Entrevista

Entrevista | Ana Leal: "Se fosse no Brasil provavelmente já estaria morta"

26 abr 2018 00:00

A jornalista da TVI diz que Portugal é um País capturado pela indústria do fogo.

A reportagem da Ana Leal emitida pela TVI aponta para premeditação e fogo posto no Pinhal de Leiria. Ficará surpreendida se a culpa morrer solteira, se não existirem condenações em tribunal?
Cabe à Polícia Judiciária fazer o papel que não nos cabe a nós jornalistas e tenho esperança que a Polícia Judiciária agora faça o seu papel. E a minha experiência, das minhas investigações, dá-me essa esperança. Ainda agora, três anos depois, foi tudo acusado nos colégios privados do GPS, uma investigação feita por mim. Portanto, as pessoas têm que ter noção que uma investigação jornalística nada tem a ver com uma investigação criminal. E os timings muito menos. Se calhar vai ser uma investigação demorada, mas acredito e espero que tenha consequências. 

Os dados que estão disponíveis permitem a identificação dos presumíveis culpados pela Polícia Judiciária e pelo Ministério Público? 
As empresas e as pessoas estão perfeitamente identificadas. Com certeza. Quem esteve na reunião.

O que encontraram no Pinhal de Leiria encaixa no contexto da indústria da floresta e dos incêndios?
Todos nós andávamos há anos, uma vida inteira, se calhar, a ouvir falar destas histórias e nunca tínhamos chegado a isto. Fiz uma investigação concreta que tem a ver com o Pinhal de Leiria, não posso, nem quero, nem devo, generalizar para o resto do País. 

Como é que classifica o que aconteceu no Pinhal de Leiria? 
Associação criminosa. Entre outros muitos crimes que poderá configurar. Há uma conspiração, há uma associação criminosa e tudo o que advém daí, porque há outros crimes, que competirá ao Ministério Público saber quais. Falando agora apenas na base da minha convicção - uma coisa é aquilo que apresentei factualmente outra coisa é a minha convicção - há uma série de factores, que reunidos, culminaram nesta tragédia. Não faço ideia se eles queriam que ardesse tudo, o que sei é que houve uma série de factores, nomeadamente o tufão Ofélia e o facto de a mata estar negligenciada pelo Estado, o que tornou aquilo num barril de pólvora. 

Portugal está capturado pela indústria do fogo? 
Está, desde sempre, e eu mostrei também numa reportagem que se chamou O cartel do fogo precisamente isso mesmo. Isto atravessa vários governos, e nomeadamente o governo do Partido Socialista, que só fez asneiradas, e que foi conivente com tudo, e continua a ser, porque os Kamov aí continuam, não vejo penalizações, nada, vejo-os em terra, e nós pagámos uma fortuna por eles. 

O País está à mercê de interesses? 
Com certeza. Fizeram contratos assumidamente prejudiciais para o próprio Estado, que prejudicaram o próprio Estado, uma sucessão deles, com empresas suspeitas. Inclusivamente, há uma investigação em Espanha que está a decorrer que envolve algumas dessas empresas em Portugal, e mesmo assim, governos após governos, continuaram a dar a essas empresas suspeitas contratos de adjudicação de meios aéreos. 

É frequente receber ameaças durante a investigação ou depois de as reportagens irem para o ar?
É. Antes, durante e depois. Não gosto muito de falar do assunto, porque se calhar, se pensasse muito não fazia nada. Acho é que tenho a felicidade de viver num País que é maravilhoso a todos os níveis, incluindo esse. Porque se fosse no Brasil provavelmente já estaria morta. O que sei é que enquanto for jornalista nada me irá deter. 

 

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