto empresário, certamente que houve muitas dificuldades.Desistir nunca foi hipótese?

Na altura em que criámos a empresa eu não tinha dinheiro nenhum. Tinha um primo que estava na Alemanha e um dia estava eu a sair de casa e vejo -o. Disse-lhe: ‘precisava de 120 contos’. Ele disse que estava para apanhar a camioneta para ir para a Alemanha, mas voltou para trás e no dia seguinte eu tinha 120 contos. Foi assim que se iniciou o negócio, juntando outros 80 que nos emprestaram. E ainda vendemos os automóveis, eu e o meu irmão. Começámos o edifício com 280 contos emprestados.

Ao longo de mais de 70 anos como empresário, quais os períodos mais marcantes que viveu?

Um deles terá sido a seguir ao 25 de Abril, quando o meu pessoal quis tomar a fábrica. Passado todo este tempo, desculpa-se tudo. Quando entrámos na democracia, não percebíamos nada de democracia. Houve exageros, e houve pessoas que quiseram ficar com a fábrica. Tive muitas dificuldades nesse ano. Depois, houve vários outros abanões. Um deles foi quando se deu o 25 de Novembro. Estava em Nova Iorque para fazer um negócio, mas o cliente achou que éramos todos comunistas e mandou-me embora.

Durante o seu percurso viveu muitos momentos de crise económica, social e política. Como vê situação actual do país?

Não se nota, mas agora temos a segurança da Europa. O País só começou a ganhar alguma confiança dos parceiros europeus e americanos com a entrada na Europa. A confiança não se ganha de um dia para o outro, vai-se criando. Creio que hoje, mesmo com as dificuldades que venham, teremos sempre condições de progredir. De certa forma, as dificuldades são sempre as mesmas. Ou morres ou não morres. Estarmos na União Europeia é uma segurança que não se vê mas existe. Creio que temos pés para andar.

Tem 86 anos, mas continua a trabalhar todos os dias…

Agora sou um outsider. Não tenho horas certas, venho quando quero. O meu lugar está preenchido pelos meus três filhos. Dedicou a maior parte do seu tempo às empresas que criou.

É difícil desligar- se deste projecto de vida?

É. Mas por outro lado, quando se atingem os 86 anos e se vê a duração normal da vida humana, sei que já estou para cima da média. Ainda há dias fuialmoçar com um amigo e percebemos que muitos dos nossos amigos já morreram. A verdade é que a minha mãe morreu com 95 anos e se eu durar até essa idade e conseguir andar, mesmo de muletas, virei trabalhar.

Nas empresas familiares, muitas vezes família e negócios confundem -se, colocando até em risco a continuidade dos negócios. No vosso caso isso está resolvido…

Sinto-me muito bem porque tenho os três filhos e dois netos a trabalhar cá. Mas não está perfeito. Eles têm que aprender a querer, de continuar a querer. E isso às vezes demora muitos anos. Tive a sorte de os ter vivido. Às vezes um pai quer criar tudo para dar uma fortuna aos filhos. E às vezes falha porque não vê que já chegou ao limite. E deixa passar o tempo entre o enriquecer e o dar as coisas. Quando as vai dar, eles já não as querem. A entrada dos herdeiros tem de implicar ensiná-los a querer. Felizmente, ou porque os ensinei ou porque aconteceu, têm querido.

Além da SGPS (Matos Grest), hoje o grupo Matos é constituído por quatro empresas: Molde Matos, Plimat, Plimex e Matosplás...

Durante muitos anos, eu e o meu irmão fomos sócios em 50% cada. Em 2002, resolvemos que era altura de nos separarmos e eu comprei a parte dele. Na altura havia já quatro empresas. Nessa altura a Molde Matos atravessava uma crise muito grande e estava mesmo a desgastar as outras. Mas conseguimos ultrapassar a situação. Em 2006, decidi que era altura de começar a fazer a passagem para os meus filhos. Em 2009 nasceu então a MatosGest, sociedade gestora de participações sociais. Cada um dos meus filhos ficou com 20% e eu com 40%. Tenho uma filosofia: nascemos nus e a terra tem o direito a reaver. Se for enterrado nu está tudo certo.

O grupo exporta muita da sua produção. Também vende para os Estados Unidos?

Não. Vai custar uma grande fortuna exportar para os Estados Unidos. Há normas nacionais e internacionais para produtos como os plásticos técnicos que produzimos. Não posso fazer uma válvula como quero, há normas a respeitar. E as normas europeias não são iguais às americanas. Por isso a Plimat não tem condições de vender em países com a norma americana, embora tenha qualidade. É uma ambição minha exportar para os Estados Unidos, mas ainda há um caminho grande a percorrer na Europa. Tenho de chegar a uma altura em que os meus produtos têm aceitação em praticamente todo o mundo. Está quase.

Quais os principais desafios que a produção de moldes e de plásticos técnicos enfrentam?

Acredito que dentro de uma dúzia de anos os moldes serão completamente diferentes. Mas se calhar isso não se notará na fotografia, apenas no projecto. Aliás, os moldes já são hoje muito diferentes do que eram há 50 anos. Os materiais vão sendo cada vez melhores, bem como as ferramentas e os equipamentos. Quando eu trabalhava na Aníbal Abrantes, uma Deckel, que era a melhor máquina do mundo para fazer moldes, trabalhava pelo menos dez anos. Agora, ao fim de cinco meses um equipamento está ultrapassado. Se uma empresa não compra a máquina mais moderna, corre o risco de ver a concorrência fazê-lo. Tudo é muito mais rápido. Temos de estar actualizados. Um professor, com 10 ou 20 anos de actividade, normalmente não se actualiza. Como vai 'fazer' um engenheiro de moldes? Se for um operário que vai estudar para fazer o curso de engenharia, sabe mais do que o professor. É indispensável que os professores continuem a aprender, mas também que os profissionais continuem a aprender. Recordo-me de três visitas que fiz a empresas nos Estados Unidos e na Suécia, há mais de dez anos, onde já se viam miúdos que ainda andavam na escola. Nós aqui nas empresas já chegámos a empregar engenheiros que nunca tinham sequer feito um estágio numa empresa. E quando fizeram foi daqueles de um mês, para ficarem formados. Eu só emprego um engenheiro se ele tem capacidade de aprender.

Como avalia a evolução da Marinha Grande?

É um concelho industrial com capacidade de evoluir e havemos de achar um caminho. Agora o caminho está errado. Na política e na democracia às vezes há estes percalços. Quem está na oposição, embora tenha tido menos votos, reclama para si o direito de fazer tudo o que está no seu programa. Quer isto dizer que quem ganha as eleições não pode fazer nada, porque tem de ter maioria absoluta e quem está na oposição não lhe dá um voto de confiança. É o que está a acontecer na Marinha. O PS tem três deputados, os outros partidos têm dois cada, se se juntarem têm maioria. A Marinha Grande

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