Sociedade

João Marques da Cruz: “Portugal pode ser muito mais do que uma república dos eucaliptos”

13 set 2018 00:00

Entrevista | O arquitecto paisagista responsável pelo Jardim da Almoinha, em Leiria, defende que as cidades da região precisam de uma “estrutura verde” e ser mais sustentáveis

Jacinto Silva Duro

Sendo arquitecto paisagista, qual é a sua imagem ideal da cidade de Leiria, no futuro?
Vai ser decisivo parar a urbanização dispersa e baseada no automóvel. É um desastre para a cidade continuar a construir caixotes com um estacionamento onde se vai de carro para ir dormir, trabalhar, à escola, às compras e ao cinema, ao longo das estradas. Pensemos num exemplo do quotidiano em Leiria: de manhã, vamos levar os filhos à escola e seguimos para o trabalho, depois, ao fim da tarde, regressamos para os ir buscar, vamos a um shopping ou a um supermercado e voltamos a casa, tudo isto de carro… E, ao final do dia, ainda podemos ir ao ginásio - de carro, claro -, para caminhar numa passadeira. As deslocações em automóvel, em Leiria, somadas representam muitos quilómetros, muitas horas fechados dentro do carro, um desperdício de dinheiro e de gasolina e cada vez mais entupimento da cidade com trânsito e poluição. A partir dos meados do século XX desenvolveram- se milhares de cidades no mundo baseadas no automóvel e qual foi o resultado? À medida que foram crescendo tornaram-se infernais. Este modelo de urbanismo está visto e completamente ultrapassado, não vale a pena repeti-lo. Se queremos que, tanto a cidade como as aldeias em redor, tenham um futuro com qualidade, estas têm de ser “contidas e densas”, de modo a gerar vida urbana que se possa fazer a pé. Além disso, a urbanização dispersa precisa de uma rede de infraestruturas - estradas, luz, água, saneamento, lixo e transportes -, com tal dimensão que não é possível manter. Torna-se numa despesa incomportável para o município. Claro que uma cidade “contida e densa” precisa uma estrutura verde, para as segurar conforto e um clima equilibrado dentro do espaço urbano. Portanto, é necessário construir um sistema continuo de ruas e praças arborizadas, jardins públicos e privados, parques e corredores verdes, ribeiros e rio. O Polis é um excelente exemplo e deve ser ramificado por toda a cidade. Esta “estrutura verde urbana” serve ainda para reestabelecer a ligação entre a cidade e o campo, que já se perdeu em Leiria.

E a paisagem da região?
Leiria tem um território com características naturais excelentes e quem dera a muitas cidades ter um território assim; as serras de Aire e Candeeiros, as várzeas, as dunas, a costa atlântica e o Lis a unir tudo isto. No entanto, como em geral se verifica em Portugal, boa parte do território está ao abandono ou com actividades que o estão a poluir e degradar. As cidades que irão ter um bom futuro socioeconómico e ecológico são as que souberem manter em bom estado o seu território e aproveitar o seu potencial - seja para a alimentação, para as matérias-primas, para a ecologia, para a expressão da identidade local ou para o turismo. Estamos a usar o território sem saber aproveitar as suas verdadeiras potencialidades e sem respeitar as suas limitações e isto é um falso progresso.

Como gostaria de ver o território de Leiria?
Gostaria de ver as dunas da praia do Pedrógão recuperadas com a sua vegetação que, além de muito bonita, faz depositar a areia que vem no vento e, com as suas raízes, evita que as tempestades de Inverno a levem. Gostaria que o Pinhal de Leiria voltasse a ter o alto nível de manutenção que já teve e que é lhe imprescindível, para não arder como ardeu ou ser invadido por pragas de acácias, como está a acontecer. Se não, mais vale substituí-lo por uma mata de espécies autóctones, que não precisa de manutenção. Gostaria também de ver os campos do Lis e do Lena livres da agro-indústria feita com plantas transgénicas, pesticidas e adubos químicos e que, em vez disso, fossem cultivados por agricultura que saiba aproveitar e manter a fertilidade dos solos e obter produtos agrícolas de alto valor acrescentado. Gostaria de ver condições para que a pecuária intensiva, que provoca tanta poluição, tenha oportunidade de converter-se em pecuária extensiva de pasto, o que, além de resolver o problema da poluição, criaria mais emprego qualificado e aumentaria as margens de lucro da produção. Gostaria que as linhas de água deixassem de servir de esgoto e que voltassem a ser consolidadas com as árvores e os arbustos próprios das suas margens. Gostaria que a serra, que se encontra desertificada, voltasse a ter seus pastos e carvalhais típicos, que protegem os solo da erosão, ajudam a reter e a infiltrar a água da chuva e asseguram um bom microclima para a região.

Ainda faz sentido mantermos o Lis emparedado dentro de Leiria? Há cidades com rios com menos caudal, que têm praias fluviais que ajudaram a melhorar a relação da comunidade com as linhas de água e fizeram com que os cidadãos se tornassem seus protectores.
É uma obra que herdámos do tempo quando se entendia que as linhas de água eram um “estorvo” na cidade. O sítio mais oportuno para criar um grande plano de água, com funções ecológicas e de lazer, como uma praia fluvial, é na foz da Ribeira do Sirol com o Lis, entre o Hospital de Santo André e a ETAR das Olhalvas. A orografia e a posição na cidade são perfeitas para esse projecto.

O que diria às pessoas que ficaram preocupadas com as árvores que foram cortadas durante as obras do Jardim da Almoinha Grande?
É um sinal de que os habitantes de Leiria compreendem bem a grande importância que as árvores têm dentro da cidade. No caso do Jardim da Almoinha, cortaram-se algumas árvores, mas foi para se plantarem outras 500 árvores novas e construir um jardim onde existia uma área com 40 mil metros quadrados de pavimento em brita, o que era uma “frigideira urbana”. Um jardim é uma encenação de um “paraíso na Terra”. O jardim é uma idealização da paisagem de Leiria, como se esta fosse, também, um “paraíso” onde, naturalmente, tudo é fácil e confortável. Evoca-se as serras, as várzeas, as matas e as ribeiras, num tempo imaginado, quando os pastores descansavam à sombra das árvores e se entretinham a fazer concursos de música e poesia enquanto os rebanhos pastavam tranquilamente. É a paisagem de Leiria idealizada na poesia de Rodrigues Lobo ou de Acácio de Paiva. Espero que quem entre no jardim possa experimentar a sensação de deixar a cidade e a realidade quotidiana para trás. O espaço foi projectado para o contacto com natureza, para a contemplação, para o sossego e também para a actividade física, teatro, música, jogos, feiras, exposições. Sem se perder a unidade do conjunto criaram-se vários tipos de espaço vocacionados para cada actividade. Espero que a programação seja criteriosa e adequada a um jardim. No âmbito do urbanismo da cidade, vai desempenhar funções microclimáticas e ecológicas e será um importante elemento do corredor verde Polis, para estabelecer a ligação do Vale do Lis com a encosta da Nova Leiria e Marrazes.

Estamos a chegar ao fim do Verão e este ano com menos incêndios. É um defensor da valorização da floresta autóctone como medida de criação de riqueza e de prevenção do fogo, em vez da monocultura de espécies facilmente inflamáveis… mas os eucaliptos não se incendeiam sozinhos...
O nosso clima é mediterrânico com influência atlântica, ou seja, caracteriza- se, sobretudo, por Verões quentes e secos e que, ainda por cima, são muito imprevisíveis, como notava o geógrafo Orlando Ribeiro. Ora, se cobrirmos o nosso território com a monocultura de uma árvore exótica e altamente inflamável, como o eucalipto, só nos resta rezar a São Pedro. Em anos secos e quentes, há pouco que se possa fazer com o território assim. Só se cada português fosse bombeiro...

Deixámo-nos enganar com a ideia do "petróleo verde"?
Já ninguém acredita nisso. A única semelhança é que o eucaliptal, ao arder, parece petróleo. Não é o “petróleo verde” é um “parasita verde” que está a destruir Portugal. Os proprietários, os madeireiros, os transportadores, os trabalhadores e as restantes as pessoas que trabalham na fileira do eucalipto queixam- se de que não ganham nada e com razão. O rendimento distribuído nessa fileira é uma miséria. E os prejuízos indirectos que causa à economia de Portugal? Esses nem se conseguem calcular na sua totalidade. Qual é prejuízo atribuído à degradação da fertilidade dos solos? E do ciclo da água? Da biodiversidade? Do clima local? Da desertificação acelerada? Do fim da produção rural? Do desaparecimento de postos de trabalho qualificado? Do despovoamento do território? Da poluição do Rio Tejo? Da poluição do mar e das praias? Do risco de incêndio que está por todo o lado? Dos helicópteros? Da Protecção Civil? Dos bombeiros? Dos negócios do fogo? Das tragédias dos incêndios? Das pessoas que morrem nessas tragédias? Não há cá “petróleo verde” algum, estamos é a cobrir o País com um “parasita verde”. Proporcionalmente à área do seu território, somos o País do Mundo que tem a maior percentagem de eucalipto.

E qual é a alternativa?
É voltarmos a trabalhar o território. É construir paisagens produtivas e compatíveis com o equilíbrio social e ecológico. Os portugueses têm de se consciencializar de que Portugal pode ser muito mais do que uma república dos eucaliptos. Acreditou-se, erradamente, que o território era só para “pôr” as cidades, as indústrias e as estradas. Considerou-se que o mundo rural e os agricultores e silvicultores, que sabiam cultivar o território sem o degradar, estavam ultrapassados. Os Governos começaram a subsidiar a agro-química e as monoculturas florestais, na mira do lucro rápido e, também nessa lógica da economia do curto prazo, fecharam-se escolas, centros de saúde, tribunais e polícias, tendo os privados seguido o exemplo. No interior, restaram os empregos desqualificados, o perigo do incêndio e a falta de dignidade e de sentido.

Nestas condições, quem a viver no interior e a cultivar a terra?
Era inevitável que se desencadeasse o despovoamento do território com as consequências de longo prazo que, agora, estamos pagar bem caro. Foi assim que eucaliptal surgiu como a solução para um país que não quer ou não tem condições para trabalhar o território. Investe-se na plantação e fica-se oito anos a rezar que não haja incêndios, para se poder cortar. O rendimento é baixíssimo - em média, 150 euros por hectare por ano - e não chega para as limpezas a que a lei agora obriga. Estão a aparecer proprietários que querem dar os seus terrenos só para se livrarem dos encargos. É ridículo. A primeira coisa a fazer e que é fundamental, é voltarmos a conhecer e compreender o território que temos. Depois, é preciso investigar quais as culturas e as técnicas de cultivo mais adequadas para cada parcela e situação e estudar as necessidades dos mercados locais, nacionais e de exportação. Por fim, fazer um planeamento, com uma gestão integrada e de longo prazo, que contabilize efectivamente a ecologia, a produção, o consumo e as externalidades positivas e negativas. Há bastantes casos de sucesso de produção sustentável, como os produtos da agricultura em modo de produção biológico, que têm uma procura crescente a nível nacional e para exportação, a pecuária extensiva e as madeiras da nossas árvores autóctones, cujos produtos têm sido cada vez mais valorizados. Nas áreas onde não se quiser fazer nada, pelo menos, que  

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