Entrevista

Entrevista | João Frade: “temos taxas de cobertura vacinal que causam inveja em todo o mundo”

5 abr 2018 00:00

Investigador e docente na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria, detectou que a vacina do sarampo está a imunizar para apenas uma década.

O sarampo está de volta depois de Portugal ter erradicado a doença. Por que razão a doença voltou?
O sarampo aparecia em pessoas que não eram vacinadas, mas, neste momento, estamos a encontrar sarampo na maioria das pessoas que estão vacinadas com duas doses, o que significa que pode haver algum problema relacionado com uma possível transição epidemiológica. Em Portugal estamos a assistir àquilo a que chamamos o sucesso da própria vacinação. Vacinamos tanto e tão bem que fizemos desaparecer o vírus selvagem da doença. Isso trouxe um problema, porque estas gerações mais novas - chamemos-lhe a geração vacinal - não contacta com o vírus selvagem e tem protecção contra o sarampo só de origem vacinal. Ou seja, a imunidade está em níveis mais baixos. Em contacto com o vírus selvagem da doença na sua forma mais violenta, que são os casos importados, o sistema imunitário dos portugueses pode não ter a protecção eficaz para neutralizar completamente a doença. Mas, vacinar será sempre uma boa política para evitar que o sarampo reapareça em Portugal. Além disso, os casos têm a patologia do sarampo de uma forma muito mais suave, que nunca terá grandes consequências a nível de mortalidade, nem sequelas.

Então, estar vacinado não garante a protecção contra a doença?
Isto é novo. Estamos a assistir à tal fase de transição epidemiológica no que diz respeito ao sarampo. Passámos de uma fase em que contraíamos a doença porque as pessoas não eram vacinadas, para uma geração vacinal, que tem baixos níveis de imunidade e pelos vistos está a contrair a doença. Temos de ver por que razão a doença está a aparecer. A vacinação não se resume só ao acto de injectar a vacina e criar imediatamente a imunidade. Há toda uma cadeia de produção, transporte, manutenção e conservação da vacina que é importante para garantir o sucesso de imunização. Os casos que estão a aparecer em Portugal merecem análise porque é necessário descartar todas estas possibilidades. Com as investigações que tenho feito não tenho dados que me permitam concluir acerca do que está a acontecer. Uma coisa é termos imunidade humoral, que é aquela que é provocada pelas vacinas, e outra é o que se chama de imunidade celular, ou seja, mesmo tendo baixos níveis de protecção do ponto de vista humoral, como o organismo já teve contacto com a doença, tem a chamada memória imunológica, o que pode ser suficiente para ter uma resposta imunológica para combater a doença. Precisamos de perceber se pessoas com baixos níveis de imunidade, perante surtos de doença, aniquilam ou contraem a doença. E precisamos ainda perceber se houve alguma falha em alguma fase da cadeia de vacinação.

Perante este caso e pelo sucesso do Programa Nacional de Vacinação (PNV) em Portugal há risco de regressarem outras doenças?
O risco existe sempre. O PNV deve ser sempre reajustado à características epidemiológicas da doença e da população. Ou seja, as doenças vão variando, quer na virulência quer na própria modificação do agente. Em relação ao sarampo não me parece que estejamos na presença da modificação da doença, porque há muitos anos que atinge as populações humanas sempre da mesma forma. Mas os PNV carecem de uma vigilância epidemiológica permanente, porque temos de nos ajustar àquilo que são as características das mudanças que vão ocorrendo nas populações.

O que sucedeu com o sarampo pode vir a verificar-se com outras doenças para as quais estamos vacinados?
Com o tétano passou-se precisamente o contrário. Havia uma recomendação de vacinar de dez em dez anos e em 2017 passou para de 20 em 20, sobretudo na idade adulta. Em relação a outras vacinas pode vir a acontecer o mesmo. Não podemos pensar que a vacina não é eficaz. O que temos que pensar é que poderemos ter de adaptar o PNV à nova realidade epidemiológica. Começam a aparecer alguns movimento anti-vacinação e isso preocupa-me. Aquilo que sabemos, sobretudo quem investiga vacinação, é que as complicações aparecem nas populações vacinais na exacta medida que aparecem nas populações não vacinais. Não é a vacinação que tem uma associação directa com o aparecimento dessa doença. A pessoa estava vacinada e por acaso adquiriu uma disfunção neurológica ou outra complicação. Foi uma coincidência. Todo o conhecimento científico que há neste momento apoia a política vacinal, de tal forma que a vacinação conseguiu dar origem a uma transição epidemiológica com uma diminuição acentuada das doenças infecto-contagiosas em todo o mundo. As vacinas continuam a ser eficazes e se a doença aparece é porque a vacinação poderá não estar a ser bem aplicada e isso é que merece ser estudado. Pôr em causa a vacinação é uma ati

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