Sociedade

Francisco Vale: “Só um editor que não lê se pode dar ao luxo de publicar maus livros”

7 fev 2018 00:00

Entrevista | O responsável pela Relógio d’Água, considerado um dos mais destacados editores nacionais, fala da sua relação com os livros, do sector livreiro e dos desafios que se colocam hoje aos jornalistas.

Jacinto Silva Duro

O que o leva a ter, no seu catálogo, mais de 1500 títulos de obras que não compensam financeiramente?
A nossa actividade começou em 1982 e temos títulos de qualidade, que não são muito procurados. Outros vendem bem e equilibram as contas. Sentir-me-ia muito mal se estivesse numa editora que não pudesse arriscar em livros que sei que, provavelmente, não irei vender. Volta e meia, temos um livro que "vende muito" e, à escala portuguesa, é um bestseller com mais de 30 mil exemplares. No ano passado, editámos 130 livros, o que dá mais de dez por mês, além das reedições. Apesar de tudo, temos uma grande flexibilidade que os grandes grupos editoriais, como a Leya, a Porto Editora e a Presença, não têm. Na Relógio d'Água, somos 15 pessoas nas áreas editorial e de distribuição e isso permite-nos investir mais na qualidade das obras. Nunca editei um livro só porque acredito que vai vender muito. O ideal seria juntar qualidade e vendas muito amplas, como acontece com os livros do Miguel Sousa Tavares ou com os da Elena Ferrante.

Alguma vez teve a surpresa de um manuscrito, sobre o qual tinha dúvidas se deveria editar, ser bem aceite pelo público?
Depende muito do acolhimento que os media e os críticos fazem à obra e autor, mas é mais frequente o caso oposto: pensar que venderei muito e isso não acontecer. No entanto, posso dar o exemplo de A Era do Vazio, de Gilles Lipovetsky, que foi um êxito surpreendente. Ou O Sexo dos Anjos, de Júlio Machado Vaz, que teve nove edições, em ano e meio. Foi surpreendente, porque tudo começou com um programa na rádio. Transcrevemos os programas, ele escreveu mais uns textos intercalares e lançámos o livro, com uma expectativa relativamente baixa e foi uma surpresa. Houve outros casos onde isso se verificou, como a canadiana Alice Monroe, de que editámos seis livros e, cada um, vendeu uns 600 exemplares. Fui-a publicando porque gostava muito da sua escrita, mesmo sabendo que ela dava um ligeiro prejuízo. Contudo, assim que venceu o Nobel da Literatura, passou a vender dez mil exemplares por título.

Arrepende-se de ter deixado escapar algum autor?
Não sou daqueles editores que pensam que são infalíveis. Cometi vários erros editoriais, embora nunca o tenha feito contra o critério de qualidade da Relógio d'Água. Basta dizer que o desconhecido Gonçalo M. Tavares me encontrou um dia na rua e disseme que queria editar na minha editora um livro. Pedi-lhe que me enviasse o original. O livro não me entusiasmou e não o editei. Isso foi, evidentemente, uma lacuna. Mesmo não sendo um dos seus melhores livros, era já visível a qualidade como posteriormente se viu. Desde aí, já editou na Relógio d'Água oito livros e irá editar muitos mais, porém, o primeiro, recusei-o. O importante é acertar mais vezes do que as que se falha e não cometer erros contra os critérios básicos da editora, de qualidade literária e ensaística das obras.

Lê todos os manuscritos que lhe enviam?
O papel do editor é saber escolher bem os livros que edita, sob critérios objectivos. Leio todos os livros que edito. Publico cerca de dez títulos por mês e tenho de ler total ou parcialmente cerca de 15 títulos. Claro que, muitas vezes, eles já me chegam filtrados, por críticas internacionais de pessoas cujo critério merece confiança. Nos autores portugueses, à partida, não há uma apreciação estabelecida sobre a sua obra e cada livro é um livro novo. Mas, às vezes, é mais fácil em livros que vêm de escritores que publicam regularmente e com quem tenho uma certa amizade. É o caso dos ensaios do António Barreto, da ficção de Hélia Correia ou Jaime Rocha. Como sou obrigado a ler, escolho bem os títulos e procuro juntar o útil ao agradável. Só um editor que não lê se pode dar ao luxo de publicar maus livros.

Por estes dias, quais são os autores e obras que lhe andam na cabeça?
O último foi o Lincoln no Bardo, o primeiro romance de George Saunders, que é extremamente inovador em termos formais. Internacionalmente, os escritores estão a ir contra as formas tradicionais de escrita. Ele conseguiu inovar sem perder a narratividade, continuando a prender a atenção do leitor, embora seja experimental e inovador. Depois temos Gabriel Tallent, com o livro O meu amor absoluto, que aborda um tema muito difícil. Fala da relação de um pai e de uma filha, um pouco perdidos e abandonados. É uma relação muito intensa entre eles... há ali um aspecto sexual entre ambos. É um livro arriscado para um editor, mas é uma grande obra. Destaco também Rachel Kuschner e A Prisão de Marte, que iremos editar em breve. Dos portugueses, temos Caos e Ritmo, obra grande, filosófica e complexa, do filósofo José Gil. Não será tão facilmente divulgável como Portugal Hoje - O Medo de Existir, que vendeu quase 80 mil exemplares, sendo o ensaio que, em Portugal, mais vendeu. Em breve, teremos também o novo romance da Hélia Correia, Um Bailarino na Batalha, que será marcante em termos editoriais.

"No jornalismo escrito, as condições são muito precárias e a credibilidade dos jornalistas diminuiu, devido a essa precariedade e aos conteúdos especulativos e de tablóide"

Números recentes do sector livreiro mostram que há chancelas que, em Portugal, publicam 20 ou 30 livros por mês. Publica-se demasiado?
Isso é subjectivo. Globalmente, não há leitores para tanta edição. Por dia, em Portugal, e considerando todo o género de títulos, publicam-se 30 livros. É excessivo tendo em conta a capacidade da rede livreira, de exposição, divulgação e número de leitores disponíveis. Mesmo que só se editem dez livros de literatura e ensaios, por dia, já é excessivo. Por outro lado, como as tiragens médias baixaram, também se percebe que se esteja a publicar mais. Além disso, a edição tem particularidades que não se verificam noutros sectores. Por exemplo, quase 80% das nossas exportações são para a União Europeia, mas uma editora não pode exportar para a UE. Podemos fazê-lo para os países de língua oficial portuguesa, mas todos eles atravessam problemas graves. Em Angola há umas quatro livrarias. Na Guiné, existe uma pequena livraria, dentro de um hotel. O Brasil, que tem uma rede livreira grande, atravessa dificuldades e é um país continental, o que impossibilita colocar livros em certos locais. Além disso, há a dificuldade da língua.

Mas as editoras nacionais esperavam que o Acordo Ortográfico abrisse as portas desse mercado.
Essa foi uma das razões invocadas para se avançar com ele. Mas, nem todos os países aderiram, em especial, os maiores países africanos. O que se verifica é que o Brasil aderiu, mas Angola e Moçambique continuam a usar a versão europeia anterior da ortografia. De qualquer modo, mesmo em relação ao Brasil, não se trata de uma simples questão de ortografia, é o léxico e a sintaxe, que são muito diferentes. Um livro de Portugal, para os brasileiros, que inovam muito em termos linguísticos, soa sempre a arcaico. É muito difícil exportar para lá. E quando um livro em português do Brasil aparece em Portugal, escrito por um autor mais idiossincrático, parece mais estranho do que ler em francês ou inglês. Arranha-nos a mente. O Acordo Ortográfico não facilitou o intercâmbio cultural e não teve qualquer papel positivo nas exportações.

Qual é a sua opinião sobre a vanity publishing, a chamada publicação de autor?
Aumentou o volume da edição. Há editoras que só fazem isso. A Chiado Editores é o caso  

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