Entrevista

Entrevista| Carlos Valente: "Não se pode cometer o erro de querer poupar quando a segurança está em causa"

13 jul 2018 00:00

Foi director de segurança do Estádio Municipal de Leiria durante década e meia. Nos últimos quatro anos foi, em simultâneo, gestor daquela infra-estrutura. O último dia de Junho marcou a despedida.

Jacinto Silva Duro

Consegue perceber por que razão o estádio é tão mal amado?

No tempo da Leirisport olhou-se para a empresa com o objectivo do lucro. Parecia que havia um perímetro que não se podia passar. Com tantos obstáculos, é natural que se tenha dito mal, porque o estádio foi pago por todos e tinha de ser para todos. Entretanto, quebrou-se essa barreira. Se o GRAP ou o Leiria e Marrazes querem ir lá treinar e há disponibilidade, qual é o problema? Uma escola que quisesse visitar o estádio tinha de pagar? É impensável. Temos é de ter gente para abrir as portas e mostrar o espaço.

Custa-lhe ouvir tanta crítica?

Custa muito. Especialmente porque foi utilizado como saco de boxe para alimentar discussões. Ouvi os maiores disparates, quando se dizia que nada se passava no estádio e nós tínhamos as salas de aula cheias, quando ninguém sabia que havia aulas. Não havia jogos de futebol, mas havia muito atletismo e muitas outras modalidades. Estão sempre coisas a acontecer. Agora, não há grandes eventos, e isso é o que é preciso. Termos uma equipa na 1.ª Liga de futebol, com grandes jogos associados, é importantíssimo para dinamizarmos o espaço. Mas, comparativamente aos outros estádios do Euro'2004, estamos muito bem. No ano passado tivemos 280 mil utilizadores entre concertos, futebol, atletismo e tudo o resto que se passa no estádio. Quem diria?

Sente-as pessoalmente?

Tenho a minha opinião. Se recuarmos no tempo e entrarmos naquela discussão que houve em 2000, se se avançava com a construção, o estádio tinha acabado de ser alvo de uma remodelação. Acredito que foi aí que nasceu o problema. Sentiu-se que se gastou dinheiro para, passados uns meses, se destruir. Assumiu-se, teve muita discussão, todos participaram na discussão, e fez-se. Bem ou mal, fez-se.

Mas teve uma derrapagem gigante.

Por que não utilizaram os instrumentos de fiscalização? Uma coisa é certa, está feito.

Acredita que a questão estética teve influência na opinião dos leirienses?

Costumo dizer que quando projectou o estádio Tomás Taveira não veio a Leiria e, por isso, desenhou-o ao contrário. Ninguém lhe explicou que num dos topos havia uma avenida. Por que não puseram o topo virado para a 25 de Abril? Teria outra importância, outro aproveitamento e já estava vendido há muito tempo.

Quais são as melhores recordações que guarda destes 15 anos?

O Euro'2004 foi um momento único, sem dúvida alguma. A subida da União de Leiria, no tempo do Manuel Fernandes, também foi um episódio marcante. A equipa subiu em Aveiro, num jogo com o Beira-Mar, e foram fazer a festa ao estádio. Também não posso esquecer as vezes em que o Leiria e Marrazes fez daquele estádio sua casa.

E o pior?

Sem qualquer dúvida, a morte do adepto do Benfica no topo Sul, em Janeiro de 2005. Foi um momento que marca sempre. Apesar de não termos tido culpa, como se veio a provar, há sempre coisas que se põem em causa de forma injusta, nomeadamente as questões de segurança, que nada tinham que ver com o sucedido.

Foram dias sem dormir?

Sim. Especialmente essa semana de inquérito. E depois todo o aproveitamento político da situação.

Houve mais sustos?

Recordo-me do célebre jogo da final da Taça da Liga. Foi realizada em situações extremas, porque estava a decorrer a Feira de Maio. A organização, onde se incluía a Polícia, assumiu realizar o jogo numa altura em que estava acentuada a rivalidade entre as claques do Benfica e do FC Porto, com os Super Dragões a infiltrarem-se na claque do Rio Ave. Foi terrível. Aliás, no fim de um jogo que tenha as claques do FC Porto, do Benfica ou do Sporting, a nossa preocupação é contar as cadeiras partidas. Em vêm para estragar.

Portugal jogou em Leiria com a Bélgica, após o atentado de Bruxelas, e com os Estados Unidos, numa fase de tensão global.

No Euro'2004 e no jogo com os Estados Unidos do ano passado, todas as condutas foram verificadas e seladas pela Polícia. Tudo é vistoriado pelas brigadas anti-explosivos. Todas essas acções, que demoram imenso tempo, ninguém vê. Quando começa o jogo ninguém imagina o trabalho de segurança que foi feito.

Houve outros momentos marcantes?

No jogo da França com a Croácia do Euro'2004, por exemplo, estávamos num momento em que a utilização da burqa tinha acabado de ser proibida em França. Como se sabe, há comunidades árabes aqui perto. Estivemos rodeados de altíssimas medidas de segurança, com todas as especialidades da Polícia presentes, desde os snipers, aos anti-snipers. Estavam nas zonas das coberturas, no topo dos prédios da Avenida 25 de Abril, em todo o lado...

A adrenalina sobe?

Não. Sentimos é o peso da responsabilidade. E tira o sono poder imaginar que está tudo bem e que pode acontecer alguma tragédia. Ainda assim, o adepto tem de assistir ao jogo como se nada fosse. Para ele, tem de ser uma festa. Por isso, a parte melhor é quando todos se vão embora e estamos a fazer o off da iluminação. Quando tudo corre bem, esse momento é indescritível.

Deve ter histórias incríveis.

Com o Kuwait, na inauguração o estádio, nem havia bancos de suplentes. Chegaram do Porto e tive de pedir à Polícia para fazer escolta aos bancos. Na primeira parte, os suplentes estiveram em bancos ao ar livre e só no intervalo é que os colocámos. Pouco tempo depois, em Novembro de 2003, as obras ainda estavam atrasadas e lembrei-me que tinha de testar a segurança da infra-estrutura. Convidei as escolas para servirem de público, o regimento de artilharia como sendo os adeptos mais irreverentes e a polícia e os bombeiros para fazerem o seu papel. Eram dois mil figurantes e só havia problemas. Os torniquetes não funcionaram. Foi o primeiro simulacro e correu as televisões da Europa.

Passados estes 15 anos ainda estamos seguros debaixo daquelas coberturas gigantescas e pesadíssimas?

Sim, mas tem de haver investimento. Tem de ser planeado e não se pode cometer o erro de querer poupar quando a segurança está em causa. A manutenção é fundamental e não é possível abandoná-la. O que interessa poupar cinco hoje se amanhã vou ter de gastar vinte? Há que manter esse procedimento. É uma casa que de um momento para o outro pode ter 20 mil pessoas.

Pelo Magalhães Pessoa passaram muitos dos melhores futebolistas no mundo. Houve algum pedido de estrela de rock?

O mais exigente era o Jorge Jesus, enquanto treinador da União de Leiria. Ele era o homem do detalhe. Era o primeiro defensor da estabilidade do futebolista. O facto de o jogador poder colocar o carro no parque de estacionamento do estádio tinha tanta importância quanto uma boa movimentação dentro de campo, porque contribuía para o bem-estar do atleta. Também não esqueço o Sá Pinto, que achava um rufia, mas afinal é exactamente o contrário.

Qual foi o melhor jogo a que assistiu?

Não tinha tempo para ver jogos. Só apreciava os bruás.

O que acha da política desportiva do concelho?

Houve uma fase muito boa, de diálogo com as instituições. Na verdade, a actividade desportiva não se compadece com burocracias. O movimento associativo avança com pessoas que trabalham e não precisam de quem lhes complique a vida. Querem resolver as coisas, querem dar resposta aos pais, que actualmente pagam para ver os filhos a praticar actividade física. Os apoios têm de continuar a ser dados de forma equitativa, mas a Câmara tem de sentir os verdadeiros problemas dos clubes e não se pode sentar atrás das secretárias. 

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