Entrevista

Entrevista | Richard Zimler: "É impossível existir na Terra e não falar ou pensar em Deus"

21 dez 2017 00:00

Um dos mais conhecidos escritores em Portugal. Norte-americano naturalizado português, o antigo professor de Jornalismo, fala de livros, de Deus, de política, de paz e do respeito e amor que, há quase 40 anos, partilha com o marido, Alexandre Quintanilha.

Jacinto Silva Duro

Há cerca de 15 anos, numa entrevista ao JORNAL DE LEIRIA, explicou que, normalmente, escreve em Inglês e, depois, há quem traduza o que escreve para Português. Ainda é assim?
Escrevo em Inglês, quando se trata de romances para adultos, porque a minha relação com a minha língua materna é diferente. Não me sinto capaz de escrever, com profundidade, sobre as questões da vida em Português, mas, já escrevi três livros para crianças em Português.

Nesse caso, conseguiu pensar Português, quando escrevia, ou usa apenas uma língua, a humana?
Vou responder-lhe às avessas. Quando estou a conversar, a escrever ou a ouvir em Português, penso em Português. Mas, quando falo ou escrevo em Inglês, penso na minha língua materna. Mudo conforme o projecto. Tento, no entanto, falar sempre numa linguagem... numa língua humana. Muitos dos meus livros abordam assuntos ligados ao mundo, história ou cultura judaicas, porém, o judaísmo é só uma porta pela qual o leitor pode entrar para explorar, juntamente comigo, os temas universais: solidariedade, crueldade, tolerância, intolerância, paixão, amor, amizade, tempo... tudo! Espero que a linguagem escondida dos meus livros seja sempre universal e humana.

Após os seus estudos superiores em Religião Comparada, Deus tem algum papel na sua vida?
É impossível existir na Terra e não falar ou pensar em Deus... de vez em quando… ou pensar nas crenças dos cristãos, budistas e dos muçulmanos. Elas fazem parte da vida humana. Não estou a dizer que as pessoas têm de ter fé em deus, mas a questão da existência ou não de um "criador supremo" faz parte da vida. No meu dia-a- -dia, não penso muito "Nele" ou "Nela". Não sei bem porquê... Penso em termos de espiritualidade, mas penso pouco em Deus. Penso muito na morte, pois já tenho 6o anos e os meus pais e um irmão já morreram e tenho muitos amigos que também já faleceram. É natural que passe uma parte dos dias a pensar se há uma vida além da morte. Não? Se não, o que significa a vida? Por que estamos aqui?

Não corporiza, então, isso num deus ou numa deusa.
Não consigo acreditar num deus pessoal. Consigo imaginar uma realidade transcendente, muito mais subtil do que esta realidade do quotidiano. Acredito que haja uma realidade diferente, mais subtil e menos visível. Mas, para acreditar nisso, não tenho de acreditar num deus. Penso que, cada pessoa, talvez dê à sua própria vida um significado e um caminho. Faço isso com a minha vida: amar, ser generoso, tentar explorar o que é a vida na minha escrita, entre outras coisas. Para outra pessoa, será outra coisa diferente. Talvez criar filhos maravilhosos ou lixar os outros... Ou fazer como Donald Trump e ficar com todos os brinquedos e lixar os outros. Cada pessoa irá criar o seu significado, mas não quer dizer que existe um deus pessoal.

Leia aqui a segunda parte da entrevista

Muitos dos seus escritos começam então com o abordar de uma questão religiosa.
Alguns sim. O que me interessa na religião, não é, propriamente, a existência ou não de Deus. O que me interessa é a mitologia. Adoro a mitologia. Quando tinha 9 anos, lia muita banda desenhada, do Super Homem e do Batman, até que comecei a ler a mitologia grega. Em vez de super-heróis, temos deuses que conseguem voar, que lançam relâmpagos e transformam pessoas em árvores ou cães. Seguiu- -se a mitologia nórdica e nunca mais parei. A mitologia judaica está contida no Antigo Testamento e na Cabala, no ramo místico do judaísmo. Não sei bem, por que razões, a mitologia ainda me fascina. Talvez seja porque lida com as grandes questões da vida: porque estamos aqui, o que é o significado do sexo, da amizade, será possível realmente influenciar a vida de outra pessoa ou não? Fá-lo de uma forma muito criativa e simbólica e, por isso, é possível ao leitor fazer interpretações diferentes. Quando Moisés separa o Mar Vermelho e lidera o seu povo até à Terra Prometida. Será que foi um evento real? A Torá utiliza uma linguagem simbólica e uma das interpretações possíveis é que esse episódio seja uma viagem espiritual que cada pessoa pode fazer todos os dias, da escravatura para a liberdade.

São temas que também ocorrem fora do contexto religioso.
Verdade. A busca pela liberdade e a dignidade da pessoa... Além disso, muitas pessoas dizem, erradamente na minha opinião, que todas as religiões são iguais. Não são. Religiões diferentes, têm respostas ou interpretações diferentes a essas questões. Veja a ideia budista de que, para evitar sofrimento, a única maneira é não ficar emocionalmente ligado ao mundo e às pessoas e que nós podemos todos imitar o Buda e ascender ao estado de nirvana. É uma maneira diferente da muçulmana, cristã ou judaica de lidar com estes assuntos.

“Ainda há pessoas que não conseguem distinguir um israelita de um judeu. Sou judeu, não tenho nada a ver com Israel. É o mesmo que dizer que por se ser brasileiro também se é português”
 

Quando escreve, onde encontra a vitalidade e profundidade que desenha no interior das suas personagens? De pessoas que conhece?
Provavelmente, de pessoas que gostaria de conhecer, mas não faço versões escritas dos meus amigos ou familiares, porque, o retrato num livro jamais é suficientemente positivo para a pessoa real. Ela vai achar sempre que está mal. Não sei de onde vêm as minhas personagens. É um mistério. São consequência da minha pesquisa porque, antes de escrever qualquer romance, faço uma pesquisa, tal como faço com as questões históricas num romance histórico. A história e as personagens vão surgindo das informações que vou recolhendo sobre, por exemplo, o gueto de Varsóvia, nos anos 40, sobre a guerra santa de há dois mil anos, sobre a  

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