Entrevista

ENTREVISTA | Almirante Silva Ribeiro: “Tancos foi algo inadmissível nas Forças Armadas. Mas o Exército não é Tancos”

18 jul 2019 00:00

O chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas fala da possibilidade da abertura da BA5 à aviação civil e recorda a infância vivida em Pombal.

Maria Anabela Silva

Quando iniciou funções, apresentou uma directiva estratégica com nove objectivos. Numa entrevista recente apontou como prioritário a aproximação das Forças Armadas à sociedade civil. Porquê? 
Os portugueses não conhecem suficientemente as Forças Armadas (FA). A seguir ao 25 de Abril, as FA fecharam- se um pouco sobre elas próprias, fruto das circunstâncias políticas. Por outro lado, desenvolveu-se no seio das FA a ideia de que a responsabilidade de divulgar aquilo que os militares faziam era dos políticos e que os militares tinham de se concentrar nas questões operacionais. Ora, isto é um desvio profundo ao que tinha sido a carreira e a vida dos oficiais durante o século XX, com gente de elevada qualidade a interagir com a sociedade em diversas áreas. Após o 25 de Abril, havia a ideia de que isso não era conveniente. Isso levou a que os mais habilitados da instituição militar se afastassem da interacção com as diferentes organizações. Esse distanciamento começou a ser reduzido com o comandante Virgílio Carvalho, que a determinada altura passou a fazer comentários na televisão sobre questões militares e os conflitos internacionais. Depois, apareceu também o general Loureiro dos Santos, o almirante Vieira Matias e outros oficiais. Foi assim que as FA se começaram a abrir.

Mas é preciso ir mais longe. 
Exacto. É preciso abrir as unidades, fazer com que os dias da Força Aérea, da Marinha ou do Exército sejam dias de grande abertura à comunidade. Estes gestos devem ser complementados com outras iniciativas, como os programas Alista-te por um dia, Cidadania e Forças Armadas e Portugal e as Forças Armadas, que têm como objectivo fazer com que as crianças e jovens, desde o 1.º ciclo ao ensino universitário, conheçam e contactem com as FA. Temos também de dinamizar outras acções de interacção com a sociedade e falar da nossa actividade.

Leia aqui a segunda parte desta entrevista:
“É no mar que estão os recursos que Portugal não tem em terra"”

Espera que esse trabalho possa atrair mais jovens para as FA, ajudando a colmatar a falta de efectivos? 
No Exército são precisos 4100 praças, enquanto na Força Aérea faltam cerca de 900 e na Marinha mais de 600. Este é um problema muito complexo e não resulta só da falta de abertura das FA à sociedade. Há um conjunto de medidas que têm de ser tomadas, de forma a garantir que os militares têm condições para servir o País com equidade relativamente a outras forças congéneres, desde logo, do ponto de vista salarial. Os militares ganham menos do que outras profissões semelhantes. Um praça dos quadros permanentes da Marinha aufere cerca de 700 euros. No posto equivalente na GNR ou na PSP ganha mais de 1100. É também preciso criar carreiras nos quadros permanentes do Exército e da Força Aérea e melhorar as instalações militares. Temos de garantir que a condição militar é recuperada, de forma a que as reduções de direitos, liberdades e garantias a que os militares são sujeitos tenham uma compensação. É absolutamente decisivo rever as condições de assistência na saúde aos militares e às suas famílias, que têm vindo a ser reduzidas. A conjugação de todos estes aspectos fará com que a carreira militar seja, de novo, atractiva.

Nascido em Pombal há 61 anos
“Aficionado” pelo ciclismo e pelo futebol

Foi em Pombal, junto à linha de comboio, que nasceu e viveu até aos 13 anos. Desse tempo, recorda uma infância “extremamente feliz”, marcada pela “excelência” dos professores e da relação próxima com avô materno, que foi sargento da Marinha e que teve uma influência “decisiva” no percurso que seguiu.

“Nunca tive outra vocação que não fosse a de ser oficial da Marinha”, confessa o almirante António Silva Ribeiro, chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas desde Março de 2018. Entrou para a Escola Naval em 1974, no ano em que perdeu o avô.

Concluída a licenciatura em Ciências Militares-Navais, foi para os EUA fazer o curso de hidrografia. “Pude ver o que era uma democracia a funcionar, com um sistema de ensino profundamente diferente. Aprendi que qualquer professor que goste de ser professor existe para estar à disposição dos seus alunos.”

De regresso a Portugal, prosseguiu a sua carreira militar, tendo desempenhado, entre outras, as funções de chefe de Estado-Maior da Armada, de director-geral do Instituto Hidrográfico e da Autoridade Marítima. É também um académico especializado nas áreas da estratégia, ciência política e história, com uma extensa obra publicada.

“A escrita é um exercício de reflexão que faço comigo próprio”, diz, confessando que o que mais tranquilidade lhe dá é “ter uma folha de papel à frente, um lápis e uma borracha e escrever”. Confessa-se ainda um “aficionado” pelo ciclismo, modalidade que praticou, e pelo futebol, sendo “um adepto dedicado e sofredor” do Sporting.

Alguns países estão a reintroduzir o serviço militar obrigatário. Portugal deve seguir essa linha? 
O debate é essencial. Se países como a Suécia e a França, que são grandes democracias, estão a reintroduzir o serviço militar obrigatório, Portugal não pode ficar fora do debate. No caso da França, é seguido um modelo de serviço universal, uma espécie de serviço cívico, que integra uma componente relacionada com as FA. Parece-me uma fórmula muito adequada. Esta é uma questão essencialmente política, mas considero salutar que, depois de terminarem o 12.º ano, os jovens possam fazer um período de serviço voluntário ao País.

O caso de Tancos afectou a relação de confiança entre os portugueses e as FA?
Tancos foi algo inadmissível nas Forças Armadas. Mas o Exército não é Tancos. O que se passou em Tancos não reflecte, nem de perto nem de longe, a competência, o rigor, a capacidade de comando, a disciplina e o brio profissional do nosso Exército. Sendo inadmissível a repetição de um fenómeno destes, o caso de Tancos não traduz, de forma alguma, a situação 

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