Entrevista

Entrevista | José Ferreira: “Bombeiros profissionais não sabem mais do que voluntários“

23 ago 2018 00:00

O presidente da Escola Nacional de Bombeiros defende um novo modelo para o voluntariado.

Leia aqui a segunda parte da entrevista

O que leva hoje os jovens a serem bombeiros?
De Janeiro a Julho, a Escola Nacional de Bombeiros (ENB) fez provas de avaliação para novos bombeiros a mais de 1600 jovens. O voluntariado continua a ser algo de atractivo, mas poderemos discutir se os incentivos e regalias sociais são adequados. Na minha opinião, o modelo de bombeiro voluntário em Portugal deve ser repensado, porque a manutenção nos corpos de bombeiros é relativamente curta. Muitas vezes damos formação e depois não há retorno do investimento que é feito nessas pessoas. Por exemplo, rotatividade dos quadros de comando é extremamente grande, o que leva a que muitas vezes eles recebam formação e nem sequer ponham em prática. Toda a Europa tem bombeiros voluntários, mas há outros modelos com que, se calhar, Portugal pode aprender.

Que modelo é que defende?
Inclino-me muito para o modelo francês. A França tem quase 190 mil voluntários, que recebem verbas em função da disponibilidade para o serviço. Bombeiros 100% profissionais são todos militares. O bombeiro voluntário português quando está de serviço ao quartel durante a noite ou ao fim-de-semana não recebe rigorosamente nada. Em França, quem está de serviço recebe uma verba pela disponibilidade e as empresas que têm nos seus quadros bombeiros têm prémios de seguro mais baixos, porque é entendido que esses homens constituem uma brigada de primeira intervenção, o que vai diminuir o risco na empresa. O modelo português é bom, mas existem aspectos que têm de ser melhorados.

Os bombeiros devem ser profissionalizados?
Temos que aumentar o número de profissionais, não tenho dúvidas disso. O sistema que defendo é que das 7 às 22h o serviço tem de ser assegurado por profissionais. A partir dessa hora até às 7 da manhã há que estimular o voluntariado, porque isso faz com que os custos para o País sejam efectivamente menores. Também importa desmistificar: os bombeiros profissionais não sabem mais do que os voluntários. Aliás, de um modo geral, os bombeiros voluntários, em termos de fogos florestais, têm mais formação do que os profissionais. A formação da ENB não difere por serem voluntários ou profissionais, pois o risco não se interroga se é ou não assalariado. A formação tem de ser em função de dar resposta às tipologias de riscos existentes na área de intervenção daquele corpo de bombeiros.

Com tanta formação, como é que ainda se ouve falar na descoordenação no terreno?
Temos de treinar mais. Uma coisa é a formação, outra é a instrução. Formação é saber fazer, instrução é fazer. Em termos de trazer para o sistema mais conhecimento, Portugal não tem nada a aprender com ninguém. Teremos é que consolidar.

Fala-se numa indústria dos incêndios. Acredita numa acção concertada para que alguém ganhe dinheiro?
Não. Por exemplo, os bombeiros portugueses até há quatro anos não tinham equipamentos de protecção individual. O País fez um grande esforço. Basta passear pelos quartéis e vemos muitas viaturas com 20 e 30 anos que ainda estão ao serviço. Meios aéreos? Não quero crer. O problema está mal focado. Se formos às zonas dos incêndios do ano passado no distrito, vemos como está hoje a floresta. Está a crescer em força outra vez e se nada for feito não se admirem que daqui a dez anos volte a arder. Foi o que aconteceu em Monchique e Silves, que passados 15 anos voltaram a arder. Há um dado que temos de ter consciência: o vento é que tem vindo a agravar, isto associado ao estado da floresta.

E o fogo posto por interesses económicos? Uma reportagem da TVI denunciou que o incêndio no Pinhal de Leiria foi uma acção concertada dos madeireiros.
Não sei se foi concertada, mas causoume perplexidade como é que no espaço de duas ou três horas, separado por 15 a 20 quilómetros, apareceu um conjunto de incêndios. Uma coisa é haver um incêndio a norte da Nazaré e estar a haver um na Burinhosa. Podemos admitir uma projecção de dois a três quilómetros. Agora, estamos a falar de mais de uma dezena de quilómetros, ao aparecer um incêndio ao norte de Vieira de Leiria. O incêndio do Pinhal de Leiria foi um bocadinho esquisito e deveria ser bem investigado. Não tenho dados para afirmar que há incêndios por interesses económicos, mas não tenho dúvidas que há muita negligência.

Como levar pessoas a aceitar que o que faziam há 40 anos não pode ser hoje feito?
Não basta dizer que é proibido, porque sabemos que quem vive da terra tem necessidade de queimar. Se calhar, tem é de ter alguma sensibilização e pode-se ensinar como utilizar bem o fogo. A ENB produziu um guia, em colaboração com a Soporcel e com o Instituto da Conservação da Natureza e das Flore

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