Entrevista

Entrevista | Luís Lopes: “Mais de 50% dos incêndios em Portugal têm origem em queimas e queimadas”

18 abr 2019 00:00

O coordenador regional da região Centro da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais diz que a paisagem não tem de ser só floresta ou agricultura. Pode e deve ser alterada com outras práticas como o turismo, o desporto e até a própria indústria.

Leia aqui a segunda parte da entrevista.

Foi criada a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), que assume a coordenação estratégica do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR). O que vai fazer na prática?
A AGIF aparece por indicação das duas comissões técnicas independentes, que consideraram que era necessária uma entidade que fizesse a coordenação entre a componente política, operacional, de estratégia e de manobra. O grande chapéu da AGIF é o planeamento, a coordenação estratégica e a avaliação do sistema. Estamos a fazer um novo plano nacional, que vem complementar o Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios, e que não se cinge a medidas meramente preventivas. Foca-se na prevenção, mas faz a relação com o combate. Vamos ser facilitadores do conhecimento entre todas as entidades que colaboram directamente com os incêndios rurais, ajudamos no planeamento, na antecipação e na tomada de decisão. É nesses focos que vamos estar, adoptando uma postura de coordenação e colaboração. A AGIF não está aqui para mandar em ninguém. É uma agência que está sob a tutela directa do primeiro-ministro, pelo que é também o seu braço direito na tomada de decisão relativamente aquilo que são as políticas dos incêndios rurais, mas o comando das operações mantém-se dentro da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC). Não podemos estar a alterar consecutivamente medidas, políticas, planeamento e directivas sem que sejam avaliadas. Temos coisas muito boas que funcionam e que devemos manter, mas temos outras que devemos reavaliar para que possam evoluir. O último processo nesta cadeia de valor é precisamente as lições aprendidas. Queremos que haja uma consequência. Não é só dizer que errei. É preciso identificar o que falhou e o que fazer para alterar.

A AGIF vai contribuir para que se fale a uma só voz?
Esse é o nosso principal objectivo: independentemente da farda, toda a gente está perfeitamente identificada com os objectivos do plano, com as metas a atingir e como as concretizar. É por isso que temos que ter a garantia que todas as entidades percebem qual é o seu papel e que não há elos fracos. Até agora tem havido a tendência de criticar este ou aquele. Temos de deixar de pensar que os incêndios só acontecem em determinada parte do território e em determinada altura do ano e não posso estar focado apenas no combate. Tem de haver um investimento muito grande na área da prevenção e ambos têm de estar obrigatoriamente interligados.

Falou na necessidade de um investimento na prevenção. Há verbas?
Em 2018 houve uma verba que foi disponibilizada para acções preventivas e gastaram-se zero euros. Aquilo que se quer é executar as verbas disponíveis. Temos que ter a consciência que não temos recursos nem oportunidade em termos de meteorologia para gerir a totalidade do combustível no país inteiro num ano. Pretendemos fazer um planeamento de forma a fazer uma gestão faseada de acordo com o crescimento mais acelerado ou mais lento numa região. Se fizer isto, tenho um orçamento mais equilibrado e garanto que as verbas vão ser aplicadas no sítio correcto. O grande desafio é conseguir gerir a paisagem, pois a longo prazo altera-se o clima.

Que tipo de paisagem devemos ter para prevenção de incêndios?
Não se trata de ter uma paisagem de monocultivo e defender que só uma espécie é que é segura. Se conseguirmos criar zonas de mosaico, utilizando espécies mais seguras ou mais resistentes à passagem do fogo próximo dos aglomerados, pode-se continuar a plantar as outras - porque são precisas economicamente - em zonas mais distanciadas, com faixas de gestão de combustível e caminhos. É lógico que se conseguir recuperar as práticas agrícolas que fomos perdendo ao longo dos anos, que criavam as faixas de segurança à volta dos aglomerados, tanto melhor. Agora é utópico pensar que de repente as pessoas vão todas voltar para o interior. Para que isto seja possível tem também de haver escala. É preciso juntar os proprietários e dizer-lhes qual o rendimento que podem tirar e a que fundos podem recorrer. É muito fácil dizer que há 40 milhões de euros, mas nem sempre as pessoas sabem como podem usufruir desses apoios nem como obtê-los. A nossa paisagem não tem de ser só floresta ou agricultura. Pode e deve ser melhorada e alterada com outras práticas como o turismo, o desporto e até a própria indústria, desde que se perceba que a alteração da paisagem tem muito a ver com o ordenamento do território. Não se pode permitir que se construa onde as pessoas querem porque tem uma vista bonita. Se o fizerem estão a colocar-se em risco e pode não haver capacidade para as proteger. Isto exige um grande compromisso que vai além de uma legislatura e de um governo. As pessoas têm de perceber que todos têm de fazer a sua parte. Os incêndios não afectam apenas quem está no interior ou nas partes mais rurais. Em 2017, sentimos na pele que também afectam o litoral e as cidades. Não mexendo na paisagem, a única coisa que se faz é acumulação de combustível. Se associar a isto os comportamentos da população, que continuam a usar o fogo de forma desregrada e às vezes irresponsável, tenho a 'tempestade' perfeita, tal como, infelizmente, sucedeu em 2017.

Falou que o plano iria complementar o que já existe. Quais as alterações que se esperam?
O plano define quatro grandes objectivos estratégicos: valorizar a floresta, cuidar do território, gestão eficiente do risco e modificação dos comportamentos. Deixámos de ter três pilares para ter dois eixos: a gestão do incêndio rural e a protecção contra incêndios rurais. Outra diferença é deixar de haver bombeiros da floresta e bombeiros da cidade. Os bombeiros vão continuar a fazer o combate ao incêndio rural, da mesma forma que os sapadores florestais vão ajudar na protecção de habitações. Mas, é preciso garantir que há pessoas focadas no incêndio rural, que o percebem e que estão perfeitamente alinhadas com o trabalho que foi feito no Inverno, quando se fez a gestão de combustível, e devemos pegar nisto como uma oportunidade a ser integrada no combate. Depois há que garantir a capacitação de todos. O objectivo não é serem todos profissionais, mas temos de ter forças preparadas para intervir 365 dias por ano - período em que temos incêndios rurais - com o devido  

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