Entrevista

Entrevista | Rui Pedrosa: “o IPL tem de ser um pilar na candidatura Leiria Capital Europeia da Cultura"

12 abr 2018 00:00

O presidente do Instituto Politécnico de Leiria eleito em Março quer transformar o Convento Santo Estevão numa escola direccionada para a música e dança.

A que mudanças significativas poderemos assistir durante os próximos quatro anos no IPL?
Espero que algumas novas abordagens se concretizem, desde logo a inovação pedagógica. Pretendo que todas as nossas escolas tenham espaços indutores de criatividade e promotores das competências transversais, que possam também ajudar a introduzir inovação curricular nos nossos cursos. Também espero que nestes quatro anos tenhamos um Centro Académico em Saúde e uma área para a incubação social. Espero que se concretizem e se iniciem programas doutorais e de interface.

O que será o Centro Académico em Saúde e a incubação social?
A Escola Superior de Saúde é das nossas escolas que têm ainda uma maior margem de crescimento, quer em mestrados e em doutoramentos quer na capacidade de investigação. Temos que sentir mais inovação e mais impacto na qualidade de vida das pessoas deste território na área da saúde. O Centro Académico em Saúde pode ser decisivo nesta dimensão e dar capacidade aos mestrados para projectos de investigação. Poderá ser ao mesmo tempo uma plataforma de interface com o Centro Hospitalar de Leiria, com o ACES [Agrupamento de Centros de Saúde] e com a comunidade em geral. Em relação à inovação social, muitos dos desafios societais estão associados a respostas que têm de ser colectivas, de empreendedorismo colectivo, pelo que é uma oportunidade para criar um espaço de cowork que permita o início de empresas diferenciadoras ligadas à inovação social e possa ser uma forma de afirmar a nossa Escola de Educação e Ciências Sociais. Pode também levar a que este território como um todo olhe para a economia social, não só do ponto de vista tradicional da solidariedade, mas como oportunidade para gerar emprego, ajudando os outros com inovação na área social.

O centro académico vai nascer junto ao hospital?
É o que está previsto. Apesar de necessitar de alguma requalificação, aquela infra-estrutura, pela sua localização, pode ajudar-nos na relação com o Centro Hospitalar de Leiria. Queremos trabalhar em conjunto, através da investigação e da inovação em saúde, porque é a forma de ter impacto directo no utentes.

Os politécnicos poderão vir a conferir o grau doutor. Ser universidade continuará a ser uma bandeira?
Vamos continuar a trabalhar muito para isso, porque é absolutamente fundamental o reconhecimento e a percepção social do que é e pode ser a universidade politécnica a nível nacional e internacional. O impacto que tem na sociedade, não só a nível nacional, mas sobretudo a nível internacional, é evidente. Mas que fique claro: queremos a designação de universidade politécnica, mas vamos manter a matriz e continuar a formar para as profissões.

Se for autorizado, o IPL pretende dar autonomamente os doutoramentos ou em parceria com outras instituições?
Os doutoramentos vão ser muito importantes para algumas áreas e sectores de actividade. Vão gerar antecipação tecnológica e soluções para problemas que existem em algumas instituições da região, mas vão ser uma pequena parte do universo IPL. Não colocando de parte fazê-lo autonomamente, acredito que com outras instituições os programas doutorais ficam muito mais fortes, quer sejam instituições de ensino superior nacionais ou internacionais. Será até melhor para os estudantes se cada instituição der de si o seu melhor e o IPL pode também ser distintivo por aí.

Dados oficiais da Direcção-Geral de Estatística da Educação e Ciência apontam para uma taxa de abandono de uma licenciatura de 29%. Quais as taxas de abandono no IPL e as razões?
As nossas taxas de abandono são felizmente bastante inferiores a essas e estão ligeiramente acima dos 10%. Ainda assim temos de melhorar. Sempre que um estudante abandona o ensino superior é o país que perde, é um capital de inovação, de investigação e uma mais-valia para as empresas que vamos perder. Acredito que a maioria dos estudantes que abandona é porque decide que não era aquela área que queria. Pode haver razões económicas, mas somos muito atentos à acção social e ao apoio, portanto, as razões do ponto de vista económico não são as mais relevantes neste processo. Desde a primeira hora, os estudantes têm que se sentir motivados, daí a aposta que vamos fazer na inovação pedagógica, para termos métodos de ensino e aprendizagem mais preparados, com a utilização de tecnologia e com novas metodologias de ensino, já que vão motivar mais os estudantes e, por essa via, vamos diminuir o insucesso e o abandono.

Estas práticas pedagógicas inovadoras vão privilegiar que tipo de modelos de ensino?
Há dois níveis que temos de fazer acontecer. Um é introduzir flexibilidade pedagógica na maioria dos nossos cursos. Queremos alterar alguns dos espaços lectivos. Abandonar aquela visão que existe da disposição clássica da sala de aula e passar a termos salas, por exemplo, com uma mesa interactiva, onde os estudantes estão a desenvolver projectos multidisciplinares, que possam ter professores e alunos de áreas diferentes na mesma sala. Isto é claramente introduzir inovação pedagógica. Mas também é dar competências e formação aos nossos professores nestas novas metodologias e nas metodologias de ensino baseadas no desenvolvimento de projectos, no ensino de casos práticos, em projectos de investigação, no trabalho centrado nos estudantes e na apresentação entre eles. Serão salas indutoras de criatividade. Mas também é fazer com que os nossos professores tenham competências para trabalhar de forma multidisciplinar no desenvolvimento de um projecto. Essas mesmas salas não serão só para a formação formal, mas também para que os estudantes possam aceder para desenvolverem os seus projectos fora dos horários. A ideia é ter estas estratégias piloto em todas as escolas.

O alojamento do IPL dá pouca resposta aos estudantes. Está prevista a criação de uma residencial?
No universo politécnico temos pouco mais do que 700 camas. Em Leiria, é onde temos maior pressão e é onde temos mais estudantes internacionais. Espero que com a parceria que temos estado a trabalhar com a diocese para alojamento no seminário, consigamos levar este projecto a bom porto. Seria bom termos mais oferta a pensar também nos estudantes internacionais. Estamos a aguardar um parecer das Finanças para poder concretizar esta colaboração. Em articulação com os municípios, e não exclusivamente com aqueles onde temos escolas, vamos trabalhar também para que dêem suporte ao alojamento e à atracção de talento para esta região como um todo. Entendemos que são locais com elevada qualidade de vida e onde temos cada vez melhores transportes públicos.

O IPL já começa a fazer parte das primeiras escolhas dos alunos, como é que se podem fixar esses jovens talentos?
Será a qualidade de vida que o território oferece como um todo que os vai fixar . Todos somos poucos para estarmos consertados para atrair e gerar essa fixação de talento. A nossa instituição tem de ser cada vez mais uma referência, ser primeira opção e ter excelência na sua formação, mas o território tem que gerar claramente empregabilidade qualificada e as nossas entidades e empresas devem valorizar mais os nossos diplomados. Temos que ter uma região com oferta cultural distintiva, com boas escolas e pré-escolar, para que as famílias sintam conforto e confiança na educação que vão oferecer aos filhos. Este território já oferece um conjunto de coisas, mas temos que potenciar mais e, sobretudo, divulgar mais toda esta oferta para a qualidade de vida que existe neste território.

Que impacto têm as escolas do IPL nas cidades onde estão inseridas?
Temos um impacto económico. Se fizermos os rácios das densidades populacionais entre a comunidade politécnico e a comunidade como um todo, nos diferentes locais onde estamos, em muitos deles, estamos a falar de uma representação de 10% das zonas mais urbanas. Só isso tem um impacto grande. Independentemente dos sectores, se formos desde o norte ao sul do distrito haverá poucas empresas e entidades que não tenham diplomados do IPL. Isso também é um contributo enorme. Depois, com a dimensão de investigação e inovação cada vez colaboramos mais com entidades e empresas e isso gera também impacto na competitividade, não só nacional mas internacional, das empresas e da região. O impacto é também na capacidade de internacionalizar a região. Já na cultura temos de gerar mais impacto. Há áreas em que temos de fazer sentir mais a nossa presença, como na saúde, no turismo ou nas artes e design. O IPL é uma grande instituição da região e tem um impacto directo e indirecto permanente em todo o território.

Vêem-se poucos alunos e professores com uma ligação mais forte à sociedade civil e em eventos culturais. Pretende modificar isso de alguma forma?
Esse é um desafio enorme. Tenho como objectivo trabalhar mais a dimensão da cultura e defendo que o Politécnico terá que ser um parceiro fundamental na candidatura Leiria Capital Europeia da Cultura 2027, que tem que estar pronta em 2022. O IPL tem que ser um pilar desta candidatura e para isso temos de ter capacidade de mobilização de toda a nossa comunidade: estudantes, professores, investigadores, técnicos e administrativos. Temos que trabalhar na produção de cultura. Temos uma escola de arte e design, onde fazemos muita coisa, temos é que fazer com que muitas destas exposições, peças de teatro e estratégias de design criativo cheguem a todo o território. Por exemplo, promover exposições itinerantes e dá-las a conhecer à comunidade em geral. Nesta ideia da produção cultural existe um grande desafio, que é o de fazer evoluir o Convento de Santo Estevão para algo ligado à cultura, para uma experiência artística ligada à música e à dança. Está no centro de Leiria e tem valor patrimonial e sentimental para o Politécnico de Leiria, pois foi ali que nasceu. Quero dar-lhe uma utilização nobre e, eventualmente, até evoluir para uma escola de música e dança. Transformar este edifício para algo ligado à cultura será sempre uma construção com a comunidade local, com os actores relevantes da região, mas gostava que isto pudesse ser um pilar muito importante na produção cultural, no alavancar do que possa vir a ser Leiria Capital Europeia da Cultura 2027. Também quero que as nossas bibliotecas sejam locais de promoção de actividade cultural. Mas existe outra dimensão, que é a aculturação aos consumidores de cultura.

 

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